Operação Gutemberg: áudios mostram como operava fraude do livro em prefeituras de MS
Por Agencia Estado
Publicado em 22/07/2026 15:28:40A Operação Gutemberg - ofensiva do Ministério Público de Mato Grosso do Sul contra fraudes à licitação na compra de livros paradidáticos por administrações municipais - aponta como o empresário Felipe Paroschi Jafar teria se beneficiado do desvio de dinheiro de ao menos 12 prefeituras que pagaram R$ 27 milhões à editora Avante, de propriedade de sua família. Áudios a cujas transcrições o Estadão teve acesso indicam a intensa atividade e os métodos de Felipe para embolsar parte dos valores.
Tratado por Felipinho pelos outros investigados da Gutemberg, ele foi preso no último dia 7, por ordem da juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias da Justiça de Campo Grande. Outros 15 alvos tiveram a prisão decretada, inclusive a mãe de Felipe, a dentista Rossana Jafar, e dois irmãos dele, supostamente envolvidos na trama.
A reportagem busca contato com a defesa dos citados. O espaço está aberto.
Mensagens por aplicativo de WhatsApp e áudios mostram, na avaliação dos promotores do Gaeco - face do Ministério Público estadual que combate o crime organizado -, o grau de envolvimento de Felipinho com a organização criminosa que atemorizava gestões municipais para aquisição de livros da Avante, empresa com capital social de R$ 40 mil, fundada há menos de cinco anos.
O afastamento do sigilo telemático da conta iCloud de Felipinho, vinculada ao endereço de e-mail dele, descortinou o backup de áudios oriundos do aplicativo de mensagens WhatsApp, reforçando a atividade intensa do empresário na Editora Avante, além de vínculo direto com o empresário Francisco Anizio dos Santos, também investigado.
O conteúdo faz referências expressas a outros envolvidos, inclusive o advogado Gabriel Taquino, que atuava como "representante comercial" da Avante.
"Fala Felipinho bom dia, bom dia, hoje é dia hein você quer fazer a listinha das coisas eu tenho na cabeça aqui tem que pegar aquela galera da campanha lá ver se consegue mais serviço né", disse um parceiro não identificado do empresário. "E também receber aquela diferença que falta que aquilo lá é dinheirinho no bolso (...) Vamos ver se a gente consegue um servicinho essa semana né, duro aqui (...) eu vou ver se vou conversar com uma amiga minha que tem as prefeituras na mão também para ver se ela consegue serviço para nós tá bom."
Em seguida, Felipinho Jafar fez contato com o empresário Anízio. "Bom dia mestre tudo bem Anízio. Cara você me desculpa eu sou um cara meio afobado, meio ansioso aí, eu vou correndo para lá correndo para cá."
Em outro diálogo, ele revela a volúpia e o alcance do esquema. "Boa noite, Anízio, estou em negociação sim com seis cidades e aquele pessoal lá de Santa Rita que eu tinha te falado aí aquela cidadezinha para lá do consórcio deles."
'Eu tenho um networking muito bom, cara'
Um outro trecho da conversa indica, na avaliação dos investigadores, que o grupo estava em vias de ampliar seus tentáculos sobre outras praças. "Vamos trabalhar junto aí que eu tô, eu tenho um networking muito bom cara, principalmente, para fora do Estado. É melhor do que aqui dentro do Estado, então a gente conversar aí eu acho que dá para montar um time massa aí e a gente fazer um negócio legal tá bom."
A Promotoria ressalta que Rhayane Souza Fanaia, funcionária de uma clínica de estética, constava como proprietária da editora Avante. Na prática, ela seria uma "laranja" da organização.
A análise dos dados telemáticos evidenciou que Rhayanne não tinha autonomia gerencial ou financeira da empresa, ao passo que tinha a precípua missão de, emprestando deliberadamente seu nome ao grupo, receber e distribuir os montantes a mando dos verdadeiros donos do esquema, a família de Rossana Jafar.
A própria Rhayanne recebia parte dos valores, comprovam as mensagens trocadas entre os integrantes da organização.
A sistemática revelada pela investigação diz que a empresa recebia o pagamento do ente público municipal e, ato contínuo e imediato, os líderes e integrantes da organização criminosa determinavam a quem e quanto Rhayanne deveria repassar os valores, "retroalimentando assim o esquema criminoso", anota a Promotoria.
Os investigadores descobriram Felipinho trocando informações bancárias com Rhayane Fanaia, em 18 de agosto de 2022, "para viabilizar o recebimento de valores, tão logo foi efetivado o pagamento pelo ente municipal na conta da Editora Avante". Em uma oportunidade, ele recebeu R$ 570 mil.
A família Jafar era detentora da antiga editora Alvorada que, depois de ser citada no centro de um outro escândalo de corrupção em Mato Grosso do Sul, mudou o nome para Avante, com endereço formal em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Entre 2022 e 2024, a editora expandiu seus negócios por quase duas dezenas de administrações municipais.
Os promotores do Gaeco descobriram que prefeitos e secretários de Educação eram ameaçados para ajustar negócio com a Avante caso contrário seriam punidos com retaliações graves do então coordenador de regulação da Secretaria da Saúde do Estado, Ed Carlo Brito Burgatt. Quem não fechasse com a Avante, Ed Carlo submetia a retaliações, negando fornecimento de leitos, exames, ressonâncias e cirurgias.
'A semente quem plantou foi a gente'
O avanço da organização sobre gestões municipais ficou nítido para os promotores a partir dos diálogos dos envolvidos. "Aí eu queria alinhar com você todas as cidades que você tá indo tal que você já tá conversando e mostrar também as cidades que eu tenho contatos bons e que eu consigo de prontidão já começar a mexer alguma coisa", disse Felipinho a Anizio.
Em uma mensagem, Felipinho informou ao empresário Heyder Bartiz, também alvo da Operação Gutemberg. "Fizemos um procedimento que o Heyder mandou tudo certinho nessas cidades aí né que você tá falando. A gente fez tudo certinho, vamos lá conversando com o pessoal, a semente quem plantou foi a gente, então, tipo assim, sem discussão isso não tem discussão essas daí são nossas."