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Filmes brasileiros colocam personagens surdas no centro das narrativas: 'Já passou da hora'

Por Agência Estado

Publicado em 28/09/2026 13:07:18

No set de 90 Decibéis, houve um dia em que Benedita Casé Zerbini simplesmente interrompeu uma cena. Uma pessoa falava de costas para ela e a atriz, que é surda oralizada, não conseguia fazer a leitura labial. Poderia ter seguido o texto e deixado a situação passar. Em vez disso, parou e avisou o diretor Fellipe Barbosa que não estava entendendo. A resposta foi simples. "É isso. Você encosta nela, faz como faria na sua vida", conta. A colega se virou, Benedita voltou a entender e a interrupção acabou incorporada ao filme.

A situação ajuda a explicar o que aproxima duas estreias brasileiras que chegam ao público nesta semana: 90 Decibéis, que será exibido na TV Globo nesta segunda, 28, e Nem Toda História de Amor Acaba em Morte, longa paranaense que já está em cartaz nos cinemas desde quinta, 24. São filmes bastante diferentes - o primeiro acompanha uma mulher que perde progressivamente a audição; o segundo conta uma história de amor entre duas mulheres -, mas ambos colocam personagens surdas no centro da narrativa, interpretadas por atrizes que também têm deficiência auditiva.

Mais do que transformar a surdez em obstáculo ou símbolo, os dois filmes incorporam essa experiência à construção das personagens e à própria linguagem cinematográfica. Em 90 Decibéis, isso aparece na maneira como Ana passa a perceber o mundo depois de perder a audição. Em Nem Toda História de Amor Acaba em Morte, a surdez de Lola convive com sua sexualidade, maternidade, trabalho, desejos e contradições - sem que uma característica precise explicar todas as outras.

Uma advogada que perde a audição

Em 90 Decibéis, Benedita interpreta Ana, uma advogada bem-sucedida e mãe de Theo que descobre, depois de um acidente de carro, que uma dificuldade auditiva que já vinha sentindo evoluirá para uma surdez profunda. O diagnóstico - uma doença degenerativa nos cílios dos ouvidos - altera a rotina da personagem. Ela perde o emprego, enfrenta o capacitismo no mercado de trabalho e, posteriormente, encontra uma vaga em um posto de atendimento voltado a pessoas com deficiência.

É nesse novo ambiente, ao lado de personagens como Regininha e Yara, que Ana começa a lidar de outra maneira com a própria condição. A história foi escrita por Julia Spadaccini a partir de uma experiência pessoal: a roteirista também foi diagnosticada na vida adulta com perda auditiva bilateral neurossensorial progressiva.

Benedita teve uma trajetória diferente. Convive com a surdez desde os três ou quatro anos e faz sua estreia como atriz no longa. Ainda assim, encontrou um ponto de identificação imediato com Ana: a maternidade. "Essa angústia, essa insegurança em relação ao filho, de ouvir ou não ouvir, de como ele vai olhar para ela, se ela vai dar conta de cuidar, se vai colocá-lo em perigo", afirma ao Estadão. A atriz se refere especialmente a uma cena em que Ana tira os aparelhos auditivos e o filho se machuca. "Isso está muito presente no filme e, com certeza, esses sentimentos transbordaram para a personagem", conta.

A preparação, feita com a atriz e preparadora Marina Rigueira, também passou por experiências pessoais de Benedita. Ao mesmo tempo em que levou para Ana sensações que conhece, ela procurou construir uma mulher diferente de si. "Eu levei muito das minhas vivências, das sensações e das percepções que são muito minhas para a Ana. Ao mesmo tempo, construí a personagem de uma forma que também se distancia bastante da minha história e da minha realidade, para que ela tivesse uma personalidade forte e própria, que não fosse a Benedita", conta.

