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Pequena África como referência

Por Meia Hora

Publicado em 01/03/2026 00:00:00 Atualizado em 01/03/2026 00:00:00
Perifa

Na região portuária do Rio de Janeiro, onde o passado da escravidão se materializa nas pedras do Cais do Valongo, um novo ciclo começa a ser estruturado. Segundo o IBGE (Censo 2022), cerca de 27 mil moradores e trabalhadores circulam e vivem no território da Pequena África, um dado que reforça o tamanho do desafio e da oportunidade de reposicionamento da área como polo de desenvolvimento cultural, econômico e político.

É nesse contexto que o Viva Pequena África (IVPA) inicia, em 2026, uma etapa de consolidação nacional e internacional. A proposta vai além da preservação histórica. A iniciativa se apresenta como o primeiro modelo brasileiro de desenvolvimento territorial negro com governança compartilhada, incidência em políticas públicas e estratégia de escala.

Reconhecida mundialmente pelo Sítio Arqueológico do Cais do Valongo, inscrito como Patrimônio Mundial pela Unesco, a Pequena África concentra parte significativa da história da diáspora africana nas Américas. Mas o projeto propõe deslocar o foco. Não se trata apenas de lembrar o passado, mas de estruturar o território como plataforma de futuro.

"Com a experiência de quem já viu e construiu muito, digo com convicção: a Pequena África não é apenas um portal para o passado, um venerável guardião de memórias. Ela é, e precisa ser entendida como tal, uma poderosa tecnologia social de desenvolvimento. Estamos falando de uma mudança de paradigma essencial", explica o diretor executivo Gilberto Alves.

O Viva Pequena África é fruto de um consórcio entre três organizações negras com atuação nacional: CEAP, Feira Preta e Diáspora.Black. O modelo aposta em governança compartilhada, centralidade territorial e comunicação estratégica como ferramenta de transformação social.

A iniciativa articula cultura, economia criativa, turismo de base comunitária, formação técnica e incidência institucional. Ao tratar territórios negros como método de desenvolvimento — e não como margem — o projeto dialoga com agendas contemporâneas de direitos humanos, reparação histórica e inovação urbana.

"Nosso propósito é impulsionar a região do 'já foi' para o 'agora é' e, mais importante, para o 'será'. A iniciativa que hoje lidero propõe ativar o potencial latente de cada rua, de cada batuque, de cada sorriso e cada desafio. Queremos transformar esse berço de cultura e resiliência em um motor pulsante", destaca Gilberto.

O objetivo é claro: consolidar a Pequena África como referência de governança territorial negra no Brasil e no exterior, conectando memória histórica, economia local e inovação social.

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