Zélia Duncan e Seu Jorge defendem a imperfeição e o imprevisível da arte frente à IA
Por Agência Estado
Publicado em 13/05/2026 22:38:47"E aí, IA? Como é que você vai lidar comigo que quero ser gente?" A pergunta de Zélia Duncan nesta quarta-feira, 13, no palco do São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é um desafio lançado ao futuro.
Trata-se de um questionamento à inteligência artificial, não por hostilidade à tecnologia, mas por amor à imperfeição humana, explica a artista. "Eu quero a humanidade radical", diz Zélia. E foi esse desejo, radical e improvável, que atravessou o painel A Arte do Imprevisível, com Zélia e Seu Jorge.
Seu Jorge, inclusive, chegou sambando ao palco e foi recebido com aplausos. O clima era de celebração, novidade e entusiasmo com os novos projetos dos artistas. Zélia lança nesta quinta-feira, 14, o álbum Agudo Grave e Seu Jorge, o trabalho Other Side.
Na conversa sobre criação, resistência e identidade, os artistas e a mediadora Roberta Martinelli discutiram o que significa fazer arte em um tempo em que tudo é consumido antes de ser ouvido.
"Você sai na rua e fala: 'Ó, lancei um álbum'. Aí a pessoa pergunta: 'Cadê?' 'Tá na plataforma'", diz Zélia. Ela argumenta que a falta do álbum físico é sintoma de algo maior: a ilusão de alcance que as redes sociais fabricam. Para Seu Jorge, a internet também cria a sensação de que estamos atualizados e conectados com o mundo inteiro, mas ele indaga: "Qual o tamanho do seu mundo?"
Na conversa, Roberta Martinelli apontou que tanto Other Side quanto Agudo Grave foram feitos para uma escuta especial. São obras que pedem atenção, silêncio, presença. O exato oposto do scroll infinito.
Também nesse contexto, lançar um álbum completo em vez de singles isolados para alimentar o algoritmo foi tratado pelos artistas como um ato quase político. Um privilégio que preserva o que Seu Jorge chama de "tempo de musical real".
Para ele, a IA pode ser "uma ferramenta maravilhosa para mostrar para o povo que eles estão sendo enganados", uma provocação sobre autenticidade e manipulação no ambiente digital.
Os músicos defenderam que o sentimento, a imperfeição, o imprevisível são exatamente o que a arte humana tem de mais precioso. "A gente é o impossível", sintetiza Zélia ao falar do papel dos artistas. "Dá para deixar de lado o sonho só porque a gente é impossível? Porque a gente tá aqui para tentar."
Sempre em busca
Zélia diz que sua especialidade é "decepcionar seu público". Ela explica que os fãs sempre esperam uma nova Catedral, sucesso gravado em 1994, e que é "um grande desafio você dar certo em alguma coisa". "Você fica com medo de perder o que conquistou", confessa.
Seu Jorge também comentou o processo por trás de Other Side. A virada para o álbum veio quando alguém lhe deu um conselho simples: faça um disco de que você realmente goste. "Estou sempre buscando um Jorge que eu não conheço." E Zélia completou: "Eu espero que a gente nunca se encontre, para continuar a busca."
E, como não poderia ser diferente, o encontro encerrou com música. Seu Jorge apresentou "Poder da Criação", poema de Paulo César Pinheiro e João Nogueira que trata da relação profunda entre o canto e o cantor. Os versos reafirmam a música como uma missão espiritual e de resistência, funcionando como uma ferramenta para "anunciar o dia", "denunciar o açoite" e lutar "contra a tirania".
A canção terminou com uma metáfora sobre a imortalidade da arte: "Por que a cigarra quando canta morre e a madeira quando morre canta?"
SPIW
O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, entre esta quarta-feira, 13, e sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.