A diferença entre as duas também aparece na maneira como cada uma precisou se adaptar à surdez. Benedita convive com a deficiência desde a infância; Ana começa a enfrentar a perda auditiva já adulta, depois de anos ouvindo de outra maneira. "Ela já passou muitos anos da vida ouvindo de uma determinada forma e, de repente, adulta, precisa começar a usar um aparelho auditivo, o que exige uma adaptação longa e difícil", explica a atriz. "Tem muito ruído, você fica atordoada, precisa equalizar os sons, entender volume e frequência".

A atriz também precisou se aproximar de uma experiência que não faz parte de sua própria rotina: o zumbido associado à perda auditiva progressiva. Mais do que reproduzir sintomas, porém, o desafio estava no processo de aceitação da personagem.

Ana inicialmente rejeita o lugar social destinado às pessoas com deficiência. Quando perde o emprego e passa a trabalhar no posto de atendimento, começa a conviver com pessoas com diferentes deficiências e, aos poucos, transforma a rejeição em pertencimento. "Ela não quer pertencer àquele lugar", diz Benedita. "É como se dissesse: 'Não, espera aí. Não vem com esse papo de PCD para cima de mim'". Para ela, esse percurso é um dos pontos centrais do filme.

O olhar como linguagem

A própria experiência de Benedita também interferiu na maneira como 90 Decibéis foi filmado. A leitura labial exige que a atriz mantenha os olhos fixos no interlocutor, e Barbosa transformou esse olhar em uma característica visual da personagem.

"Me interesso sobretudo por filmar o rosto de Benedita. Ela precisa olhar profundamente o outro para entendê-lo, devido à leitura labial constante. Isso torna seu olhar muito cinematográfico, e eu nunca filmei tanto close na vida", afirma o diretor.

O recurso não é apenas uma escolha estética. Ele aproxima o espectador da maneira como Ana se comunica e percebe as pessoas ao redor. Barbosa também pensou o som para acompanhar a experiência da personagem. Na abertura, Ana está no carro com o filho quando confunde a música que toca no rádio e não percebe que Theo está ouvindo o som em volume alto. A câmera se movimenta entre os dois enquanto o áudio ajuda a estabelecer que mãe e filho não estão ouvindo a mesma coisa.

Para o diretor, porém, o filme não deveria ficar preso à ideia de perda. "O filme fala justamente sobre isso: como a perda auditiva de Ana acaba ampliando a escuta da personagem para o mundo ao redor", diz.

Essa transformação também aconteceu fora da ficção. Cerca de 70% do elenco é formado por pessoas com deficiência, segundo Barbosa, e a presença desses profissionais alterou a própria relação da equipe com o tema. "Eu e a equipe nos tornamos muito mais atentos à existência de pessoas com deficiência ao nosso redor. Foi um portal que se abriu na nossa relação com o mundo", afirma.

Lola não existe para representar nada

Em Nem Toda História de Amor Acaba em Morte, enquanto isso, a relação com a surdez é outra. Lola, interpretada por Gabriela Grigolom, já nasceu e cresceu surda. Jovem, negra, mãe solo, não monogâmica e responsável por uma companhia de teatro independente, ela se envolve com Sol (Chiris Gomes), uma professora de meia-idade que está se separando do marido, Miguel.

O problema é que a separação não significa uma ruptura imediata: por falta de uma solução prática, Sol continua morando com o ex-marido. O relacionamento com Lola nasce, portanto, dentro de uma casa que ainda preserva os móveis, as rotinas e os ressentimentos de um casamento que acabou.

O diretor Bruno Costa partiu do desejo de questionar as formas tradicionais de representar o amor. "A gente está muito acostumado a pensar o amor dentro de modelos já estabelecidos: o casal, a família, a monogamia, o casamento, a separação", diz. "Eu queria justamente olhar para o que acontece quando essas estruturas começam a se deslocar".

O próprio título do filme brinca com uma expectativa recorrente nas histórias de amor entre mulheres. Em vez de se concentrar na tragédia, Costa quis olhar para a relação como possibilidade de transformação.

