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Alice Oseman fala sobre fim de 'Heartstopper': 'não me sinto mais conectada à vida adolescente'

Por Agência Estado

Publicado em 21/09/2026 12:29:20

Alice Oseman está pronta para fazer uma pausa. Antes, porém, ela vai viajar boa parte do mundo para conhecer leitores devotos que a acompanharam nos últimos dez anos criando os quadrinhos de Heartstopper - primeiro, uma webcomic bem-sucedida; depois, um fenômeno editorial; por fim, uma série de sucesso na Netflix.

Uma das paradas desta turnê foi na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, onde Alice participou de mesas de debate e sessões de autógrafos lotadas nos dias 5 e 7 de setembro. Seus leitores muitas vezes carregavam leques com as cores do arco-íris, bandeiras LGBT+, tatuagens em sua homenagem e lágrimas nos olhos.

Era um sinal do carinho que ela adquiriu ao criar uma história sensível sobre dois adolescentes, Nick e Charlie, se apaixonando e enfrentando os desafios de crescer como parte da comunidade LGBT+. Seus leitores mais fiéis também se apegaram a romances como Rádio Silêncio, Sem Amor e Um Ano Solitário, em que ela explora temas como solidão, saúde mental e assexualidade, orientação sexual com a qual ela se identifica.

"Os fãs brasileiros são muito apaixonados, muito barulhentos, mas todos muito agradáveis. Conheci muitos leitores incríveis. As mesas foram muito divertidas. O tamanho me surpreendeu. Foi enorme. Eu não estava esperando um público tão grande", disse ela ao Estadão, numa conversa em um final de tarde após sua segunda participação no evento paulistano.

Se Alice não esperava tamanha comoção, o público provavelmente já sabia. É possível que a escritora demore a participar de eventos como esse por algum tempo. Ela veio ao Brasil para divulgar o sexto e último volume de Heartstopper, que chegou às livrarias pela Seguinte quase ao mesmo tempo em que a Netflix lançou o filme que encerrou a trama nas telas, depois de três temporadas em série. (No Brasil, os romances de Alice Oseman são publicados pela Rocco; as HQs, pela Seguinte).

É o fim de um ciclo pelo qual Alice, aos 31 anos, sente muita gratidão. Ao mesmo tempo, ela está pronta para novas aventuras, especialmente com histórias voltadas para um público mais velho, mais próxima da idade que hoje ela tem. É o que a autora disse ao Estadão nesta conversa, na qual falou sobre o fim de Heartstopper, as críticas que enfrentou ao longo da história, sua relação complicada com a internet e o que o futuro reserva para ela.

A conversa foi editada e condensada para melhor compreensão.

Você começou muito nova. Criou uma série de muito sucesso com 20 e poucos anos. Sentiu que no começo as pessoas duvidaram de você por conta da sua idade?

Não necessariamente que duvidavam, mas sempre me frustrou um pouco que essa era a única coisa que as pessoas queriam falar. Eu estava muito animada para falar sobre o livro que eu escrevi, que era Um Ano Solitário [publicado quando ela tinha 19 anos], mas a maioria das entrevistas que eu fiz foram sobre a minha idade e o quão louco aquilo era. É legal que eu pude dar essas entrevistas, de verdade, mas naquela época eu só queria falar sobre o livro.

O que você mais aprendeu desde que publicou seu primeiro livro?

Aumentei a minha autoconfiança, o que é provavelmente uma parte natural de ficar mais velha. Mas principalmente porque eu trabalhei em uma série de TV e tive que trabalhar com muitas pessoas diferentes e estar em um papel de liderança, isso definitivamente me ajudou a melhorar a minha confiança como pessoa.

'Heartstopper' se tornou um grande refúgio para muitas pessoas e imagino que você ouça muitas histórias sobre isso. Há algo que tenha causado maior impacto em você?

Sinceramente, qualquer história de alguém que diga que Heartstopper o ajudou a descobrir sua identidade ou a superar um momento difícil. E também de pais que dizem: 'Heartstopper me ajudou a entender um pouco melhor meu filho'. Qualquer coisa assim é simplesmente maravilhoso.

Inclusive, os seus livros são muito populares entre adolescentes e jovens adultos, mas você comentou na Bienal que percebeu que também tem muitos leitores mais velhos. Como acha que eles se relacionam com suas histórias?

Acho que pessoas de qualquer idade podem se identificar com as jornadas LGBT+ da história, que é sobre amor, amizade e comunidade. São todas coisas que, não importa a sua idade, você ainda pode encontrar. Além disso, também tem as pessoas que estão lendo e se sentem inspiradas a relembrar a própria infância e adolescência e pensar no que poderia ter acontecido ou como foi a experiência delas.

