Alô Comunidade

A vida de uma mãe solo do Rio de Janeiro

Além de sustentar os filhos, muita precisam conciliar trabalho, cuidados com a família e tarefas domésticas

Por Meia Hora

Publicado em 07/06/2026 08:00:00 Atualizado em 07/06/2026 08:00:00
Daniele: trabalho, cuidados com a filha, tarefas domésticas e estudos
"Se a minha mãe não estivesse lá para ajudar, provavelmente eu não conseguiria trabalhar." A frase da manicure Daniele Ventura, de 30 anos, resume a realidade de muitas mães solo do Rio de Janeiro. Moradora do Tanque, na Zona Sudoeste, ela se divide entre o trabalho, os cuidados com a filha de 1 ano, as tarefas domésticas e os estudos.

A rotina começa cedo e termina tarde. Depois de mais de oito horas de trabalho, Daniele volta para casa para cuidar da filha, organizar a casa e tentar acompanhar um curso na modalidade de ensino a distância (EAD). Nem sempre consegue. Em muitos dias, o cansaço físico e mental fala mais alto.

A história da manicure reflete uma realidade cada vez mais presente na cidade. Além de sustentar os filhos, muitas mães solo precisam conciliar trabalho, cuidados com a família e tarefas domésticas, muitas vezes sem uma rede de apoio que permita equilibrar todas essas responsabilidades.

Dados da Prefeitura do Rio mostram que 53% dos domicílios da cidade são chefiados por mulheres. Entre MH as famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), utilizado para acesso a programas sociais, esse percentual sobe para 75%, evidenciando a presença feminina entre os grupos mais vulneráveis do município.

O levantamento da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres e Cuidados também aponta que 68,4% das mulheres responsáveis pelas famílias cadastradas no CadÚnico são negras. Além disso, 83,2% da população negra inscrita no cadastro vive em lares liderados por mulheres. Os dados reforçam a relação entre desigualdade social, raça e chefia feminina dos domicílios.

Outro desafio é a sobrecarga dos cuidados com a casa e a família. Segundo a prefeitura, as mulheres dedicam, em média, quase 20 horas por semana aos cuidados e afazeres domésticos não remunerados, enquanto os homens dedicam cerca de 13 horas. Esse tempo reduz as oportunidades de qualificação, geração de renda e crescimento profissional, especialmente entre mulheres responsáveis sozinhas pela criação dos filhos.

Para Daniele, a ajuda da mãe é fundamental para manter a rotina funcionando. Enquanto trabalha, é a avó quem cuida da criança. Como microempreendedora individual (MEI), a manicure depende exclusivamente do próprio trabalho para sustentar a filha e pagar as contas da casa.

Segundo a Prefeitura do Rio, três em cada quatro famílias inscritas no CadÚnico têm uma mulher como responsável pelo domicílio. Para Daniele, além das dificuldades financeiras, pesa também o julgamento social. Perguntas sobre a ausência do pai da criança são frequentes e acabam aumentando a pressão sobre quem já carrega sozinha a responsabilidade pela criação dos filhos.

"O julgamento é uma das piores partes. Em vez de ajudar, as pessoas acabam deixando a mãe mais insegura", relata. Apesar da sobrecarga e das dificuldades do dia a dia, ela segue em frente pensando no futuro da filha. "Às vezes falta dinheiro para outras coisas, mas não deixo faltar leite."

Por Felipe Migliani, repórter e colaborador do PerifaConnection
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