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'Devolve o dinheiro, senão me aguarde', diz Deolane para mulher suspeita de pegar R$ 80 mil

Por Agencia Estado

Publicado em 03/06/2026 11:17:44

Áudios da Operação Vérnix, investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre suposto envolvimento de Deolane Bezerra dos Santos com a cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), revelam para os investigadores uma face "agressiva" e "ameaçadora" da influenciadora e evidenciam supostos laços dela com faccionados graduados que usam de violências para apavorar seus alvos. "Devolve o dinheiro do meu filho e segue a sua vida porque senão... você me aguarde", diz Deolane em uma ligação para Denise Rosane Bastos que trabalhou como diarista em sua casa e sobre a qual alimenta suspeitas de que teria furtado uma sacola com R$ 80 mil em dinheiro vivo - notas de R$ 100 - de um de seus filhos, Kayky.

"Vai lá aonde você guardou, pega e traz na minha casa", ordena Deolane, em um dos áudios.

A influenciadora nega laços com o crime organizado. "Eu não sou bandida", afirmou.

A Operação Vérnix foi deflagrada no dia 21 de maio. Os agentes prenderam Deolane sob a acusação de que ela mantém "relações estreitas" com poderoso esquema de lavagem de dinheiro do PCC via uma transportadora fantasma que seria usada pelo líder máximo da facção, Marcos Camacho, o "Marcola Narigudo", e seu irmão, Alejandro Júnior, para ocultar ativos amealhados pela organização via o tráfico internacional de drogas e outros ilícitos em larga escala.

Na última sexta-feira, 29, Deolane foi indiciada pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ela está recolhida na Penitenciária de Tupi Paulista, a mais de 600 quilômetros de São Paulo.

Os áudios de conversas atribuídas a Deolane foram armazenados em um pen drive entregue à polícia por Denise, que declarou estar sendo ameaçada de morte por algo que afirma não ter feito - o furto da sacola com o dinheiro de Kayky.

Denise trabalhou na casa de Deolane desde 2021. A partir de 2024, passou a acumular o trabalho nos endereços dos filhos da influenciadora, Gilliard e Kayky, no Tatuapé. Ela relatou à polícia que, no dia 24 novembro passado, trabalhou no apartamento de Kayky até 13h30. No dia seguinte, por volta de 17h, o rapaz a questionou sobre o dinheiro que estaria no quarto dele e sumiu.

A diarista negou ao filho de Deolane "qualquer envolvimento ou conhecimento do suposto valor". Denise diz que, a partir daí, passou a receber telefonemas de Deolane com "ameaças, ofensas e exigência de devolução do dinheiro".

A suspeita sobre a funcionária e o desaparecimento do dinheiro, cuja origem é oficialmente desconhecida, surgiu a partir de uma imagem que mostra uma pilha de notas de R$ 100 e uma mensagem da faxineira a um interlocutor. "Meu patrão é tão bonzinho que acho que ele já separou o meu presente de aniversário, ó."

Outras imagens mostram Denise saindo do prédio no Tatuapé, na zona leste de São Paulom carregando uma sacola estufada.

'De trouxa eu não tenho nem a cara'

A polícia recuperou mensagens de áudio de Deolane com outras pessoas falando de sua ex-funcionária. A influenciadora revela impaciência e disposição para resgatar a qualquer custo o dinheiro que diz pertencer a seu filho Kayky. "A Denise me conhece, de trouxa eu não tenho nem a cara. Ela me conhece..."

Na mesma ligação, afirma: "Denise já tem passagem por roubo. Eu já sei quem é a Denise. Ela já roubou brinquedo na casa dos meus filhos pra levar pros filhos dela. Ela já fez nota de mercado de seis mil reais quando no mínimo não dava nem dois... Entendeu? Então, ela me aguarde.. Eu falei pra ela: devolve, segue a sua vida. Não queira confusão comigo".

Em uma outra conversa, também atribuída a Deolane, ela demonstra muita irritação. "Meu amor, quem rouba não fala não... Eu já vi cada coisa na minha vida. Eu já vi cada coisa... Porque na hora que os meninos estavam lá com ela, ela não falou que o marido dela estava na casa dela e que ele foi embora com um monte de sacola? Ela mentiu... falou que saiu pra comer uma pizza e...Por que ela escondeu que o cara estava lá? Que o cara foi embora com um monte de sacola pra Ribeirão (Preto)? Não tem indícios? Não tem prova? A mulher entra sem sacola... sai com uma sacola gigante, com uma blusa de frio dentro que não daria metade daquela sacola... toda espalhada e com uma sacola branca em cima? Você acha que isso não é prova?"

'Se você meter o loco em nóis, vai ser poca ideia'

Um terceiro áudio: "Ô amigão? Não interessa o que está nítido ou não. O que interessa é que ela entra com uma sacolinha e sai com uma sacola pesada dessa e em cima uma sacola branca que é exatamente a sacola que estava o dinheiro, entendeu?".

No dia seguinte ao suposto furto dos R$ 80 mil de Kayky, às 19h aproximadamente, seguranças da influenciadora foram à residência de Denise, em São Paulo, segundo ela contou à polícia, e fizeram buscas nos cômodos e também em seu carro. Ainda, acessaram seu celular atrás de mensagens que a comprometessem com o sumiço do dinheiro. Denise diz que concordou com a revista por "pressão psicológica e temor".

Ela disse à polícia que viajou para Ribeirão Preto, no interior do Estado, e lá começou a receber ligações ameaçadoras de números os quais desconhece. Ouvia que o dinheiro "tem origem criminosa". Estranhos demonstram claramente saber de sua rotina e dados pessoais dos seus. "Vamos resolver isso daí da melhor forma. Mas se você meter o loco em nóis, vai ser poca ideia, falou?", disse um homem.

