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'Estamos pedindo esmola': Todos Pela Educação sobre exigência de formação presencial

Por Agencia Estado

Publicado em 13/05/2026 15:30:55

A formação qualificada e presencial de professores é um instrumento chave para garantir a aprendizagem dos estudantes brasileiros. A opinião é da presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz. Ela defende que as licenciaturas no País tenham obrigatoriamente ao menos 50% da carga horária no formato presencial. "Parece que a gente está pedindo esmola. A gente está falando de 50% de presencialidade", critica.

As observações foram feitas durante o debate Crise de Aprendizagem: Por Que o Brasil Ainda Não Consegue Fazer Com Que Todas As Crianças Aprendam?, que ocorreu nesta quarta-feira, 13, no São Paulo Innovation Week. A palestra foi mediada pela repórter especial do Estadão, Renata Cafardo.

Atualmente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) debate a composição da carga horária dos cursos de licenciatura no País. O marco da Educação a Distância (EAD), firmado no ano passado pelo governo federal, fixou que cursos da área de educação podem ter o chamado ensino "semipresencial", no qual 30% da carga é obrigatoriamente presencial e os outros 20% podem ocorrer tanto nesse formato como no digital por meio de aulas ao vivo (síncronas).

Antes dessa regra, porém, uma resolução do próprio Ministério da Educação (MEC) estabeleceu que cursos de licenciatura devem ter obrigatoriamente 50% da carga horária no formato presencial. Agora, o CNE fará a adequação dessas duas regras. O debate, no entanto, será levado para consulta pública.

"O modelo de negócio de ensino superior é baseado na educação a distância", afirma Cruz. "A gente só aprende a ser professor se relacionado com o outro. Se tem uma profissão que a IA não vai substituir, é o professor."

O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, entre esta quarta-feira, 13, e sexta,15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.

Dados do Censo da Educação Superior mostram que em 2024, 68,5% das matrículas em cursos de licenciatura do País estavam na modalidade a distância. "Se você aprende a ser professor vendo vídeo e lendo documento de PDF, você não tem repertório para entender como se porta um bom professor. O professor da graduação é o maior exemplo para o futuro professor", diz a especialista.

Segundo ela, além da necessidade de investir na formação dos professores é preciso garantir que as crianças tenham uma boa educação na primeira infância para que tenham condições de avançar na escolarização. Além disso, Cruz destaca a importância da educação em tempo integral para auxiliar no avanço da aprendizagem no País. De acordo com o Indicador Criança Alfabetizada (ICA), criado pelo MEC, um estudante pode ser considerado alfabetizado se atingir 743 pontos na escala do Sistema Nacional da Avaliação Básica (Saeb).

Dados divulgados pelo MEC em março, mostram que em 2025, 66% das crianças brasileiras estavam alfabetizadas até o final do segundo ano, considerando o ICA. Já para Matemática, o governo federal lançou no fim do ano passado o "Compromisso Nacional Toda Matemática", que define a pontuação de 750 na escala do Saeb para considerar que um aluno do segundo ano do ensino fundamental aprendeu o necessário para a idade.

A aprendizagem adequada de leitura e matemática é uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE), que foi sancionado pelo presidente Lula em abril. A lei estabelece os objetivos para a educação brasileira para os próximos dez anos. Segundo o PNE, em dez anos, o Brasil deve garantir a alfabetização e nível adequado de aprendizagem em matemática para todas as crianças até o final do segundo ano do ensino fundamental.

Temas na campanha eleitoral

A repórter Renata Cafardo perguntou à especialista quais temas considera que estarão no centro do debate eleitoral. Para Priscila Cruz, três assuntos estarão em alta na campanha deste ano: o programa Pé-de-Meia, a educação domiciliar e as escolas cívico-militares.

O Pé-de-Meia é um programa federal com o propósito de evitar a evasão escolar. A iniciativa prevê o pagamento de uma bolsa para estudantes de baixa renda que frequentarem o ensino médio. Atualmente, os estudantes recebem um pagamento mensal de cerca de R$ 200. A especialista defende que o valor da bolsa seja maior ainda que menos alunos sejam beneficiados. Isso porque, segundo ela, uma pesquisa feita pelo Todos pela Educação mostrou que os estudantes abandonam a escola em busca de uma renda de cerca de R$ 800, de modo que o valor atual da bolsa pode não funcionar para reter quem de fato está saindo da escola.

No caso das chamadas "pautas ideológicas", Cruz opina que esses tópicos geram desinformação e conduzem a população para debates que não importam. "São muito mais para seduzir para um falso caminho, isso deseduca a população. A população passa a achar que o problema é o professor comunista, a falta de militarização nas escolas, quando o que a gente precisa é investir em professor, na primeira infância e na educação integral", diz.

No caso específico das escolas cívico-militares, a especialista afirma que "a grande evidência do Brasil está em escolas públicas que não são cívico-militares" em Estados como Ceará, Piauí e Pernambuco, entre outros.

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