Novas paisagens da arte latino-americana: o que ver (e comprar) na SP-Arte Rotas
Por Agência Estado
Publicado em 26/08/2026 11:10:31Ao centro do estande da SUR, galeria vinda da cidade uruguaia de Punta del Este especialmente para a SP-Arte Rotas, está um imponente painel de cerâmica de quase oito metros de comprimento produzido em 1957 por Carybé (1911-1997), grande artista argentino que viveu a maior parte da vida na Bahia, amigo próximo de Dorival Caymmi e Jorge Amado.
Exibida pela primeira vez no Brasil, a obra pode ser lida como um retrato da relação íntima do artista com a cultura popular brasileira, apresentando figuras do sertão baiano sobre azulejos monocromáticos. Para Fernanda Feitosa, fundadora e diretora-executiva da SP-Arte, o painel é não só um dos destaques da feira, mas símbolo da direção que ela vem tomando nos últimos anos.
A Rotas será aberta nesta quarta, 26, para convidados, e recebe o público entre quinta, 27, e domingo, 30, na Arca, na Vila Leopoldina, na zona oeste da capital. Em sua quinta edição, ainda menor do que sua "irmã mais velha", a SP Arte, ela conta com mais de 70 galerias e instituições ligadas à arte. A intenção da organização, contudo, é dar enfoque especial a artistas e galerias de fora do eixo Rio-SP, com participação de casas de todas as regiões do País.
Ao mesmo tempo, Fernanda Feitosa vem investindo na ideia de que o Brasil pode e deve ser um grande polo da arte na América do Sul - e no mundo, por que não? Por isso mesmo, cresce também o número de galerias estrangeiras. Neste ano, participam, além da Sur, três argentinas (Barro, Isla Flotante e W-galería), uma colombiana (Casa Zirio) e uma italiana (Orma).
"É um trabalho de insistência, de formação de público e de educação, no sentido de expor ao público brasileiro uma quantidade cada vez maior, a cada ano, de artistas latino-americanos", diz. Esse trabalho, claro, já é feito até certo ponto por galerias brasileiras que representam artistas latino-americanos. Mas Fernanda reforça que é um movimento diferente trazer galeristas de fora ao Brasil para terem contato direto com os brasileiros.
"Acredito que o Brasil deveria chamar para si esse papel e ser um país líder na América do Sul. O mercado brasileiro, os colecionadores, curadores e os museus têm não só conhecimento como sofisticação suficiente e capacidade econômica para fazer circular no País obras latino-americanas e ampliar esse dito Mercosul, que nunca sai do papel", argumenta.
Projetos curatoriais diversos
As galerias estrangeiras dividem os corredores com casas tradicionais de São Paulo - Vermelha, Almeida & Dale, Dan Galeria, Zipper, Claraboia, para citar algumas - e com galerias de outras regiões do País, como a Lima, de São Luis (MA), a Marco Zero, de Recife (PE), a Midlej, de Salvador (BA), e a Karla Osório, de Brasília (DF).
"Nesse momento do Rotas, temos um olhar mais atento à produção dessas regiões. É uma produção muito diversa da que nós estamos acostumados e do que costumamos entender como a arte brasileira. Ampliamos esse recorte para trazer a arte produzida em todas as regiões do Brasil", diz Fernanda.
A principal diferença para a SP-Arte é o caráter mais intimista, com projetos curados por galerias especialmente para a feira. A Flexa, que vem do Rio, apresenta cerca de 70 obras cujo ponto de convergência é o estudo da cor. A galeria traz trabalhos de Tomie Ohtake (1913-2015), Alfredo Volpi (1896-1988), Adriana Varejão (1964) e Beatriz Milhazes (1960), por exemplo.
A Marco Zero reúne obras de 30 artistas brasileiros, como Abiniel João Nascimento (Carpina, 1996) e Marlene Almeida (Bananeiras, 1942), que circulam a temática da natureza e seus elementos. Há galerias que escolhem dedicar todo seu estande a um só artista, caso da Danielian, que dedica seu espaço a uma individual da artista visual e fotógrafa Mariana Tassinari (São Paulo, 1980), e da argentina Barro, que apresenta obras de La Chola Poblete (Guaymallén, 1989), artista que ganhou uma mostra recentemente no Masp.
Há também um espaço dedicado a projetos especiais. Fernanda destaca a Galeria Jaider Esbell de Arte Indígena Contemporânea, um coletivo formado em Boa Vista (RR) e hoje liderado por aprendizes do escritor e artista Macuxi que morreu em 2021. Esbell foi um dos principais responsáveis pela defesa da pluralidade da arte produzida por povos originários, comumente relegada à ideia de que deve ser presa ao passado, sem diálogo com a contemporaneidade.
O estande d'A Casa do Povo apresenta um conjunto de pinturas realizadas por artistas do povo Maxakali a partir do projeto Aldeia-Escola-Floresta, localizado na região de Itamunheque (MG). As telas foram realizadas com inspiração em cantos e narrativas sobre a Pukkutok, o Filho da Abelha, figura central da mitologia Maxakali. A venda das obras será revertida ao fundo Xug, criado por lideranças da comunidade para manter o bem-estar da aldeia.
E quem circular pela feira não vai demorar a encontrar o setor Mirante, já tradicional na Rotas, que neste ano apresenta uma exposição que reúne 66 trabalhos de 50 artistas diferentes em torno de diferentes interpretações da temática paisagem. A mostra tem curadoria do diretor artístico da feira, Bernardo Mosqueira, curador carioca radicado em Nova York e fundador do Solar, instituição dedicada à arte e educação no Rio de Janeiro.
"O Mirante é como se fosse um radar que nos indica, ilumina ou mostra os diferentes caminhos que a arte pode percorrer. Não existe um caminho só, uma só tendência ou movimento. Existem vários", explica Fernanda.
Precisa ser colecionador para visitar?
Nem todo mundo que vai à feira sai de lá com uma obra comprada, admite Fernanda. A variedade de obras e galerias, contudo, pode atender à demanda de um jovem colecionador até àquela de um agente com maior poder aquisitivo. A fundadora estima que, neste ano, os preços variem entre R$ 3 mil e R$ 1,5 milhão, mas estes números podem mudar a depender das negociações entre compradores e galeristas.
"A curiosidade é o fator principal da feira de arte. Ela é quase um encontro, uma materialização de uma comunidade que gosta de arte, que é curiosa pela arte, que está sempre antenada na vida cultural do País", afirma. A principal dica é: vá com calma, com roupas confortáveis, crie repertório e aprecie o melhor da arte brasileira.
SP-Arte Rotas 2026
- Endereço: ARCA (Av. Manuel Bandeira, 360, Vila Leopoldina, São Paulo).
- Datas: 26 a 30 agosto - 26 para convidados - 27 e 28 das 13h às 20h - 29 das 12h às 20h - 30 das 12h às 19h.
- Ingressos: R$ 60 (meia-entrada) e R$ 120 (inteira).