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Chacina na Penha não freou a violência

Seis meses após megaoperação, tiroteios seguem, número de baleados cresce e tráfico mantém domínio territorial

Por Meia Hora

Publicado em 10/05/2026 00:00:00 Atualizado em 10/05/2026 00:00:00
Protesto contra a operação policial que deixou mais de 120 pessoas mortas no Complexo da Penha

Seis meses após a megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão, que terminou com 122 mortos e entrou para a história como a mais letal já registrada no Rio de Janeiro, a rotina de violência armada continua praticamente a mesma na região. Dados do Instituto Fogo Cruzado mostram que os confrontos seguem intensos e que o crime organizado mantém força territorial.

Para Carlos Nhanga, coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Rio, os números mostram que a ação não alterou a lógica da violência.

"Os dados revelam que a Operação Contenção não alterou a dinâmica da violência armada na região. Nos seis meses que se seguiram à operação, registramos 35 tiroteios, somente na região da Penha e entorno, contra 37 no período anterior. As pessoas baleadas passaram de 14 para 18, os mortos de 5 para 6 e os feridos de 9 para 12. Ou seja, não houve recuo", afirma.

Segundo o Instituto, o Comando Vermelho ampliou em 89,2% seu domínio territorial entre 2007 e 2024 e exerce controle sobre áreas onde vivem cerca de 1,6 milhão de pessoas na Região Metropolitana do Rio.

Os impactos vão além dos tiroteios. Segundo o Instituto, em 2025, ações policiais responderam por mais de 50% dos tiroteios registrados no entorno de unidades de ensino no Rio, afetando a rotina de 565 escolas.

"A violência armada não afeta só quem está na linha de tiro. Ela reorganiza a vida inteira de quem mora nos territórios que vivem essa realidade. Trabalhadores que não conseguem chegar ao emprego, crianças que não conseguem chegar à escola, postos de saúde fechados no meio do dia", diz Carlos.

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar não respondeu até o fechamento desta edição. Já a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro afirmou que a Operação Contenção é uma ação contínua e integra a estratégia do governo no enfrentamento às organizações criminosas. Segundo a pasta, as medidas buscam "asfixiar financeiramente o Comando Vermelho e impedir avanços territoriais da facção".

A secretaria afirma ainda que as operações vêm contribuindo para o enfraquecimento dessas estruturas, com apreensão de armas e prisão de lideranças e integrantes do crime organizado. Também que seguirá investindo em tecnologia, inteligência e capacitação das forças de segurança.

Enquanto o governo aposta em continuidade e inteligência, os dados do Fogo Cruzado indicam que a rotina de tiros e interrupções na vida de moradores segue quase inalterada.

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