Ele seguiu: "Você foi lá, fez sua caminhada lá, firmeza no lance. Só que você não sabia que o dinheiro era do crime....tá pela ordem....devolve o dinheiro. Só que o dinheiro é nosso. Nóis leva dinheiro nos parceiros lá".

Em outro trecho do áudio, o desconhecido sugeriu o envolvimento de Deolane e de seu filho com o PCC. "A mãe do parceiro, o parceiro fecha com nóis, então faz o favor. Devolve o dinheiro aí, vai tê os oitenta mil de volta. Nóis fez a puxada da sua vida todinha. Você não vai fazer nóis bater de novo na porta da sua casa, né?"

'Eles lavam dinheiro do crime prá nóis'

A mensagem de uma pessoa identificada como "John Snow" é mais explícita sobre a suposta ligação de Deolane com o esquema de lavagem de dinheiro do PCC, alvo da investigação da Operação Vérnix. "Você trabalha lá com o filho da Deolane. Eles trabalha com nóis....lava o dinheiro prá nóis...que é dinheiro do crime. É o seguinte: ficamos de buscar uma moeda lá, quando nóis chegamos lá deparamos que não tinha mais a moeda lá. Ele (Kayky) mostrou as imagens, você entrando com uma sacola pequena...saindo com uma sacola grande. Só você entrou no apartamento, só você teve acesso."

"John Snow" prossegue: "Então, nóis quer resolver da melhor maneira possível. Nóis não vai prá polícia porque nóis é o crime, mas nóis vamos do nosso jeito. Nóis só quer o dinheiro de volta. Não vem com ideia de falar que não foi você. Tá tudo em nota cem. Na boa, na moral, não vai ter ideia. Agora, se o dinheiro não aparecer já sabe como nóis vai agir. Aí é com você mesmo".

"Você catou o dinheiro lá na caminhada, com o menino lá, filho da Deolane que eles são playboy, rico", segue.

'Parceiro Kayky'

O inquérito da Operação Vérnix é conduzido pelos delegados Edmar Rogério Dias Caparroz e Ramon Euclides Guarnieri Pedrão. Eles trabalham na Delegacia Seccional da Polícia Civil de Presidente Venceslau, a 600 quilômetros de São Paulo.

O ponto de partida da investigação que levou Deolane à prisão por suposta ligação com "Marcola Narigudo" e familiares dele para lavagem de dinheiro foi uma transportadora de fachada situada ao lado da Penitenciária 2 de Venceslau. Por ela transitavam valores milionários do PCC que abasteciam contas de 35 empresas de "prateleira" constituídas pela influenciadora, de acordo com os investigadores.

Para Edmar Caparroz e Ramon Guarnieri, a análise da transcrição do áudio encaminhado por Denise Rosane Bastos, atribuído a interlocutor ainda não identificado, "extrai-se conteúdo de elevada relevância probatória para a presente investigação, pois a ameaça não se limita à exigência de devolução de valores supostamente subtraídos, mas revela, de forma expressa, a alegada origem criminosa do numerário e sua destinação à lavagem de capitais".

Os delegados destacam o trecho em que o interlocutor afirma que Denise teria se apropriado de R$ 80 mil, advertindo a diarista que o dinheiro "era do crime" e, de modo ainda mais explícito, declarando: "Dinheiro oriundo do crime. Nós lava dinheiro com os parceiro lá, a mãe do parceiro, o parceiro fecha com nós".

Nos autos do inquérito, os policiais enfatizam. "A partir dessa construção verbal, é possível extrair que o 'parceiro' mencionado corresponde a Kayky, filho de Deolane Bezerra Santos, uma vez que o contexto integral das ameaças está relacionado ao suposto desaparecimento de valores no imóvel de um dos filhos da investigada, bem como às cobranças feitas em nome do núcleo familiar."

Para eles, o quadro é claro. "Por consequência lógica, a referência à 'mãe do parceiro' aponta para Deolane Bezerra Santos, figura central do episódio e pessoa previamente vinculada às cobranças dirigidas à vítima."

Na avaliação dos delegados que enfrentam o crime organizado, a fala revela três aspectos investigativos relevantes: o numerário reclamado não seria tratado pelo próprio ameaçador como patrimônio lícito comum, mas como valor de origem criminosa; haveria uma relação de parceria entre o interlocutor ameaçador e Kayky, indicado no áudio como o "parceiro" que "fecha" com o grupo; Deolane, identificada no contexto como a "mãe do parceiro", seria mencionada como pessoa inserida na dinâmica de lavagem de dinheiro narrada pelo próprio ameaçador.

"Nesse sentido, o conteúdo transcrito reforça a hipótese investigativa de que os valores em espécie vinculados ao núcleo familiar de Deolane decorrerem de atividade criminosa antecedente e estão inseridos em fluxo permanente de ocultação e dissimulação de capitais", assinalam Caparroz e Guarnieri.

Ainda segundo eles, "certamente que referido áudio, se trazido de maneira isolada, poderia ser interpretado como mero ataque em situação de uma desavença". Contudo, ao ser analisado frente a todos os demais elementos, reveste-se de mais uma circunstância corroboradora.

"Assim, o áudio não deve ser compreendido apenas como instrumento de ameaça à vítima, mas como verdadeiro elemento informativo de corroboração externa da tese de lavagem de dinheiro investigada nestes autos, na medida em que o próprio interlocutor, ao exigir a restituição dos valores, admite a origem ilícita do numerário, vincula-o a integrantes do núcleo familiar de Deolane e descreve, ainda que em linguagem coloquial, uma relação operacional voltada à circulação e ocultação de dinheiro criminoso", cravam os delegados.

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