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Indústria aposta em selo digital para barrar bebidas falsificadas; veja como funciona

Por Agencia Estado

Publicado em 15/09/2026 09:09:25

Uma garrafa de uísque, gim ou vodca pode parecer original por fora e esconder uma bebida adulterada por dentro. Um ano depois da crise do metanol que abalou o mercado de bebidas em São Paulo, deixando um rastro de mortes, a indústria de destilados lança uma tecnologia que permite ao consumidor conferir a autenticidade do produto pelo celular.

A ideia é apontar a câmera do celular para o Selo Drink Seguro Diageo, adicionado perto das tampas das garrafas, ao lado do selo de IPI. Não é preciso instalar aplicativo. O celular direciona o consumidor para uma plataforma, onde uma inteligência artificial analisa a chamada "impressão digital" do selo. Cada unidade tem uma identificação própria, com mais de 27 trilhões de combinações possíveis.

Se estiver tudo certo, o celular vai mostrar na tela a mensagem "selo validado com sucesso". Se a identificação não for reconhecida, a orientação é não consumir a bebida. O consumidor pode informar os dados da garrafa à companhia, que poderá repassá-los às autoridades.

"A confiança voltou ao normal, ao que era antes do metanol, mas existe um compromisso permanente de segurança para que o episódio nunca volte a acontecer", afirma Paula Lindenberg, presidente da Diageo Brasil.

O selo começou a chegar ao mercado em fevereiro e está sendo aplicado a garrafas de destilados, como uísques, gins, vodcas, tequila, rum e licor. Como ainda existe estoque produzido antes da adoção da tecnologia, este é um período de transição. Nas prateleiras dos supermercados, ainda existem garrafas com e sem o selo. A expectativa é que até o fim do ano todas as garrafas estejam identificadas com o selo.

O diretor de Vendas, André Muller, acrescenta que a ferramenta não pretende substituir os controles de qualidade da empresa, mas criar uma barreira adicional contra um tipo de fraude particularmente difícil de combater: a falsificação da própria embalagem.

A companhia não informa quanto investiu na nova tecnologia. "É um investimento importante", diz Lindenberg.

Destilados são alvo preferencial dos bandidos

Os destilados são um alvo atraente para falsificadores porque concentram alto valor em pouco volume. Uma garrafa de uísque de marca conhecida pode ser revendida no mercado clandestino por cerca de metade do preço do produto original e ainda deixar margem para o criminoso.

A fraude não exige uma embalagem completamente nova. Garrafas vazias são recolhidas em bares, restaurantes e até no lixo. Depois, recebem novamente líquido, rótulo, tampa e lacre. Para quem olha rapidamente na prateleira ou recebe uma dose no balcão, a diferença pode ser praticamente invisível.

É nesse ponto que a tecnologia pretende atuar. "Uma coisa é copiar, outra é clonar", afirma Mario Nicoli Netto, CEO da Securetrace, empresa que desenvolveu o sistema em parceria com a Diageo.

Segundo ele, a tecnologia já é empregada em ambientes onde a identificação e a proteção contra falsificações são consideradas críticas, como documentos e cédulas. Netto afirma que a empresa é fornecedora do governo federal na área de páginas holográficas dos passaportes. "Do mesmo modo que o ser humano tem uma identidade única, cada produto também deve ter. É preciso diferenciar cada unidade, uma por uma."

O especialista alerta que o selo não é visual. Não basta identificar a sua presença para se sentir seguro. É preciso escaneá-lo. São cinco segundos a mais no momento da compra. "A garrafa vai se 'comunicar' diretamente com você. É uma nova forma de consumir, com um novo hábito."

Do consumidor ao balcão

A mudança também interessa aos bares. O proprietário de um estabelecimento pode fazer a verificação antes de colocar a garrafa em circulação e, se quiser, mostrar o resultado ao cliente. É o que pretende fazer o empresário Humberto Munhoz, dono de casas em São Paulo como o bar O Pasquim.

"O cliente não vai olhar a nota fiscal no estoque. Mas ele pode pedir para escanear a garrafa que está no bar. Isso chancela ainda mais o compromisso com a segurança do cliente."

A falsificação, segundo dados apresentados pela indústria, representa 4,7% do mercado de destilados. Essa é a parcela que mais preocupa pela possibilidade de colocar substâncias perigosas dentro de uma embalagem aparentemente legítima.

O mercado formal convive com problemas que vão além da falsificação. Sonegação de impostos, contrabando, produção sem registro e outras formas de comércio irregular fazem parte de uma cadeia ilegal muito maior.

Para o consumidor, as recomendações continuam simples:

- desconfiar de preços muito abaixo da média;

- verificar rótulo, tampa e lacre;

- procurar sinais de vazamento ou violação;

- comprar em estabelecimentos legalizados.

A Diageo também mantém conversas com o poder público paulista sobre outras medidas. Uma delas é uma proposta de certificação para bares e pontos de venda, diferente do selo colocado nas garrafas.

O governo de São Paulo pretende criar um "selo de qualidade" para os estabelecimentos que participarem de um programa de combate à falsificação de bebidas. Os comerciantes participarão de treinamentos e terão de cumprir protocolos sobre a origem da bebida e pedido e emissão de nota fiscal.

Na esfera federal, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou um estudo que propõe mudanças na composição do etanol hidratado combustível para dificultar seu uso irregular na fabricação clandestina de bebidas.

A substância tem sabor extremamente amargo e, segundo a avaliação da agência, poderia ser percebida por consumidores caso o etanol fosse usado na adulteração de bebidas.

O rastro deixado pelo metanol

A crise sanitária que atingiu São Paulo em 2025 começou a ganhar dimensão no fim de setembro do ano passado, quando autoridades passaram a investigar uma sequência de intoxicações associadas ao consumo de bebidas adulteradas.

A Polícia Civil aponta que as bebidas alcoólicas adulteradas podem ter origem em uma mesma fábrica clandestina administrada por uma família no ABC Paulista. De acordo com a investigação, os suspeitos compravam etanol adulterado com metanol de dois postos de combustíveis da região. Foi uma sobreposição de crimes, de acordo com a polícia.

O metanol, altamente tóxico e proibido para consumo humano, é letal mesmo em pequenas quantidades.

A proprietária da fábrica está presa desde 10 de outubro de 2025. A dimensão do problema também expôs a conexão entre diferentes mercados clandestinos. A presença do crime organizado no setor de combustíveis já era uma preocupação das autoridades, inclusive diante de suspeitas de atuação de facções em postos, usinas e na cadeia de distribuição de etanol.

O Brasil registrou 25 mortes confirmadas por intoxicação por metanol em bebidas adulteradas durante o ano de 2025, com mais sete mortes confirmadas pelas secretarias estaduais de Saúde em 2026 até meados de agosto.

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