Muitos dizem que as suas histórias representam bem a geração Z. O que você pensa sobre isso?

Não sei se me sinto assim porque não faço parte da geração Z. Infelizmente, sou da geração millenial. Quando era mais nova, quando eu estava começando Heartstopper ou meus primeiros livros, eu estava bem próxima da vida adolescente. Eu tinha acabado de virar adulta. Agora, estou na casa dos 30, então não estou tão próxima disso. Fico feliz que as pessoas ainda sintam que é algo com que se identificam e com o qual conseguem se conectar, mas definitivamente não sinto que eu esteja tão por dentro de como é a vida adolescente hoje em dia, em 2026.

Você falou abertamente sobre ter sofrido com estresse e burnout pela alta carga de trabalho. Por que achou importante ser transparente com seus fãs em relação a isso?

Acho que sempre fui assim na internet. Cresci na internet e sempre tive uma relação muito próxima e aberta com meu público, na qual compartilho bastante sobre minha vida. Preciso dessa conexão. Gosto dessa conexão e de poder conversar com os leitores. Sei que muitos autores ficam felizes em lançar seus trabalhos e simplesmente desaparecer, mas eu realmente gosto de me comunicar com os leitores. Parecia natural compartilhar o que está acontecendo na minha vida e em que ponto estou na minha jornada criativa.

No começo, você interagia bastante com os fãs online. A coisa cresceu muito e a série fez com que 'Heartstopper' virasse um fandom gigante, com todas as coisas boas e ruins que vêm junto. Como você lidou com isso?

É bem difícil, para ser sincera. Ainda não sinto que consigo lidar muito bem porque, quando algo atinge um certo nível de popularidade, sempre vai haver uma parte muito barulhenta e negativa da internet. É difícil encontrar as partes boas sem também ver as ruins. Eu só tenho que tentar ignorar isso, mas é muito difícil e não sou muito boa nisso.

Você tem uma relação complicada com a internet, então?

Sim, com certeza. Acho que ainda mais nos últimos tempos. Dez anos atrás, a internet era simplesmente mais divertida. Havia menos coisas horríveis facilmente acessíveis. Hoje em dia, é difícil até mesmo encontrar lugares online onde você pode só se divertir e conversar com as pessoas de um jeito legal. Tem tanta coisa horrível, mas também muita porcaria. É uma pena porque, como eu disse, eu cresci na internet. Usei o Tumblr durante toda a minha adolescência e me diverti muito lá. Aprendi muito e descobri muitas coisas, mas agora é bem diferente.

Outro dia, apaguei o Twitter [novo X] e isso foi um passo grande...

Estou passando por algo parecido, porque não uso nem posto nada no X há uns três anos. Mas ainda dou uma olhada, porque tem uma comunidade de fãs de Heartstopper tão legal lá. Gosto muito de ver essas postagens das pessoas, mas também tem muitas outras coisas horríveis por lá. Não quero excluir a conta porque adoro aquela pequena comunidade de Heartstopper, mas está chegando ao ponto em que você só precisa fazer isso.

Você continuou atualizando os quadrinhos de 'Heartstopper' de forma gratuita online [em inglês] mesmo depois de publicar de maneira tradicional. Por que essa escolha?

Acho que o fato de ser de acesso gratuito é, em primeiro lugar, muito útil para adolescentes LGBT+. Muitas vezes, eles não têm condições financeiras de comprar seus próprios livros. Mas também o fato de ser gratuito é um dos principais motivos pelos quais as pessoas descobrem Heartstopper. Manter a obra disponível online gratuitamente, na verdade, ajuda mais pessoas a conhecer a história. Tive muita sorte de todas as minhas editoras terem entendido isso e terem apoiado essa iniciativa.

Muita gente fala que 'Heartstopper' é sempre leve e fofo, mas há muitos temas complexos abordados na história. Como você balanceia isso?

Eu diria que esse foi o maior desafio na produção de Heartstopper. Para mim, trata-se de decidir quando mostrar certas coisas e quando não mostrar. Quando você está explorando algo que pode ser bastante perturbador ou difícil de assistir, como um transtorno alimentar, por exemplo, mostrar demais pode só fazer com que a história pareça muito gratuita e deprimente. Algumas histórias são feitas para serem mais sombrias, mas Heartstopper sempre teve como foco a esperança e o otimismo.

Você já sentiu que as pessoas colocaram a história em uma espécie de caixinha? Ficou tão famosa por ser essa representação delicada. Isso chegou a incomodá-la em algum momento?

É, com certeza. Isso me deixou confusa porque não é assim que eu vejo Heartstopper. É uma visão muito superficial do que Heartstopper realmente é. No fim das contas, tento não dar importância a essas opiniões porque o que realmente importa para mim são os fãs que se importam de verdade e entendem a história.

