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ESCOLA SOB TIRO: IR À AULA VIRA RISCO NO RIO DE JANEIRO

Violência afeta 3 em cada 4 dias letivos e impacta mais de 1 milhão de trajetos escolares

Por Meia Hora

Publicado em 12/04/2026 00:00:00 Atualizado em 12/04/2026 00:00:00
Perifa

No Rio de Janeiro, ir à escola deixou de ser apenas parte da rotina e passou a envolver risco. O relatório Percursos Interrompidos, do Fogo Cruzado, em parceria com o UNICEF e o GENI/UFF, mostra que três em cada quatro dias letivos foram impactados pela violência armada entre 2023 e 2025. Ao todo, 377 dias de aula tiveram algum tipo de interrupção, afetando diretamente o deslocamento de estudantes.

Nesse período, foram registrados mais de 1 milhão de trajetos escolares potencialmente comprometidos, resultado de interrupções no transporte público provocadas por tiroteios, operações policiais e barricadas. A maioria dessas ocorrências acontece justamente no horário mais crítico: a chegada à escola. Mais da metade começa entre 6h30 e 8h, período em que alunos estão a caminho das aulas.

Segundo a diretora de dados e transparência do instituto, Maria Isabel Couto, o cenário já não é pontual. "A instabilidade virou regra para uma parte significativa dos estudantes. Estamos falando de um comprometimento sistemático do direito à educação", afirma.

As interrupções são longas. Em dias letivos, duram em média 8 horas e 13 minutos, tempo suficiente para comprometer um turno inteiro — e, em muitos casos, todo o dia escolar. Mais da metade ultrapassa quatro horas.

O impacto se concentra em regiões historicamente mais vulneráveis. Zonas Norte e Oeste lideram os registros, com bairros como Penha, Jacarepaguá e Bangu acumulando o maior número de interrupções. Em alguns casos, esses territórios somam o equivalente a quase 90 dias letivos de paralisação, criando calendários escolares completamente diferentes dentro da mesma cidade.

Além da desigualdade territorial, o relatório evidencia um recorte racial. Escolas com maior risco de interrupção concentram mais estudantes negros. "A violência armada não cria essa desigualdade, mas a aprofunda sistematicamente", destaca Couto.

Os efeitos vão além do acesso físico à escola e atingem diretamente o aprendizado. De acordo com o pedagogo e psicopedagogo Rian França, o processo de aprendizagem depende de regularidade e previsibilidade, e interrupções constantes podem comprometer a consolidação da memória de longo prazo e a organização cognitiva.

O especialista também aponta que o medo e a insegurança afetam o funcionamento do cérebro, reduzindo a atenção sustentada, prejudicando a memória de trabalho e aumentando a ansiedade. Entre os sinais observados estão irritabilidade, queda no rendimento, alterações no sono e isolamento social.

A médio e longo prazo, os prejuízos podem incluir defasagem escolar, baixa autoestima acadêmica e risco de evasão. Em cenários de instabilidade frequente, a menor constância tende a resultar em menor assimilação de conteúdo.

Para os pesquisadores, o problema não pode ser tratado apenas como questão de segurança pública. O relatório aponta que a interrupção da mobilidade representa, na prática, uma interrupção de direitos, já que impede o acesso à educação, à alimentação escolar e à rede de proteção social.

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