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Jair Ribeiro: 'Aluno não precisa saber seno e cosseno, mas precisa ler e escrever muito bem'

Por Agencia Estado

Publicado em 13/06/2026 09:03:20

O fundador e presidente do Parceiros da Educação, Jair Ribeiro, defende que o Ministério da Educação deveria priorizar o currículo, focando em conhecimentos básicos e na capacidade interpretativa e de raciocínio dos estudantes.

"O aluno não precisa saber seno e cosseno, não precisa saber equações polinomiais, mas precisa saber ler e escrever muito bem e precisa saber as bases de matemática", disse ao participar do Brasil Adiante, série de eventos promovida pelo Estadão até agosto.

O ciclo de debates busca apresentar propostas concretas para o presidente que for eleito em outubro sobre os principais problemas do País. As soluções serão consolidadas em um documento que será entregue em novembro ao vencedor do pleito.

Ribeiro cita que só cerca de 34% dos estudantes do 3.º ano do ensino médio da rede pública apresentaram nível de aprendizagem em Português adequado. A situação é ainda mais drástica em Matemática: apenas 5% registraram o desempenho propício. Os dados são do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2023, contabilizados pelo Todos pela Educação. "Ainda temos um volume muito grande de crianças abaixo do básico, nessa escuridão cognitiva."

Para ele, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) "cobre muita coisa e não dá profundidade". "É necessário dar o mínimo de habilidades essenciais para esses jovens que vão para o mercado de trabalho interagir com a inteligência artificial. A IA pode ser uma grande niveladora de conhecimentos para eles, desde que eles tenham as habilidades essenciais."

Quais propostas concretas o próximo governo precisa tomar no âmbito do MEC?

O trabalho do MEC é ser indutor das políticas nos Estados e Municípios, que executam a educação básica.

A grande prioridade do Brasil hoje é resgatar 70% das crianças que estão nos anos finais do ensino médio e têm desempenho abaixo do conhecimento básico. Essa é a prioridade. É necessário dar o mínimo de habilidades essenciais para esses jovens que vão para o mercado de trabalho interagir com a inteligência artificial. A IA pode ser uma grande niveladora de conhecimentos para eles, desde que eles tenham as habilidades essenciais.

Não precisa saber seno e cosseno, não precisa saber equações polinomiais, mas precisa saber ler e escrever muito bem e precisa saber as bases de matemática.

Para isso, o governo federal, como indutor, deveria fazer três ou quatro coisas. A primeira delas é priorizar o currículo do MEC. Hoje, a BNCC cobre muitas coisas e não dá profundidade. Precisamos de mais profundidade, principalmente em língua portuguesa e Matemática.

A segunda medida é expandir as escolas de período integral. Foram elas que deram qualidade de ensino no modelo de Pernambuco. Hoje, um ano da escola de período integral equivale a três anos de uma escola regular. O governo federal reduziu muito o dinheiro dado para as escolas de período integral no ano passado por causa do Pé-de-Meia e outros projetos.

O terceiro ponto é um programa superforte de recomposição de aprendizagem. Ainda temos um volume muito grande de crianças abaixo do básico, nessa escuridão cognitiva. Precisamos trabalhar de uma forma muito forte e direta para reduzir esse gap.

Sobre o primeiro ponto de priorizar o currículo, como o MEC poderia fazer isso nos primeiros 24 meses do próximo governo?

O MEC é responsável pela BNCC. Então, o governo federal deveria trabalhar de uma forma corajosa e fazer uma priorização curricular. Isso não é só no Brasil. O mundo inteiro está trabalhando com habilidades essenciais. O mundo inteiro está priorizando o seu currículo. O Brasil só tem que seguir o que a literatura está indicando que se faça.

Em relação à recomposição, também seria via mudanças na base comum curricular?

Não. Existem vários programas específicos de recomposição. Vários Estados estão fazendo. Aqui em São Paulo, temos um programa maravilhoso chamado Professor Tutor, que já está em mais de 3.000 escolas. Há exemplos também em Santa Catarina, Espírito Santo e Goiás.

Os programas de recomposição trabalham o material didático dentro das zonas de desenvolvimento proximal do aluno, próximo do que ele entende - teaching at the right level - e verificar e personalizar cada vez mais o nível de proficiência para as turmas.

O MEC poderia ser um grande indutor com materiais didáticos e recursos para que os Estados e Municípios executem bem os programas de recomposição.

Nesse ponto, seria necessário também mais professores para conseguir dar essa atenção mais profissionalizada? Para isso, o MEC também teria que aumentar o orçamento?

Não necessariamente. Poderia redirecionar. O Pé-de-Meia custa cerca de R$ 18 bilhões. Qual é a evidência de que esse programa funciona? Enquanto tem muita evidência de que um programa de recomposição funciona.

Às vezes, precisa de um professor extra para alunos mais defasados em turmas menores. Mas também se pode dividir as salas de aula por níveis de proficiência. Isso tem o mesmo custo.

Então, tem várias formas de fazer sem onerar demais. E não há necessidade de passar pelo Congresso, é só uma questão de priorizar.

O MEC tem recurso. O Brasil tem dinheiro. Eu priorizaria programas como escola em período integral e programas de recomposição, que têm evidência, em detrimento de programas como o Pé-de-Meia. Qual é a evidência de que o Pé-de-Meia funciona? É muito legal, pode reduzir a evasão, o governo pode até alocar algum recurso, mas ele tirou recursos de programas muito mais essenciais e prioritários.

Nessas três propostas que o senhor citou, como seria possível medir a eficiência desses programas?

O Brasil tem um dos melhores sistemas de avaliação do mundo. Mesmo países desenvolvidos não têm o volume de avaliações que temos.

Temos o Saeb, as avaliações estaduais e uma série de avaliações independentes que estão à disposição do governo para avaliar a eficácia desses programas.

Para as escolas integrais, qual seria a meta ideal para os primeiros 24 meses do governo?

Isso depende de Estado para Estado. Tem Estados que estão mais avançados, outros menos e depende muito também do nível do equipamento nas escolas.

Tivemos uma queda demográfica e a população mudou de lugar. Em São Paulo, por exemplo, existem escolas no centro que estão subutilizadas, mas têm muita demanda na periferia, porque a população mudou para lá. É na periferia que se precisa construir escola. Mas construir escola demanda mais tempo. Então, o planejamento tem que ser descentralizado.

Mas, no âmbito do MEC, daria para colocar alguma meta para esses primeiros 24 meses?

O MEC deveria negociar uma meta para cada estado e apoiar com os recursos que já existiam antes. Esses recursos foram retirados do programa de escola de período integral em 2025. Isso é um absurdo. É uma priorização errada.

E quem é contra esses projetos? Por que isso ainda não avançou?

Hoje, no Brasil, temos um consenso sobre o que precisa ser feito. O que precisa é priorizar isso. Às vezes, programas mais eleitoreiros, populistas e assistencialistas ganham uma prioridade em cima daqueles que a evidência demonstra como mais importantes.

E sobre o uso de inteligência artificial?

Acabou de sair um estudo do Instituto Nacional de Economia dos Estados Unidos que demonstra que dar IA para os profissionais de nível médio reduz o gap de produtividade deles em relação àqueles de nível mais proficiente.

Mas, para isso, eles precisam, no mínimo, dominar bem a linguagem e a matemática. Não é matemática de trigonometria avançada, não é cálculo. É uma base interpretativa para entender a matemática e os textos. Não precisa ensinar programação, mas precisa ensinar o que ele precisa pedir para a IA.

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