Famílias acessam últimas conversas antes de acidente de avião da Voepass em Vinhedo, em 2024
Por Agencia Estado
Publicado em 02/07/2026 17:30:47Quase dois anos depois, as investigações sobre o acidente do voo 2283 da Voepass em 9 de agosto de 2024 com a morte dos 62 ocupantes do avião entram em fase final. O inquérito da Polícia Federal deverá ficar pronto até o final deste mês, segundo a corporação.
Já o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da Força Aérea Brasileira (FAB) está em fase de revisão por autoridades internacionais, conforme o órgão.
De acordo com o advogado Luciano Katarinhuk, que atua na defesa das famílias, a expectativa é de que haja indiciamento de pessoas que não estavam a bordo e teriam responsabilidade pelo acidente.
O voo seguia de Cascavel para São Paulo e caiu em um condomínio de Vinhedo, no interior. Todos os ocupantes morreram, mas não houve vítimas em solo. Após o acidente, a Voepass teve o alvará de operador aéreo cassado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A reportagem entrou em contato com a Voepass e aguarda retorno. Antes, ao Estadão, a empresa havia informado que somente o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente.
Na terça-feira, 30, representantes das famílias das vítimas do quinto acidente aéreo mais fatal da história no Brasil tiveram acesso à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave antes da tragédia. De acordo com a presidente da associação das famílias de vítimas do acidente, Fátima Albuquerque, os familiares estavam emocionados e preferiram não ouvir os áudios.
O delegado da PF optou então por apresentar apenas as transcrições. "O laudo pericial tem mais de 200 páginas e foi mostrado em primeira mão aos familiares, como a PF havia prometido. O que se confirmou é que haverá indiciamentos, ou seja, a responsabilização de pessoas criminalmente pelo que aconteceu", diz o advogado ao Estadão.
Segundo ele, o avião não poderia estar voando. "Todos os responsáveis que mantiveram esse avião voando devem ser responsabilizados, pois deveriam ter deixado o avião em solo. Se o piloto teve culpa, ele pagou com a vida, mas há outros culpados."
Conforme o defensor, o laudo pericial trouxe elementos relevantes, que não podem ser divulgados porque o inquérito está em sigilo. Pessoas que já foram ouvidas como informantes, agora prestarão depoimento como indiciadas. "Houve uma sequência de fatores que resultaram no acidente e espero que não haja transferência de culpa para quem morreu", disse.
Fátima, a presidente da associação das famílias das vítimas, diz ao Estadão que saiu da reunião mais confiante de que os responsáveis serão punidos. "A nossa luta é para que as pessoas sejam indiciadas, principalmente aquelas que comandaram a equipe que culminou com a morte de nossos familiares. Os nossos não voltam, mas é necessário uma consciência da sociedade para que cesse esse tipo de comportamento no País."
Fátima é mãe da médica Arianne Albuquerque, que estava no voo. "Era minha filha única, minha vida. Quase dois anos depois, a gente está aqui dilacerada e só espera por justiça. O avião não quebrou naquela viagem, ele já estava quebrado. Não foi uma fatalidade", disse.
Para Fátima, ficou provado que o sistema de degelo não estava funcionando e havia previsão de chuva e frio durante a viagem. "Aquele avião não poderia voar. É uma questão de intenção, de não fazer a manutenção, não registrar o erro, submetendo a tripulação a uma situação de risco que foi paga com muitas vidas."
Famílias lutam agora pela responsabilização criminal e administrativa
Na esfera civil, a maior parte das ações individuais já avançou para acordos com as empresas envolvidas. As famílias lutam agora pela responsabilização criminal e administrativa de supostos envolvidos. Os nomes dos que possivelmente serão indiciados não foram divulgados.
Fátima diz que os familiares planejam fazer alguma cerimônia para lembrar os mortos, mas está sendo difícil para todos, pois a dor ainda é muito intensa. "Estão todos muito revoltados. Perdi minha única filha, uma médica excepcional. Tanto que os pacientes editaram um livro em homenagem a ela e quem lê o livro chora muito. A maioria das vítimas era muito jovem, tinham a vida pela frente."
Ela conta que a associação reúne quase 50 mães, mas algumas não participam porque ainda sentem muita dor. "Tem mãe com depressão, tem um casal que não sai do quarto. Uma mãe já morreu, não aguentou. Para nós, todos os dias cai o avião, todos os dias nós perdemos nossos filhos. Só nos resta esperar por justiça", disse.
Como foi o acidente em 2024
No início da tarde de 9 de agosto de 2024, o avião ATR-72-500 da Voepass caiu em Vinhedo, interior de São Paulo, matando 62 pessoas. A aeronave havia decolado de Cascavel, no Paraná. Os quatro tripulantes e seus 58 passageiros morreram após o impacto do avião bimotor contra o quintal de uma casa em um condomínio. Alguns corpos ficaram carbonizados.
A aeronave despencou 13 mil pés (4.000 metros) em dois minutos. Na ocasião do sinistro, o registro de voo do Flight Radar mostrou que o avião estava a 17 mil pés de altitude às 13h20 e a 4.000 pés (1,22 km) às 13h22, quando o sinal de GPS foi perdido pela plataforma. O avião caiu cerca de 20 minutos antes de pousar e atingiu casas do condomínio residencial.
O piloto do avião, Danilo Santos Romano, comentou sobre uma falha no sistema de degelo da aeronave. A informação foi divulgada em relatório preliminar apresentado pelo Cenipa, no dia 6 de setembro daquele ano.
Foram registrados também alertas Cruise Speed Low (baixa velocidade de cruzeiro) e, posteriormente, Degraded Performance (performance degradada) - quando o avião encontra condições que reduzem sua capacidade de voo, já que o acúmulo de gelo prejudica a sustentação da aeronave.
Em nota, a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Cenipa, informou que a investigação da ocorrência aeronáutica envolvendo a aeronave de matrícula PS-VPB, registrada em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), encontra-se em fase avançada, estando atualmente na etapa de revisão final, em conformidade com os protocolos internacionais aplicáveis.
Nessa fase, o documento é submetido à apreciação dos Representantes Acreditados do Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, na condição de Estado de Projeto e Fabricação da aeronave, bem como do Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, na condição de Estado de Projeto e Fabricação dos motores.
O Cenipa esclarece que não há prazo definido para a conclusão das investigações e reforça que somente se pronuncia oficialmente sobre os resultados por meio da publicação do Relatório Final, conforme previsto no Código Brasileiro de Aeronáutica.
Quando concluída a investigação, o Relatório Final Sipaer será publicado no site do Cenipa, com acesso público.