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A escola do seu filho está apta para casos de alergia? Médicos fazem alerta e dão orientações

Por Agencia Estado

Publicado em 20/05/2026 17:19:47

Em campanha nacional de conscientização sobre alergia alimentar, a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) alerta para a necessidade de escolas estarem preparadas para prevenir, identificar e manejar corretamente casos de anafilaxia.

A anafilaxia é uma reação alérgica grave, rápida e potencialmente fatal, geralmente desencadeada por alimentos, medicamentos, ferroadas de insetos ou contato com látex.

Segundo a médica alergista e imunologista Fátima Rodrigues Fernandes, presidente da Asbai, um dos principais problemas ainda observados nas instituições de ensino é a falta de protocolos estruturados e de treinamento adequado das equipes escolares.

"Muitas escolas desconhecem que a alergia alimentar pode desencadear anafilaxia, uma reação grave e potencialmente fatal, e acabam subestimando os sintomas iniciais", afirma a especialista.

Entre os problemas mais comuns identificados pela associação estão:

ausência de ficha de saúde atualizada do aluno;

falhas na comunicação entre família, professores, cantina e coordenação;

risco de contaminação cruzada durante o preparo ou compartilhamento de alimentos;

falta de treinamento para reconhecer sinais de gravidade;

medicamentos de emergência inacessíveis ou sem orientação de uso;

exclusão social da criança em refeições, festas e atividades escolares.

Orientações

A Asbai recomenda que as instituições evitem o compartilhamento de alimentos sem orientação, identifiquem alunos com alergias alimentares e capacitem professores e equipes para reconhecer sinais iniciais de reação alérgica. A entidade também aconselha práticas rigorosas em cozinhas e cantinas para evitar contaminação cruzada.

Outro ponto de atenção é o impacto emocional da alergia alimentar, especialmente em crianças. "Muitas convivem com medo constante de exposição acidental, sensação de exclusão e ansiedade em situações sociais envolvendo comida", explica Fátima.

No ambiente escolar, isso pode ocorrer em festas, lanches coletivos, aulas de culinária e comemorações. "Quando a escola não está preparada, a criança pode se sentir isolada ou diferente, o que afeta autoestima, socialização e qualidade de vida. Por isso, hoje se fala não apenas em segurança alimentar, mas também em inclusão escolar", completa.

Principais sintomas da anafilaxia

Os sintomas podem atingir diferentes sistemas do organismo, incluindo pele e mucosas (coceira, inchaço e vermelhidão), vias respiratórias (falta de ar, chiado e tosse), sistema gastrointestinal (náuseas, vômitos e cólicas), sistema cardiovascular (queda de pressão, desmaio e arritmias) e sistema neurológico (tontura, confusão mental e sensação de morte iminente).

As reações leves costumam se limitar à pele, com sintomas como coceira, vermelhidão localizada e pequenas placas de urticária.

Já a anafilaxia geralmente envolve sintomas sistêmicos e progressivos, especialmente dificuldade para respirar, chiado no peito, inchaço na língua ou garganta, rouquidão, queda de pressão e desmaio.

Outro fator importante é a rapidez da evolução do quadro.

"Na anafilaxia, os sintomas costumam surgir em minutos ou poucas horas após a exposição ao alimento e podem piorar rapidamente", afirma Fátima.

O Registro Brasileiro de Anafilaxia, criado pela Asbai, aponta que a condição ainda é subdiagnosticada no Brasil. O levantamento reúne atualmente dados de 318 pacientes, dos quais 163 são mulheres.

Segundo o registro, 42,1% das reações foram desencadeadas por alimentos. Os principais gatilhos identificados foram leite de vaca (12,9%), mariscos (6,9%), ovo (5,6%), trigo (3,1%) e amendoim (3,1%).

Os medicamentos representaram 32,4% dos casos, com destaque para agentes biológicos (10,4%), anti-inflamatórios (7,2%) e antibióticos (3,8%). Já os insetos, principalmente formigas (8,4%), foram responsáveis por 23,9% dos casos. Também foram registrados casos relacionados ao látex.

Tratamento e primeiros socorros

A Asbai recomenda encaminhamento imediato ao serviço de emergência em casos suspeitos de anafilaxia, além da rápida comunicação com pais e responsáveis.

O principal medicamento utilizado no tratamento é a adrenalina. Apesar da existência da versão autoinjetável, conhecida como "caneta de adrenalina", o produto ainda não está disponível no Brasil e depende de importação.

Para a médica e presidente da associação, a falta do medicamento no País é motivo de preocupação. 'A adrenalina autoinjetável é o tratamento de primeira linha e deve ser administrada imediatamente nos primeiros sinais de reação grave. O atraso aumenta significativamente o risco de complicações e morte."

Segundo o Registro Brasileiro de Anafilaxia, apenas 8,2% dos pacientes têm acesso à adrenalina autoinjetável. "Na prática, isso faz com que muitas escolas dependam exclusivamente da chegada ao pronto atendimento, o que pode ser incompatível com o tempo necessário para reverter uma anafilaxia", afirma a especialista.

Atualmente, dois projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional discutem medidas relacionadas à anafilaxia.

O PL 1945/21 prevê a notificação obrigatória dos casos ao Ministério da Saúde, com o objetivo de ampliar dados oficiais sobre prevalência e impactos da condição no País.

Já o PL 85/24 propõe o fornecimento gratuito da adrenalina autoinjetável pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando o acesso ao tratamento em ambientes domésticos e escolares.

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