'A agressividade existe e não adianta só pensar positivo'
Por Agência Estado
Publicado em 11/05/2026 08:19:17"Às vezes dizemos que a humanidade não tem jeito. Eu não acredito nisso", defende Monja Coen, fundadora da comunidade zen-budista no Brasil. Autora de mais de 30 livros, dentre os quais os best-sellers O Que Aprendi com o Silêncio: Uma Autobiografia e Zen para Distraídos, a missionária de 78 anos, conhecida por seus ensinamentos e incentivo a práticas de autoconhecimento, é uma das palestrantes confirmadas na São Paulo Innovation Week.
Ela participa do painel O que é a realidade? Ciência, espiritualidade e sabedoria ancestral em diálogo ao lado de Ailton Krenak e Marcelo Gleiser na quarta-feira, 13, às 17h15.
O evento de inovação, tecnologia e empreendedorismo reunirá mais de mil convidados brasileiros e internacionais, entre os dias 13 e 15 de maio, na Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos. Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto ou adquirir o passaporte para os três dias.
Antes de virar uma das figuras religiosas mais conhecidas do Brasil, Cláudia Dias Baptista de Souza viveu uma juventude intensa e turbulenta. Casou-se aos 14 anos e teve uma filha aos 17.
Trabalhou como repórter no Jornal da Tarde, que integrava o Grupo Estado, circulou no meio artístico por ser prima dos integrantes da banda Os Mutantes e chegou fazer curso de modelo.
Sofreu abusos, envolveu-se com outros homens, passou por crises emocionais, entrou no universo das drogas e tentou tirar a própria vida.
Hoje, para Monja Coen, o que importa é o presente. Em seu livro de memórias, ela escreve que "é inadequado perguntar a uma pessoa que fez os votos monásticos como era antes dos votos". Por respeito a essa visão, esta entrevista evita se aprofundar em tais detalhes.
Eu gostaria de começar mencionando um episódio da sua autobiografia, no qual menciona a morte de John Lennon como um momento transformador em sua vida. Aquele episódio teve um peso grande para você migrar para o budismo?
Eu já estava fazendo meu primeiro retiro de 7 dias no budismo quando ele morreu. Foi bem impactante, mas o que me levou mesmo para o zen foi, em parte, o Jornal da Tarde, porque uma vez me pediram para fazer uma matéria sobre sociedades alternativas. E o Estadão tem um dos maiores arquivos do mundo. Encontrei matérias de sociedades alternativas nos EUA. E uma delas era sobre um grupo zen-budista. Me interessei e fui morar no Exterior.
Qual sua experiência mais inacreditável com o budismo?
Foi o primeiro retiro intenso que eu fiz. Nós sentávamos cerca de 16 horas por dia, olhando para uma parede e, de repente, comecei a ver coisas se mexendo nessa parede. É algo que acontece em processos intensos de meditação. É como se fossem projeções mentais em forma de imagens. Percebi que há um processo de você estar em comunhão com tudo o que existe, tudo que foi e tudo que será.
Uma das suas frases diz 'Tudo o que fazemos, pensamos, falamos, mexe na teia da vida'. Explique melhor esse conceito.
Nós vivemos em rede. Uma das analogias de Buda é que tudo no universo é como se fossem fios luminosos, multicoloridos, onde, em cada intersecção, está uma joia, e esta joia emite luz em todas as direções. Então, temos de ser um pouco mais cuidadosos com o que falamos e pensamos. Às vezes dizemos que a humanidade não tem jeito. Eu não acredito nisso. Estamos bem melhor do que estávamos há mil anos. Estamos num processo de transformação contínuo, mas temos de direcionar essa transformação. Saber usar, por exemplo, a inteligência artificial, para que seja útil para nós.
Vivemos uma época de muita ansiedade coletiva. Diante de tanta crise, como fazemos para não cair na indiferença nem no desespero?
O contrário do amor não é o ódio, mas é a indiferença. Se estamos no Brasil, nós vivemos a realidade brasileira. E somos tocados por aquilo que acontece. Como eu transformo aquilo que eu acho que é impróprio, inadequado? Não é só lastimar nem brigar por isso. Este ano vai ser um ano difícil, de eleições, e as pessoas já ficam se polarizando, quando na verdade há um grupo só: o dos seres humanos. Temos de sair do partidarismo. É preciso que voltemos a trabalhar com a ética no sentido do que é bom para o maior número de seres, não só o que é bom para mim. Eu costumo dizer: saia da primeira pessoa do singular e comece a entrar na primeira do plural.
Quando temos pensamentos negativos, temos de aceitá-los ou transformá-los?
Temos de observar por que isso está acontecendo de forma recorrente. Não é dizer que está tudo lindo e maravilhoso. O que nós falamos, fazemos e pensamos, modifica a realidade. O pensamento positivo é como atuar para que as coisas fiquem melhores. A agressividade existe em nós e sobrevivemos porque também somos agressivos. Não basta só pensar positivo.
A senhora é nervosa?
Claro. Eu sou nervosa, faço gestos. Eu quero que as pessoas despertem e deixem de ser bobinhas, que vejam o que é o real e atuem para transformar isso. Fico às vezes muito aflita quando dou um conselho e a pessoa faz o oposto. Não tenho muita paciência e já falo meio duro.
Vivemos uma era de escassez do silêncio. O que perdemos quando não conseguimos ter vazio ao nosso redor?
Podemos criar esses espaços. A minha sala de meditação atual fica na região Pompeia/Perdizes e até a madrugada ouço ônibus, caminhões e motocicletas passando. Mas o que a gente faz para meditar nessa casa? Respiramos, nos concentramos nas pausas e o som fica como um pano de fundo.
Entende que o celular é algo nocivo?
Não, o celular é um grande parceiro para mim. Mas se eu ficar dependente do celular para sentir prazer na vida, isso não vai me fazer bem. A tecnologia não é nociva, ela é neutra. Temos de educar a nós, aos nossos avós, aos nossos filhos e netos, a usar a tecnologia a nosso favor, não a favor dela.
Como é a rotina da senhora hoje em São Paulo? O que gosta de fazer?
Eu tenho cachorros em casa, filhotinhos que nasceram em 17 de janeiro e a mãe morreu. Minha vida este ano mudou completamente por causa desses bebês.
Como é a relação da senhora com o dinheiro?
É uma relação de necessidade. Estou sempre precisando. O dinheiro deve ser usado para aquilo que possa beneficiar o maior número de pessoas. Mas alguns ficam aprisionados com a ideia de que quanto mais eu tiver, mais feliz eu serei.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.