O desafio era não transformar Lola em uma soma de características - ou em uma personagem criada para representar diferentes grupos. "Lola não poderia existir para representar nada", afirma o diretor. "Antes de ser todas essas coisas, ela é a Lola, uma mulher surda que deseja, se apaixona, erra, tem ciúme, tem medo, tem humor, tem tesão, tem suas próprias contradições".

Essa preocupação também aparece na maneira como Gabriela participou da produção. A atriz não ficou restrita ao trabalho diante das câmeras: atuou como consultora do roteiro, ao lado de outros profissionais surdos da equipe técnica.

"Seria impossível fazer esse filme com a verdade que ele apresenta sem que pessoas surdas estivessem envolvidas", diz Costa. "Algumas soluções que pareciam naturais no roteiro precisaram ser revistas. E isso não foi uma limitação, foi justamente o contrário. O filme ficou mais rico porque outras perspectivas passaram a participar da construção".

Para o diretor, essa participação precisa ir além da representação diante das câmeras. "Representatividade não é só colocar a pessoa na frente da câmera", afirma. "É também permitir que essa pessoa tenha voz, que participe nas decisões sobre como aquela história vai ser contada".

Quando a acessibilidade entra na criação

Essa lógica também orientou a acessibilidade de Nem Toda História de Amor Acaba em Morte. Em vez de deixar a língua brasileira de sinais (Libras) para a etapa final da produção, Costa e equipe a incorporaram desde a concepção do filme. "A gente percebeu que não bastava simplesmente traduzir o filme para Libras no final e considerar a questão resolvida. A acessibilidade precisava fazer parte da concepção do filme", afirma.

O diretor chama atenção para o fato de a Libras não ser simplesmente uma versão traduzida do português. "É uma língua com uma estrutura própria, com uma experiência visual própria", contextualiza. "Então, quando você pensa um filme que tem uma protagonista surda, precisa pensar também em como o espectador surdo vai receber aquela obra".

Uma das soluções encontradas foi ter um intérprete de Libras para cada personagem, usando o mesmo figurino da pessoa que interpreta. A escolha procura integrar a tradução à própria imagem e tornar a experiência mais próxima para o espectador surdo.

A relação com a comunidade surda também serviu para questionar decisões que poderiam passar despercebidas por uma equipe ouvinte. Para Costa, essa participação não restringiu o filme; ampliou as possibilidades de criação.

Duas histórias, outra perspectiva

Os dois filmes, que estreiam próximos do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, em 21 de setembro, compartilham uma mudança de perspectiva. Em vez de fazer da deficiência uma explicação para as personagens, os dois a incorporam à vida delas - e, em diferentes níveis, à própria realização dos filmes.

Em 90 Decibéis, Ana precisa aprender a se comunicar de outra maneira, reconstruir sua relação com o trabalho e descobrir um sentimento de pertencimento. Em Nem Toda História de Amor Acaba em Morte, Lola não precisa passar por um processo de "superação" da surdez para viver uma história de amor: ela já chega à narrativa com desejos, trabalho, maternidade, sexualidade e contradições.

É também por isso que a presença das duas atrizes importa para além da escalação. Benedita levou para Ana experiências que conhece, mas também precisou interpretar aquilo que não viveu. Gabriela participou da construção do próprio roteiro e ajudou a questionar escolhas da produção. Nos dois casos, a experiência de pessoas surdas não ficou apenas diante da câmera.

Talvez seja aí que as duas histórias mais se aproximem: não na tentativa de explicar a surdez ao público, mas na decisão de permitir que personagens surdas ocupem o centro da história sem precisar ser reduzidas a ela.

"Já passou muito da hora de olhar para essas questões de outra maneira", afirma Benedita. "Para quem vive isso, às vezes é cansativo e exaustivo, porque a gente entende o capacitismo desde o momento em que começa a entender o mundo."

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