'Uma personagem perfeita pode ser opressiva', diz Zadie Smith
Por Agência Estado
Publicado em 25/07/2026 22:11:05A escritora britânica Zadie Smith participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026 neste sábado, 25. Ela foi entrevistada por Juliana Borges na Mesa 18 do evento, intitulada este chão não existe, e esta paz é vertigem. O evento foi transmitido ao vivo no YouTube.
Entre temas diversos, a autora de livros como A Fraude, Ritmo Louco, Dentes Brancos, NW e Sobre a Beleza falou a respeito do impacto da negritude e de questões raciais em sua escrita e na literatura em geral.
A influência de escritoras e personagens negras para Zadie Smith
Ao falar sobre a influência de escritoras negras, citou Toni Morrison, Alice Walker e, principalmente, Zora Neale Hurston. "Essa influência [Hurston] foi muito forte, porque suas personagens não são caricatas, não são mulheres negras fortes ou perfeitas. Sempre pareceram humanas para mim. E a própria Zora era uma pessoa complicada."
Zadie Smith ainda criticou a grande quantidade de personagens que beiravam a perfeição. "Para mim, isso era opressivo, porque eu não sentia como se fosse algo me auxiliando. Uma pessoa perfeita, uma postura política ideal ou uma vítima perfeita, nenhuma dessas coisas. Eu preciso pensar em mim mesma como ser humano", prosseguiu, destacando gentileza, sabedoria e a capacidade de perdoar como qualidades que admira em personagens.
A viagem de Zadie Smith à África
Ao falar sobre o processo de criação do romance Ritmo Louco (2016), a autora britânica refletiu sobre a forma como aspectos raciais são mutáveis conforme o ambiente em que se está. Sua percepção sobre isso se deu durante uma viagem à costa noroeste da África Subsaariana.
"Em determinado momento, você fica sentimental e pensa: 'Ah, e se eu voltar para a África?' Fui para a Libéria, Gâmbia e algumas vezes para Gana. Uma das primeiras coisas que você percebe como uma pessoa da diáspora é que você é uma turista. Você pode ter todos os seus sentimentos, saber da história, mas você não é mais daquele lugar."
A escritora relatou ter sido considerada como uma mulher branca em alguns lugares que visitou na Gâmbia, sendo assimilada também a outras etnias. "Você acaba sendo confundida o tempo todo. Mas eu nunca achei que essa experiência fosse [ruim]... Isso me interessa."
"Em um táxi eu sou libanesa, em outro, sou brasileira... É sempre interessante se dar conta de que a sua identidade é uma mistura entre os fatos que você conhece, mas também os que as pessoas criam de você", continuou Zadie Smith.
'Tenho uma relação complicada com o pertencimento', diz Zadie Smith
A escritora falou a respeito de se sentir incluída socialmente, levando como base o momento em que deixou de viver na Inglaterra: "Acho que eu tenho uma relação complicada com o pertencimento. Gosto de pertencer, mas o pertencimento significa que você também fica sujeito às histórias do Estado, tem que aceitá-las. Acho que o lado bom de estar fora por tanto tempo é que você tem um distanciamento, e algumas coisas ficam engraçadas."
Zadie Smith relatou um momento em que, de volta ao Reino Unido, se deparou com um jornal: "A manchete era sobre o duque de York e eu achei aquilo a coisa mais engraçada, porque ninguém no resto do mundo se preocupa com isso. Quando você está no país, talvez não perceba esses absurdos, precisa de um distanciamento".