Slam deixa de ser só batalha
Curso gratuito em Madureira quer multiplicar poesia nas periferias do Rio
Por Meia Hora
Publicado em 29/03/2026 00:00:00 Atualizado em 29/03/2026 00:00:00Nascido nos Estados Unidos como uma alternativa mais dinâmica aos recitais acadêmicos de poesia, o slam ganhou novos contornos ao chegar ao Brasil. Aqui, foi apropriado por jovens negros e periféricos e se transformou em movimento cultural. É a partir dessa virada que surge o Slammasters, primeira formação gratuita voltada à capacitação de organizadores de batalhas de poesia no estado, que acontece em abril no Sesc Madureira.
Criado pelas produtoras Preta Poética e Karyne Passos, o curso parte de uma demanda recorrente dentro do próprio movimento, pessoas interessadas em levar batalhas para escolas, bairros e favelas, mas sem domínio das regras, da história e da estrutura necessária. A proposta vai além de ensinar a organizar eventos, quer estruturar e expandir uma rede que já existe nas bordas da cidade.
Embora hoje esteja fortemente associado às periferias, o slam não nasce nesses territórios. Segundo Karyne, o formato surgiu em Chicago, idealizado por um homem branco que buscava romper com a rigidez e a monotonia dos recitais de poesia dominados pela academia. É no Brasil, porém, que o movimento ganha outra dimensão. "Aqui, a galera negra e periférica toma o slam pra si e faz disso seu movimento", afirma.
Essa apropriação redefine não só os temas, mas a função do slam. Mais do que performance, ele passa a atuar como ferramenta de letramento, formação crítica e reeducação das relações raciais.
A tentativa de sistematizar o ensino do slam pode soar, à primeira vista, como um risco de engessamento. Mas, para as organizadoras, a padronização mínima é justamente o que permite a expansão do movimento. "É uma dinâmica brincante, mas não é uma brincadeira sem regra. Se você não conhece os fundamentos, você faz coisas que não podem ser chamadas de slam", diz Karyne. Ao mesmo tempo, ela reconhece que há espaço para adaptação: "Nem todas as regras são escritas em pedra. Cada slam tem sua identidade".
Na prática, isso significa preparar participantes para transitar entre diferentes circuitos, de batalhas locais a campeonatos estaduais e nacionais, sem perder potência performática.
Um dos pontos centrais da formação é a inclusão. O curso reserva vagas para pessoas com deficiência auditiva e contará com acessibilidade em Libras, uma resposta direta a uma demanda identificada dentro do próprio movimento.
Além disso, o foco em educadores não é casual. A ideia é que professores levem o slam para dentro das salas de aula, ampliando o alcance do movimento entre jovens. Para além da dimensão simbólica, o slam também se consolida como possibilidade concreta de trabalho e geração de renda, especialmente para jovens periféricos. "Muita gente cresce sem perspectiva de futuro. O slam mostra que é possível viver da arte, produzir, ensinar, organizar eventos. Ele abre caminhos", diz Karyne.
A expectativa é que a formação funcione como catalisadora, para fortalecer quem já atua no movimento e estimular o surgimento de novos coletivos, sobretudo em territórios onde ainda não há batalhas organizadas.
A imersão acontece nos dias 11, 18 e 25 de abril, por meio do Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, com encontros que combinam teoria e prática, da história do movimento à escrita criativa, passando por performance e produção cultural. No último dia, os próprios participantes organizam um slam aberto ao público, ocupando o teatro do Sesc Madureira. A inscrição é gratuita e o link será disponibilizado nos perfis @slamrj, @sescrio e @sescmadureira no Instagram.