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'Esporte tira meninos e meninas da rua e da criminalidade', afirma ministro

Paulo Henrique Cordeiro fala da importância da pasta para uma sociedade melhor, de projetos e da Copa do Mundo Feminina de 2027

Por Waleria de Carvalho

Publicado em 21/08/2026 07:30:00 Atualizado em 21/08/2026 08:53:07
De acordo com Paulo Henrique Cordeiro, a Copa Feminina deixará um grande legado
Desde que assumiu o Ministério do Esporte, em abril deste ano, o advogado e professor Paulo Henrique Cordeiro não se cansa de trabalhar para levar o melhor à sociedade brasileira. A ideia dele é democratizar o esporte, levando para o interior e cidades pequenas que precisam deste olhar. São muitos os desafios e conquistas como a Copa do Mundo Feminina de Futebol de 2027, a primeira na América Latina, que começará no Brasil em 24 de junho, com abertura e encerramento no Maracanã. Além disso, inúmeros projetos como Bolsa Atleta, TEAtivo, Arenas do Brasil e muitos outros estão no radar. Em entrevista exclusiva aos jornais O Dia e Meia Hora, o ministro Paulo Henrique Cordeiro faz um balanço da pasta, dos projetos e da Copa Feminina.
O Dia: O senhor assumiu o Ministério em abril, mas já estava na pasta como Secretário Nacional de Esporte. Sendo alguém sem trajetória nas urnas, como enxerga esse papel? Qual balanço faz da gestão até aqui?
Paulo Henrique Cordeiro: Eu nunca disputei o voto, e por isso tenho um respeito enorme por quem disputa. Mas o primeiro grande ponto desse balanço é simbólico: o retorno do esporte à condição de Ministério, uma decisão do presidente Lula. Isso é praticamente uma unanimidade na comunidade esportiva — inclusive o presidente da Confederação Brasileira de Clubes (Paulo Maciel) comentou isso recentemente. O Ministério nunca mais pode voltar à condição de secretaria; esse é um ponto fundamental. Desde quando eu era secretário nacional de esporte, na gestão do então ministro André Fufuca, a diretriz já era essa: democratizar o esporte, levar para o interior, para as cidades pequenas, para quem mais precisa. Não é que faltem equipamentos de alto rendimento — o Brasil tem um nível internacional muito bom nisso. Mas hoje temos mais de duas mil obras em andamento e mais de 700 arenas do Brasil em construção pelo país.

E qual a importância de manter o esporte com status de Ministério, e não de secretaria, olhando para o futuro?
É parte essencial do legado. Depois da queda da Dilma, no governo Temer, o esporte virou secretaria especial; no governo Bolsonaro, seguiu assim. O presidente Lula recriou o Ministério logo no início da gestão, e tenho certeza de que, com os resultados que estamos entregando, nenhum governo futuro vai ter coragem de rebaixar esse status de novo. Políticas públicas de esporte são baratas e eficientes: uma quadra poliesportiva coberta custa cerca de R$ 1 milhão e vira centro de convivência para toda a comunidade — tem dia dos pais, dia das mães, dia da criança. Do ponto de vista de saúde pública, costumo brincar com o ministro da Saúde que, se ele me desse 10% do orçamento do SUS, eu diminuiria sensivelmente a fila do sistema, porque esporte é saúde preventiva, saúde mental e inclusão social.

Do ponto de vista de recursos e articulação política, o que mudou?
Temos uma lei de incentivo fiscal que repassou cerca de R$ 1 bilhão no ano passado e deve repassar ainda mais este ano. Temos o Bolsa Atleta, a Secretaria de Paradesporto — que é muito atuante, aliás o Brasil está entre os cinco melhores do mundo em paradesporto, às vezes até à frente do olímpico. Também reaproximamos todas as confederações esportivas, que estavam afastadas, trazendo-as de volta ao Conselho Nacional de Esporte. Ministério não faz esporte, governo não faz esporte — a gente fomenta. E quero fomentar ainda mais: tenho o sonho de criar o Fundo Nacional de Esporte, usando cerca de R$ 1,3 bilhão que o Ministério recebe da tributação das bets e que hoje ainda não está sendo aplicado, porque falta esse fundo. Já começamos a construir essa estrutura.


