'A bossa nova privilegia um determinado recorte', diz diretora de filme sobre Alaíde Costa
Por Agência Estado
Publicado em 20/07/2026 12:52:23Enquanto Liliane Mutti filmava Miúcha, a Voz da Bossa Nova, ela vivia em Paris. Do outro lado do oceano, em São Paulo, estava Alaíde Costa. Cantora, compositora, pianista, uma das vozes negras que ajudaram a fundar a bossa nova ao lado de João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Foi nesse hiato geográfico, entre uma cidade e outra, que chegou às mãos da diretora Faria Tudo de Novo, a biografia autorizada de Alaíde escrita por Ricardo Santhiago. O livro seria decisivo: continha a história que a própria artista queria deixar registrada, contada em primeira pessoa. Dali nasceria A Noite de Alaíde, quarto longa de Mutti, que estreia nesta quinta-feira, 16, simultaneamente no Brasil e na Europa.
"Costumo dizer que faço um 'cinema do sim'. Gosto de lembrar a frase de Clarice Lispector: 'Tudo no mundo começa com um sim'", diz a diretora. "O que mais me interessava era justamente partir da voz da própria Alaíde, respeitando a forma como ela escolheu contar sua vida."
O filme mistura ficção, animação e imagens de arquivo para acompanhar os 70 anos de carreira e os 90 de vida de Alaíde, uma garota do subúrbio carioca que chegou às rodas da zona sul dos anos 1960 já formada como artista, e que, no auge do movimento que ajudou a criar, foi sumariamente ignorada pelas gravadoras. Junto com Johnny Alf, outro pioneiro negro da bossa nova, ela ficou de fora da lendária apresentação no Carnegie Hall, em Nova York. Décadas depois, aos 90 anos, atravessa os Estados Unidos atrás do palco que sempre foi seu por direito.
A ideia do filme, na verdade, já rondava Mutti desde Miúcha. "Ali, eu comecei a investigar um lado menos conhecido da história da bossa nova, especialmente a partir de uma perspectiva feminina e feminista", conta. "Percebi que a narrativa mais difundida da bossa nova privilegia um determinado recorte, enquanto personagens fundamentais permaneciam à margem. Entre eles, duas figuras me pareceram absolutamente fundadoras: Johnny Alf e Alaíde Costa."
O Brasil e suas contradições
Para Mutti, contar a trajetória de Alaíde é indissociável de discutir como o País constrói e desconstrói sua memória.
"Alaíde simboliza muitas dessas camadas. Ela carrega, em um único corpo, diversas interseccionalidades. É uma menina negra do subúrbio do Rio de Janeiro que sonha em ser cantora quando esse destino parecia improvável", diz a diretora, que escolheu dedicar boa parte do filme à infância e adolescência da artista, período pouco explorado por outras narrativas. "Quando a bossa nova chega, ela não surge como uma iniciante: já havia construído uma trajetória, já era uma artista. Entender esse percurso muda a maneira como enxergamos seu lugar na história do movimento."
O filme não esconde as marcas do racismo cotidiano que Alaíde enfrentou, inclusive nos apelidos que recebia ou em registros da imprensa da época, encontrados durante a pesquisa em arquivos históricos. Mas, segundo Mutti, o processo de invisibilização em si não foi a maior surpresa da pesquisa. "Infelizmente, ele dialoga com uma lógica histórica do Brasil em relação às mulheres negras", pondera.
O que mais a tocou foram as pessoas que estenderam a mão para Alaíde nos momentos mais difíceis - Milton Nascimento, Monsueto, Baden Powell, e sobretudo Johnny Alf, interpretado no filme por Leonel Costa, que por coincidência compartilha o sobrenome da artista sem ter qualquer parentesco com ela. "Leonel já era um profundo conhecedor da obra de Johnny Alf, e isso trouxe uma verdade muito orgânica para o personagem", conta.
Essa discussão sobre reconhecimento e apagamento, insiste a diretora, não fica presa aos anos 1950 e 60. "Se eu tivesse uma varinha mágica, adoraria que essas questões já estivessem superadas no Brasil. Mas elas continuam muito presentes", diz. O período costuma ser lembrado como um momento de encantamento e modernização do País, no governo de Juscelino Kubitschek - uma imagem, diz ela, que não pode apagar a permanência do racismo estrutural daquele Brasil. "Um país só consegue avançar quando encara suas próprias feridas", afirma.
Da rotoscopia às novelas
A escolha por misturar ficção, animação e arquivo, e não seguir o formato clássico do documentário biográfico, vem de uma resistência antiga de Mutti à estrutura da entrevista em plano fixo - o "três por quatro", como ela chama. "O documentário biográfico tradicional responde muito mais a uma lógica televisiva e das plataformas do que ao ritual do cinema", afirma. "Quando explicamos demais, corremos o risco de conduzir excessivamente a emoção do público. Eu prefiro que essa emoção aconteça pessoal e única, permitindo que o espectador se torne também um coautor da experiência."
Curiosamente, foi neste filme que a diretora se permitiu uma aproximação que sempre evitou: o repertório estético das novelas brasileiras. "Venho da televisão e sempre tive um olhar muito crítico para a presença dessa estética no cinema. Mas, neste filme, percebi que ela poderia ser ressignificada", diz. "Quis dialogar com esse repertório para aproximar o filme de um público mais amplo, um público de família."
A animação, assinada por Guilherme Hoffmann, usa rotoscopia em 2D para dar corpo a memórias que não têm registro em imagem e as cores da obra mudam conforme as emoções das personagens, num processo que, segundo a diretora, espelha a própria natureza da memória: "ela é viva, subjetiva e atravessada por afetos."
Entre as camadas mais delicadas do filme está o que Mutti chama de "maternidade roubada" de Alaíde. É o momento em que ela precisa levar os filhos para acompanhá-la em shows por não ter com quem deixá-los, e o desfecho em que as crianças acabam criadas pelo pai e pela segunda esposa dele.
"Essa situação revela uma questão muito maior: a dificuldade histórica de reconhecer que uma mulher pode ser, ao mesmo tempo, mãe e artista", diz a diretora. "Um artista homem pode ser pai, ter uma carreira, circular pelo mundo, e isso raramente é visto como uma contradição. Para as mulheres, durante muito tempo, a sociedade impôs escolhas cruéis."
E agora, enquanto o filme sobre Alaíde chega às telas, a diretora já avança na montagem de seu próximo longa, dedicado a Angela Ro Ro, com lançamento previsto para 2027. "Angela representa, para mim, uma das grandes feridas da música brasileira", adianta. "Assim como Alaíde, ela pagou um preço alto por suas escolhas".