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Viva Maria, da Rádio Nacional, presta serviço a mulheres há 45 anos 

Por Agência Brasil

Publicado em 14/09/2026 08:10:14

Segunda-feira, 14 de setembro. Neste mesmo dia, em 1981, a jornalista Mara Régia di Perna, de 30 anos de idade, estava ansiosa e com o “coração descompassado”. Seria âncora pela primeira vez em um programa que criou e com que sonhou, voltado aos direitos sociais das mulheres, o Viva Maria, da Rádio Nacional.

“Eu estava em uma tremedeira e rouca. Sabia da responsabilidade que iria significar”, relembra a radialista, 45 anos depois. 

A Rádio Nacional, da Empresa Brasil de Comunicação, exibe a partir de hoje uma série de 14 podcasts com a incrível história do programa que se tornou referência internacional de informação sobre cidadania, gênero e direitos humanos. 

Nesses 45 anos, foram veiculadas 8,2 mil edições pelas emissoras da EBC.

Pesquisa acadêmica

Os resultados do programa atraíram também a atenção de pesquisadores de pós-graduação. Há pelo menos 30 estudos sobre o Viva Maria. 

“O programa nasceu em uma década decisiva para a cidadania das mulheres do Brasil, particularmente com a promulgação da Constituição”, explica Mara. 

Inclusive, ela participou da divulgação da Carta das Mulheres aos Constituintes – documento histórico entregue em 27 de março de 1987 com reivindicações dos movimentos feministas brasileiros por direitos civis, políticos e sociais. 

“Toda essa articulação feita através do Fórum das Mulheres do Distrito Federal nasceu no auditório da Rádio Nacional com a força do Viva Maria”, recorda.

Ela lembra decorado o anúncio do programa: “Quando entrar setembro, as Marias haverão de consolidar seu espaço na comunicação brasileira através de um programa que chega para fazer com que você seja ouvida nas suas reivindicações”.

Busca de direitos

Mercado de trabalho para mulheres, direitos sociais, saúde, educação. Os temas eram variados e passaram a ganhar repercussão de acordo com a participação dos ouvintes, sobretudo, das ouvintes, por telefone ou cartas. 

Aos poucos, o tema do enfrentamento à violência contra a mulher passou a ocupar espaço especial no programa. Uma inspiração surgiu da própria história de vida. A mãe de Mara, Yolanda, foi vítima de violência doméstica nas mãos do pai, que era dependente de álcool. Isso revoltava a jornalista, que nasceu e se criou no Rio de Janeiro. 

Na vida adulta, a radialista mudou-se para Brasília, onde cursou jornalismo e publicidade. Ela chegou a morar dois anos em Londres (Inglaterra) onde também buscou aperfeiçoamento nas temáticas relacionadas a gênero.   

“Pensei que deveria fazer algo para as mulheres não sofrerem o que minha mãe estava sofrendo.”

Enfrentar a violência

As pressões vindas do Viva Maria no dia a dia foram fundamentais para implementação da primeira delegacia especial de atendimento à mulher em Brasília, em 1986. 

“Nosso trabalho na rádio ficou reconhecido como um espaço de cidadania.”

No entanto, Mara passou a receber ameaças por telefonemas e passou a ser protegida pela polícia local. Ela organizou para que os dois filhos morassem, por um tempo, com familiares de fora da capital. 

“Nunca pensei em desistir.  Eu tinha que conseguir construir as políticas. Quando você abraça o seu destino, não pode traí-lo.”

Mais do que personagens

Ela ganhou a confiança de mulheres pelo Brasil inteiro. Mulheres entrevistadas transformaram-se em agentes do programa, multiplicadoras de histórias e esperança. 

Pediam estradas, melhores infraestruturas para escolas, trabalho e cidadania. Mara Régia chama as mulheres participantes e entrevistadas de “Marias”. 

Contatos empolgados por telefone, cartas manuscritas e caixas de e-mail lotadas fazem parte dessa troca entre equipe da rádio e as pessoas, principalmente mulheres, ouvintes assíduas.

Além do reconhecimento do público, o programa Viva Maria enfileira mais de 30 prêmios nacionais e internacionais conferidos pela crítica especializada. 

Missão de vida

Amor e devoção ao trabalho fizeram com que Mara Régia definisse o programa como uma missão de vida. Mais do que um serviço, cuidar do Viva Maria e das “Marias” transformou-se na dimensão de luta da jornalista. 

Um exemplo dessa determinação foi o caso do Amapá, onde Mara fez campanha para ajudar com perucas as vítimas de escalpelamento.

Ao ter a história revelada pelo programa Viva Maria, a professora Rosinete Serrão – vítima desse tipo de acidente com motores de embarcações – passou a ser uma voz para contar as histórias e mobilizar associações e pessoas.

"Não só descobrimos que existiam outras mulheres, como também, ao ser entrevistada pelo Viva Maria, passamos a inspirar mulheres a não pararem diante do acidente”, afirma a professora. 

Depois de conseguir uma peruca, Rosinete resolveu voltar para a escola, terminou o ensino fundamental e médio e chegou a se formar em pedagogia. 

Inspirações

Também na Região Norte, o programa Viva Maria garantiu visibilidade para o trabalho das parteiras no interior do Acre, como é o caso de Maria Zenaide Carvalho. 

"Lá no seringal, o rádio é o preferido. Nós parteiras do Acre e da Região Norte nos comunicamos por ele. O programa nos uniu.”

Ela explica que a jornalista Mara Régia, a apresentadora do programa, sempre a inspirou.

Inspirou também a trabalhadora rural Kennya Silva. "Seria um sonho que a Mara Régia lesse minha poesia, mas ela fez mais do que ler."

Ao receber a carta, a produção do programa procurou Kennya para uma entrevista. Os pedidos de entrevistas chegavam também pelo apelo das ouvintes. 

A partir dali, Kennya voltou a estudar. Cursou letras, e o reconhecimento fez com que ela transformasse a vida. Do rádio, vinham músicas, informações, poesia e vida.

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