O senhor mencionou a lei de incentivo fiscal. O que muda com o novo formato dela?
Ampliamos o incentivo de 2% para 3% do Imposto de Renda das empresas, e a lei deixou de ser decenal — antes precisava ser renovada a cada dez anos, agora tem vigência permanente, só podendo ser revogada pelo Congresso e pelo Executivo juntos, o que não deve acontecer. Hoje executamos cerca de R$ 1 bilhão por ano em projetos incentivados, que alcançam mais de um milhão de brasileiros. É talvez a maior ferramenta de fomento ao esporte no país, porque o empresário não tem gasto nenhum: ele simplesmente direciona parte do imposto devido para projetos sérios, que a gente ajuda a apresentar e validar.
E o orçamento do Ministério do Esporte, como evoluiu?
Quando cheguei, em 2023, o orçamento girava em torno de R$ 300 milhões. Hoje está em R$ 3 bilhões — um crescimento de 60% só no ano passado. Isso aconteceu porque executamos tudo o que recebemos, e o Congresso viu isso: mandou mais recursos, com a mesma força de trabalho. Também temos o Bolsa Atleta, que teve reajuste depois de anos parado, e criamos a Bolsa Pódio, complementar, para atletas já ranqueados. Hoje são mais de 212 mil atletas atendidos entre Bolsa Atleta, Para Atleta e Bolsa Pódio.
Com tanto recurso e emendas parlamentares envolvidas, como o Ministério controla e fiscaliza esses gastos?
Ainda como secretário, criei uma retenção de 2,5% sobre todas as emendas parlamentares — individuais, de bancada e de comissão — vinculada exclusivamente a despesas de execução e acompanhamento das parcerias. Com esse recurso, firmamos parcerias com universidades federais para ter bolsistas fazendo acompanhamento in loco dos projetos, principalmente onde há indício de problema. Também trouxemos a CGU para dentro do processo, para dar segurança jurídica a todo mundo — a mim, aos parlamentares, à sociedade. E construímos um sistema com inteligência artificial que automatiza e agiliza a tramitação: quando um parlamentar indica uma emenda, o sistema já vincula o CNPJ do proponente e o processo anda em poucas horas, enquanto outros órgãos cobram taxas maiores para fazer o mesmo em muito mais tempo.

Todos sabem que a paixão do brasileiro é o futebol. Como o Ministério atua nos demais esportes?
O futebol mexe com a paixão do brasileiro, mas o Ministério vai muito além dele — do beach tennis ao automobilismo, passando por projetos de vaquejada no Nordeste, corridas de rua, projetos paralímpicos. Apoiamos fortemente o esporte educacional, amador e universitário, que é a base que alimenta o alto rendimento; se não houver esse cuidado, muitos talentos se perdem pelo caminho. Um estudo da FGV mostra que, em cinco modalidades olímpicas — vôlei, iatismo, ginástica, entre outras — cada real investido retorna 13 reais para a economia; no futebol, o retorno é de 20 reais por real investido. O esporte hoje é uma indústria maior que a audiovisual no Brasil.

Quais são os projetos futuros do Ministério para captação de recursos?
Temos o sonho de criar o Fundo Nacional do Esporte. Atualmente, temos cerca de R$ 1,3 bilhão arrecadados via apostas esportivas (BETs) destinados ao Ministério, mas que ainda não puderam ser plenamente aplicados por falta dessa estrutura de fundo. Já começamos a trabalhar na construção dessa ferramenta.

O que já está confirmado pela Fifa em relação às datas e aos locais dos jogos da Copa do Mundo Feminina no Brasil?
A Fifa acabou de anunciar que tanto a abertura quanto o encerramento da Copa serão no Maracanã. O torneio vai acontecer no meio do ano, começando no dia 24 de junho e seguindo até o final de julho. Além do Rio de Janeiro, teremos jogos em cidades como Porto Alegre, Brasília, Fortaleza, Salvador e Belo Horizonte. A abertura e o encerramento serão no Maracanã.
Qual é o peso histórico e social de sediar esse torneio no país?
É a primeira vez que a Copa do Mundo Feminina acontece na América Latina. O Brasil vive um momento especial e chega com chances reais de disputa do título. Mas além do campo, há um resgate histórico fundamental: o futebol feminino foi proibido por lei no Brasil por quatro décadas. (Em 14 de abril de 1941, o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei 3.199, cujo artigo 54 proibiu as mulheres de praticar esportes considerados 'incompatíveis com as condições de sua natureza', o que baniu formalmente o futebol feminino no Brasil por quase 40 anos até sua revogação em 1979).  Sediar o evento é uma coroação e um símbolo de vanguarda no fortalecimento da mulher e no combate à violência de gênero.
O Rio de Janeiro tem um papel marcante nessa história do futebol feminino?
Sem dúvida. A base da primeira Seleção Brasileira, que foi disputar o torneio experimental na China em 1988, veio do time de Bangu, no Rio. Hoje temos 16 dessas pioneiras vivas. Celebrar essa Copa aqui é homenagear diretamente a trajetória de lutas e conquistas dessas mulheres.

