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Velório de Zuenir Ventura reúne familiares e amigos: 'Legado gigante'

Velório do histórico jornalista acontece na sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Centro do Rio; escritor é imortal na instituição

Por Fred Vidal, Romulo Cunha

Publicado em 23/09/2026 18:18:47
Zuenir Ventura foi velado na Academia Brasileira de Letras com a bandeira do Fluminense sobre o caixão
O velório do histórico jornalista Zuenir Ventura, que morreu em casa aos 95 anos, reuniu familiares, amigos e admiradores, nesta quarta-feira (23), na sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Centro do Rio. Imortal na instituição, o repórter foi velado com a bandeira do Fluminense, time do coração.
Elisa Ventura, filha de Zuenir, lembrou que o pai, durante a sua vida, transmitiu amor para todas as pessoas que estiveram perto dele, seja familiares ou colegas de trabalho. 
"Ele deixou esse legado gigante. Era uma pessoa que transformava a vida das pessoas e transbordava muito amor. Zuenir foi um pai muito amoroso, muito bacana, muito presente, uma pessoa que conseguiu passar para as gerações o amor que tinha pela profissão dele. Mais que tudo, ele era um cara que amava o que fazia, tinha prazer em passar isso para as pessoas", contou.
Mauro Ventura, também filho do jornalista, seguiu os mesmos passos do pai. Durante o velório, o repórter ficou com um papel e uma caneta para fazer anotações.
"As pessoas sempre dizem que o meu pai era um paizão para todo mundo. Essa paternidade múltipla, que se estendia para muito além da família, dava muito orgulho. Além de influenciar a gente em casa, ela se espalhava para pessoas que nem conhecíamos. Meu pai tinha esse lado muito solar. Estar aqui podendo celebrar essa vida, que impactou as pessoas, é um privilégio. Estava me sentindo meio ridículo porque estava com um papelzinho e caneta, anotando as coisas. O meu pai aprovaria porque vivia com um bloquinho na mão. Continuo seguindo os passos dele nessa caminhada bonita e plena", comentou.
Zuenir foi eleito para a ABL em 2014 e tomou posse em março do ano seguinte, ocupando a cadeira 32, que pertencia ao dramaturgo Ariano Suassuna. O jornalista Merval Pereira, presidente da Academia, destacou a importância de Ventura para a literatura, lembrando do livro escrito sobre o ativista Chico Mendes.
"A imortalidade é da obra que a gente deixa. O Zuenir será um que será lembrado eternamente porque ele escreveu livros que são fundamentais para compreender o Brasil. Isso pouca gente consegue. O Zuenir era ambientalista antes do ambientalismo ter essa força política. Ele entendeu a importância de Chico Mendes muito antes do que muita gente", destacou.
Diversos amigos compareceram à cerimônia. O cantor Gilberto Gil, que ocupa a cadeira 20 da ABL, contou que foi tocado pela gentileza do escritor.
"Com o Zuenir, o contato pessoal se deu quando eu vim pro Rio. Ele já muito intenso no seu trabalho como jornalista, como militante cultural, todas as coisas que nós sabemos que significa, significou e significará sempre. Fui muito tocado, e continuo até hoje, pela delicadeza dele. Muito manso, suave e dedicado, uma pessoa exemplo nesse sentido. Além de ter sido um fruto extraordinário da árvore humana do Brasil. Tive, nesses últimos tempos, o prazer de conviver com ele aqui na Academia. Ele tinha um apreço muito grande pelo convívio, em dar e receber das pessoas tudo que fosse possível. Saudades", discursou.
A jornalista Miriam Leitão disse que as obras de Zuenir ajudaram as pessoas a pensarem sobre o autoritarismo, desigualdades sociais e meio ambiente.
"As últimas horas mostraram um pouco de seu tamanho. As redes estão inundadas de imagens dele e de matérias. O jornalismo está de luto. Várias gerações foram alcançadas pela gentileza dele. Era generoso, muito inteligente, muito bem humorado. Zuenir foi importante porque ajudou o Brasil a pensar sobre questões fundamentais. Um grande brasileiro, que deixa um legado imenso", afirmou.
O jornalista Ancelmo Gois lembrou que Ventura o acolheu quando chegou ao Rio de Janeiro. "Não vinha com nenhuma recomendação. Era um 'Zé Ninguém', que vinha lá do Nordeste. Ele acolhia porque reconhecia o valor. Não pelo sobrenome ou pela história. Antes de tudo, foi um padrinho, um cara que substitui o pai e protege na chuva ou no sol. Eu perdi um padrinho no jornalismo, que me ensinou, que me deu saber e afeto", ressaltou.
A jornalista Regina Zappa destacou a generosidade do amigo com os colegas de redação. "Era uma pessoa extremamente firme com os seus textos, mas era de uma leveza incrível e muito amoroso. Muito carinhoso com os amigos. Era o cara que liderava e ensinava. Era um cara que transitava por todas as áreas com a mesma seriedade, não importava com quem estava falando. A gente aprendia assim com ele. Era um jornalista completo, que ainda vai inspirar muita gente", afirmou.
Com 60 anos de amizade com o repórter, o cineasta Zelito Viana destacou que a história do Brasil passou pelas mãos do amigo. Ele, inclusive, fez um documentário sobre Zuenir.
"Vivi muito com ele. Uma pessoa extraordinária, um amor de pessoa. A história do Brasil passou pelas mãos dele, que ocupou posições importantes na imprensa brasileira nos últimos 60 anos. Estava sempre na crista da notícia. Tudo que aconteceu de importante no Brasil, o Zuenir estava lá. É um legado imenso para as novas gerações. Tomara que sigam o exemplo dele, com a seriedade de como encarava a profissão", destacou.
Depois do velório, o corpo foi levado para o mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul do Rio. Zuenir deixou a companheira Mary Ventura, com quem ficou casado por mais de 60 anos, e os filhos Elisa e Mauro.

Carreira

Natural de Além Paraíba, em Minas Gerais, Zuenir se mudou para Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, aos 11 anos. Aos 20, foi para a capital fluminense, onde cursou Letras Neolatinas na então Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, passou por veículos como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo.

Entre os trabalhos de maior destaque estão a série de reportagens "Os anos 60 - a década que mudou tudo", publicada em 1969, assim como os livros "1968 - o ano que não terminou", que vendeu mais de 400 mil exemplares, e "Cidade Partida", que rendeu o Prêmio Jabuti de Reportagem, em 1995.
A Prefeitura do Rio decretou luto oficial de três dias pela morte do jornalista, ocorrida nesta terça-feira (22), e destacou sua contribuição para a imprensa, a literatura e a relação com a cidade, que se tornou cenário de parte importante de sua vida e obra.
O Governo do Estado do Rio também lamentou a perda. Neste momento de tristeza, o Governo se solidariza com familiares, amigos, colegas de profissão e admiradores das obras de Zuenir Ventura", disse em nota.