SP: prédio da Prefeitura vira palco vertical em festival gratuito que ocupa espaços inusitados
Por Agência Estado
Publicado em 11/08/2026 13:22:20Foi participando de festivais internacionais de teatro que a produtora e diretora Dani Angelotti percebeu o quanto São Paulo era "desapegada" em propor uma ocupação da cidade e de suas ruas. Em 2024, ao lado do curador e diretor artístico André Acioli, ela resolveu levar a proposta de encher a cidade com arte ao extremo: e se a capital paulista pudesse ter uma mostra de artes cênicas apenas em espaços não convencionais?
Assim nasceu a Mostra Internacional de Artes Cênicas em Espaços Não Convencionais e Alternativos (Miacena), que abre sua 3ª edição nesta terça-feira, 11. Neste ano, o evento integra a programação da Jornada do Patrimônio, promovida pela Prefeitura de São Paulo, e leva espetáculos gratuitos a pontos como a Biblioteca Mário de Andrade, a Praça Ramos de Azevedo e a própria Prefeitura - que recebe um dos espetáculos mais instigantes da programação e vira uma espécie de "palco vertical".
"Queremos reforçar que o teatro também é patrimônio e a ocupação da cidade é o nosso patrimônio. Isso tem muito a ver com a identidade. Quanto mais firmarmos as artes e a ocupação dos espaços, mais fácil será criar essa identidade pelo reconhecimento da cidade", justifica Dani. "A arte pode estar em qualquer lugar", resume.
São Paulo transformada em um grande palco
A Miacena promove um volume recorde de atrações nesta edição, com mais de 50 apresentações, e espera receber 20 mil pessoas. Dentre esse público, estão os paulistanos que amam artes cênicas e se planejam para aproveitar a mostra, mas também os "desavisados", que podem ter o cotidiano transformado, sem querer, por um espetáculo no meio do seu caminho.
"O não convencional te limita em alguns lados por questões de iluminação ou espaço protegido, mas, por outro lado, proporciona um encantamento e a possibilidade de subverter aquele espaço, de pegar uma pessoa no cotidiano", explica Dani. "Sempre temos atividades na hora do almoço nos calçadões próximos ao CCBB, por exemplo, onde há um grande fluxo de pessoas. Você sai do trabalho e é submetido à arte. Por que você tem que ir até o lugar onde está o teatro, e não o teatro ir até onde você está indo almoçar?", questiona.
Destaques da 3ª Miacena, segundo sua idealizadora
- Sonhos: O espetáculo será uma provocação sobre o massacre da população negra na região da Liberdade. A partir da frase de Martin Luther King Jr., "eu tenho um sonho", Sonhos imagina uma sociedade mais igualitária e justa. Na Capela Nossa Senhora dos Aflitos, no dia 12/8, quarta-feira, às 19h.
- Corpo Graffiti: Da premiada Cia Base, o espetáculo une dança vertical e artes urbanas. Com os artistas em uma espécie de "escalada" que desafia a gravidade, Corpo Grafitti vai transformar as paredes exteriores da Prefeitura em "palco vertical". Na Prefeitura Municipal de SP, no dia 16/8, domingo, às 14h.
- Matei Jasão - Work In Progress: Sob direção de Elias Andreato, o espetáculo com Fabiana Cozza e Cleber Silveira mostra uma mulher que, sozinha em cena, revisita sua história e faz confissões sobre culpa, renascimento e reinvenção. No Instituto Brasileiro de Teatro (iBT), no dia 18/8, terça-feira, às 19h.
- Aboio - O Ato do Boi Cansado: O espetáculo explora figuras da cultura popular, como o Boi-Bumbá e o Bumba-meu-Boi. Na trama, uma festa começa a desmoronar quando o Boi, cansado, decide tirar férias. Na Praça Ramos de Azevedo, em frente ao Theatro Municipal, no dia 21/8, sexta-feira, às 17h.
- La Gravedad de Las Burbujas: Originalmente apresentado na casa do diretor, Juan Pablo Galimberti, em Buenos Aires, o espetáculo ocupa a Casa Farofa com quatro histórias simultâneas de amizade, casamento, sexo e vocação. Na Casa Farofa, na Bela Vista, nos dias 20, 21 e 22/8, quinta, sexta e sábado, às 20h.
- Salamaleque: Fruto de uma pesquisa de cinco anos sobre a cultura árabe, a atriz Valéria Arbex é Elizete, uma mulher que recebe o público na cozinha da sua infância, entre pastas de grão-de-bico, água aromatizada e pão com zaatar, e propõe uma experiência sensorial sobre ancestralidade. No Complexo Cultural Oswald de Andrade, no dia 22/8, sábado, às 16h.
Teatro fora da caixa
Mas há espetáculos para todos os gostos e disponibilidades. Boa parte das atrações ocorre no centro da capital paulista, "o coração da cidade", nas palavras da idealizadora. "É como se estivéssemos dizendo: 'Estamos aqui marcando território'."
Para ela, a Miacena é uma alternativa à falta de espaços culturais na cidade. "Precisaríamos de pelo menos mais uns 30 teatros para a demanda que temos hoje. As pautas são disputadíssimas e os espetáculos não conseguem fazer permanência porque os prazos são curtos para dar vazão a toda demanda. A Miacena é exatamente para mostrar que podemos fazer a arte cênica sem necessariamente ocupar os espaços que são as caixas de teatros feitas para isso", finaliza.
Serviço - Miacena
- Quando: De 11 a 22/8.
- Onde: Diversos pontos de São Paulo.
- Quanto: Gratuito (alguns espetáculos exigem retirada de ingressos 1h antes).