Diferente de outros megaeventos, como o Brasil planejou a questão do legado e dos custos de infraestrutura?

Ao contrário de 2014, estamos construindo o legado de forma antecipada sobre três pilares: social, esportivo e sustentável. Do ponto de vista financeiro, o custo de infraestrutura é zero — os investimentos em arenas e grandes obras já foram feitos para a Copa de 2014. O foco agora é otimizar essa estrutura e criar um ambiente seguro. É um contraste importante: historicamente, dias de jogos registram altos índices de violência doméstica contra a mulher (cerca de 35%), e agora a Copa coloca a mulher no centro dos holofotes e do debate público dentro dos estádios.
Qual é, na visão do Ministério, o maior legado da Copa Feminina de 2027 para o esporte e para as mulheres?
Diferente de 2014, hoje já aproveitamos boa parte da infraestrutura herdada da Copa masculina e da Olimpíada do Rio — o Parque Olímpico da Barra e o complexo de Deodoro são referências mundiais, assim como boa parte das arenas espalhadas pelo país. O caso de Brasília é emblemático: o estádio, que dava prejuízo de R$ 26 milhões por ano, hoje rende mais de R$ 100 milhões à concessionária que o administra, recebendo eventos culturais e shows além do futebol.
Mas o maior legado da Copa Feminina — a primeira da América Latina — é sociocultural: mudar a forma como o brasileiro, tão apaixonado por futebol, enxerga o futebol praticado por mulheres. Hoje ainda existe preconceito e comentários depreciativos. Em países como Estados Unidos, Canadá e em boa parte da Europa, o futebol feminino já é mais desenvolvido, estruturado e badalado que o masculino. Queremos romper com a herança de um decreto de Getúlio Vargas, de 1941, que proibiu a prática do futebol feminino no Brasil e moldou negativamente a visão da população sobre o esporte praticado por mulheres.
Como isso se traduz em ações concretas com clubes e federações?

Discutimos isso diretamente com os clubes — recentemente estive reunido com times da Série A e da Série B, e mesmo fora da pauta oficial, levei o tema: não faz sentido ter uma Série A masculina entre as melhores do mundo e uma Série A feminina jogando em horários e condições inadequadas. Isso precisa mudar, e a Copa de 2027 é o momento mais propício para isso. Também estamos criando o primeiro centro de treinamento exclusivo para futebol feminino no Brasil, em Araraquara (SP), fruto de uma parceria construída com apoio do ex-jogador Edinho. A ideia é tornar o futebol feminino não apenas sustentável, mas rentável — como já é em outros países.
Do ponto de vista econômico, qual é o impacto estimado da Copa?
Um estudo encomendado pela FGV projeta um impacto de R$ 8,073 bilhões e a geração de cerca de 73 mil empregos, entre a preparação e a realização do evento — muitos desses postos devem se estender por quase um ano. Também investiremos cerca de R$ 220 milhões em infraestrutura de conectividade, via Ministério das Comunicações, para reforçar internet e telefonia nas cidades-sede — um problema que ficou evidente em Copas recentes, como a de 2022, e que pretendemos resolver de forma permanente. Para se ter ideia da demanda, nos primeiros 30 minutos em que a FIFA abriu o sistema de pré-cadastro de interesse em ingressos, mais de 700 mil pessoas, entre brasileiros e estrangeiros, já haviam se registrado.
Como o Ministério do Esporte garante a segurança e o combate ao preconceito de gênero nos estádios durante o torneio?
A Copa Feminina não é só um evento da FIFA e do Ministério do Esporte — é um evento interministerial. Temos a Polícia Federal, via Ministério da Justiça, e a Receita Federal, acompanhando de perto; a Agência Brasileira de Controle de Dopagem; parceria direta com a CBF e a FIFA para evitar qualquer tipo de discriminação; e a participação do Ministério das Mulheres e da Igualdade Racial, porque o objetivo é uma Copa inclusiva, Ministério das Comunicações. Criamos uma Secretaria Extraordinária dedicada exclusivamente ao torneio — algo que não existiu na Copa masculina de 2014 —, que já visitou in loco todas as cidades-sede para vistoriar infraestrutura física, conectividade e logística, em conjunto com FIFA e CBF. A segurança nos estádios envolve Polícia Federal, polícias estaduais, guarda municipal e segurança privada, além de voluntários para informação ao público. Toda essa infraestrutura está sendo trabalhada agora.