Mas, sim, é interessante. Essa foi uma reação realmente enorme a Heartstopper, mas acho que teve muitas coisas sobre as quais as pessoas não falaram. Por exemplo, na primeira temporada da série de TV, há muito bullying. Charlie passa por um relacionamento tóxico. As questões de saúde mental. Essas são todas coisas sobre as quais as pessoas realmente não falaram.

A questão do sexo tanto nos quadrinhos quanto na adaptação gerou muita conversa online, especialmente nos primeiros anos da série. Você escolheu desenvolver isso aos poucos durante a história. Foi difícil filtrar esses comentários?

É definitivamente difícil filtrar o falatório porque é muito barulhento. Mas sempre foi minha intenção ir chegando lá aos poucos. Isso nem foi necessariamente uma escolha devido ao tom de Heartstopper, foi só porque parecia certo para os personagens. Nos volumes 1 e 2, Nick e Charlie ainda são muito jovens. O Charlie nem sequer tem 16 anos ainda. Eles não vão fazer sexo nessa fase.

Isso só me deixou confusa de novo: por que as pessoas estavam reagindo tão fortemente a isso? 'Por que eles não estão fazendo sexo? É tão irrealista'. É porque o Charlie tem 14 anos. Isso só me deixou frustrada. Eram mais opiniões de pessoas que não entendiam a história de verdade. Me sinto bem por ter feito do jeito que eu queria. Construindo isso aos poucos e deixando a história amadurecer junto com os personagens e junto com o público também.

Uma das coisas mais bonitas do último volume é a jornada do Nick. Ele pensava que só era importante dentro do relacionamento com o Charlie. Você se preocupava que as pessoas pensassem isso ao ler 'Heartstopper'?

Sim, com certeza. Acho que muitos leitores acham que o Nick é o namorado perfeito e que seu único propósito é salvar o Charlie e ajudá-lo. Bom, nem todos os leitores pensam assim, mas alguns, talvez os leitores mais casuais, tenham essa impressão dele. Acho que as inseguranças do Nick têm estado latentes ao longo de toda a série e, agora, no volume 6, pude realmente colocá-las em evidência e, finalmente, desvendar toda a sua dor e ansiedade.

Penso que exige bastante coragem para encerrar uma história enquanto ela ainda está fazendo tanto sucesso. Como você sabia que era a hora de terminar 'Heartstopper'?

Bom, eu já sabia há alguns anos que queria que a história terminasse quando a trajetória escolar de Nick e Charlie juntos chegasse ao fim. Quando cheguei ao volume 6, já sabia o que iria fazer e senti que tinha feito tudo o que queria com esses personagens. Explorei tudo o que queria e nunca gostaria de simplesmente prolongar a história só por prolongar. Prefiro que ela termine em alta e de uma forma realmente bonita e impactante.

Recentemente, você disse que tem lido mais ficção voltada para adultos do que livros YA [sigla para young adult; jovem adulto em português]. Você está pensando em escrever para adultos agora?

É, com certeza. Acho que é bem provável que seja isso que eu queira tentar a seguir. Adorei escrever YA. Mas, hoje em dia, não me sinto mais tão conectada à vida dos adolescentes como me sentia quando comecei a criar. Eu realmente não saberia sobre o que escrever se fosse escrever mais ficção juvenil. Por isso, com certeza, a ficção para adultos está nos planos para o futuro.

Pensa em escrever sobre mais assexualidade? Tem alguma coisa que você acha que as pessoas mais entendem errado sobre o assunto?

Acho que sim. Esse é um tema que me interessa muito. É difícil porque acho que a maioria das pessoas não entende nada sobre assexualidade. Acho que a maioria das pessoas nem sabe o que é. Muitas pessoas nunca sequer ouviram essas palavras antes. Acho que estamos realmente começando do zero neste momento. Qualquer história que conseguirmos seria revolucionária.

O que indicaria para as pessoas lerem depois de 'Heartstopper'?

Na verdade, na Bienal, tive a oportunidade de conversar com o roteirista e diretor do filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que acaba de ser adaptado para uma história em quadrinhos. Tem uma vibe bem parecida com a de Heartstopper.

E um livro para adultos que você indica?

Um dos meus livros favoritos para adultos é um livro chamado Querida Konbini, de Sayaka Murata, que conta a história de uma mulher cujo único sonho na vida é trabalhar em uma loja de conveniência. A história é basicamente sobre uma mulher que está lutando para se adaptar às regras da sociedade moderna. É um dos meus favoritos e acho que consigo me identificar muito com ele, além de ser muito estranho e incomum.

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