E como o Ministério pretende transformar o esporte de base e a formação de novas atletas a partir desse evento?

O objetivo é estruturar um ecossistema que faça as meninas brasileiras voltarem a sonhar com o futebol desde cedo. Para isso, o governo federal vem investindo na ampliação dos Centros de Treinamento de futebol feminino e em campeonatos de base. É um ciclo em que o legado esportivo caminha junto com o legado social, gerando empoderamento, capacitação e inclusão social.

Recentemente foram apresentados projetos de grande impacto, entre eles a criação da Universidade Federal do Esporte ((UFEsporte), criada pela Lei nº 15.457, de 3 de julho de 2026. De que forma essa instituição vai estruturar o esporte no país e em que fase está essa proposta?
A criação da Universidade Federal do Esporte é uma iniciativa extraordinária porque enxerga o esporte além do rendimento. O esporte hoje é transformação social pura, é oportunidade direta para os jovens e para as suas famílias, tirando meninos e meninas da rua e da criminalidade. A instituição vem para profissionalizar a gestão, formar especialistas e respaldar o esporte como ferramenta de saúde preventiva, saúde mental e inclusão social. O projeto já está sendo desenhado para garantir que essa formação chegue à ponta da sociedade

Além do futebol, quais são as principais iniciativas do Ministério do Esporte voltadas para a infraestrutura comunitária e a inclusão social?
Destacam-se dois grandes projetos: Arenas do Brasil e TEAtivo. No Arenas do Brasil, já são mais de 700 arenas pactuadas pelo país. São equipamentos públicos de altíssima qualidade que reúnem no mesmo espaço campo society, quadra de basquete 3x3, pista de corrida e playground infantil, promovendo a prática esportiva e a saúde para toda a família. O TEAtivo, desenvolvido pela Secretaria Nacional de Paradesporto em parceria com a Apae Brasil, promove a participação de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em atividades esportivas adaptadas e de lazer. Presente hoje em 11 capitais, sobretudo no Norte e Nordeste, atende a cerca de 1.200 famílias com aproximadamente 1.840 estudantes impactados.

E quando o TEAtivo chega ao Rio de Janeiro?
A meta é ter o projeto presente em todas as capitais e, no Rio de Janeiro, o planejamento prevê 9 unidades. Depois disso, a ideia é seguir interiorizando o programa, levando-o também para cidades-polo fora das capitais. É um projeto que mexe muito com a gente: quando visitamos um núcleo do TEAtivo, é impossível não se emocionar. Os relatos das famílias mostram o quanto o esporte muda a rotina dessas crianças, desde coisas simples, como conseguir sentar à mesa para uma refeição em família, até ganhos de autonomia e independência que impactam todo o ecossistema de apoio ao redor delas.
No caso específico do Rio de Janeiro, como se dá a escolha e a articulação das áreas onde estarão as novas arenas e equipamentos esportivos?
Damos preferência a locais de alta vulnerabilidade socioeconômica, onde hoje não existe nenhum equipamento de lazer ou esporte — não faz sentido concentrar tudo em áreas nobres. Os projetos são fomentados pelo Ministério, mas administrados pelo município ou por entidades sem fins lucrativos, muitas vezes já presentes em comunidades como o Complexo do Alemão. A experiência mostra que o esporte é, por natureza, inclusivo: mesmo em áreas historicamente marcadas pela violência, ele funciona como contraponto, afastando crianças e jovens de outras realidades e criando referências positivas dentro das próprias comunidades.