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Em carta, Flávio confirma fuga e se declara 'presidente eleito'

Sem provas, candidato derrotado acusa instituições brasileiras de perseguição política

Por Leonardo Brito

Publicado em 28/10/2026 19:19:06 Atualizado em 28/10/2026 19:19:06
Flávio Bolsonaro e família desembarcaram no aeroporto Opa-locka Executive, em Miami
O senador Flávio Bolsonaro (PL) divulgou uma carta, nesta quarta-feira (28), na qual confirma ter deixado o Brasil com a família e se apresenta como "o verdadeiro presidente eleito". No documento, o parlamentar contesta o resultado das urnas, acusa autoridades brasileiras de perseguição política e promete organizar a oposição a partir dos Estados Unidos. O senador foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial, que aconteceu neste domingo.

Na carta, Flávio sustenta que houve fraude eleitoral e questiona a decisão que ampliou até às 19h o horário de votação em todo o país. Ele afirma que a medida teria alterado as regras durante o processo eleitoral e acusa o Supremo Tribunal Federal (STF) de ultrapassar as atribuições da Justiça Eleitoral.

Entretanto, no domingo, a campanha de Flávio também pediu ao TSE que a votação fosse estendida até as 19h. A ampliação nacional foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF. A carta, contudo, não apresenta comprovação de que a medida tenha alterado o resultado da eleição, já que dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que as urnas eletrônicas registraram 34.393 votos após às 17h. O número equivale a 0,027% do total de votos depositados durante todo o dia de segundo turno.

Por outro lado, lideranças de partidos que estiveram ao lado de Flávio Bolsonaro reconheceram a vitória de Lula. O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, comentou o resultado nas redes sociais ainda na noite de domingo. Em publicação no X, ele afirmou que o novo governo deverá buscar entendimento com diferentes setores políticos e representar a população independentemente de suas escolhas nas urnas. Pereira também defendeu o diálogo com o Congresso Nacional.

Outro nome que se pronunciou foi o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD). Depois de disputar o primeiro turno e declarar apoio a Flávio na etapa final da eleição, ele também reconheceu o resultado divulgado pelas urnas.
 
Além disso, o presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto também reconheceu a vitória de Lula. Em nota, Valdemar afirmou que o partido reconhece o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas defendeu que os questionamentos sobre a disputa sejam esclarecidos. O dirigente, no entanto, não parabenizou Lula pela reeleição.

“Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático”, declarou o presidente do PL.

Inicialmente, a carta de Flávio foi divulgada por Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, jornalista, empresário, influenciador e comentarista político radicado nos Estados Unidos. Ele é neto do ex-ditador brasileiro, João Figueiredo. 
 
Figueiredo foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) no inquérito que apura a tentativa de golpe de Estado e propagação de desinformação. Ele é considerado foragido da Justiça brasileira nos Estados Unidos e teve bens e passaporte bloqueados por decisões do STF. 
 
Após a divulgação da primeira versão da carta, Figueiredo apagou e disse em seguida que "continha um erro que vai ser ajustado."
 
Na primeira versão, o documento aparece com o brasão do país escrito "Estados Unidos do Brazil", depois mudando para "República Federativa do Brasil". O Brasil mudou de nome em 15 de março de 1967, deixando de ser "Estados Unidos do Brasil" e adotando República Federativa do Brasil. Outro ponto é que Flávio na primeira versão se disse "presidente eleito" e depois modificou para "líder do Brasil".

Derrotado fala em perseguição e cita Trump e Milei

No documento, Flávio agradece ao presidente argentino, Javier Milei, ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e à população norte-americana. Ele afirma que encontrou nos Estados Unidos um ambiente de liberdade e segurança jurídica.

O senador diz que não pretendia deixar o Brasil, mas afirma temer o que classifica em uma perseguição política. Segundo sua versão, a intimação para entregar os passaportes seria parte de uma sequência de medidas que poderia terminar em restrições ainda mais severas, incluindo prisão domiciliar e condenação.

Flávio também afirma que não existe mandado de prisão contra ele e nega ter cometido crimes. No documento, sustenta que pretende continuar atuando politicamente fora do país e se tornar uma das principais vozes da oposição ao novo governo.

O candidato derrotado é investigado por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, junto com o advogado e amigo próximo Willer Tomaz, que também deixou o país rumo aos EUA, ainda antes da eleição. Mesmo com a fuga, os inquéritos aos quais Flávio responde no Supremo continuam a tramitar. Além da investigação relatada por Moraes, o parlamentar também é alvo de um inquérito no caso do Banco Master, sob relatoria do ministro André Mendonça.

Neste caso, ele é investigado por ter pedido ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo dono do Master, o equivalente a R$ 134 milhões, supostamente para financiar a produção do filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai. A solicitação da quantia foi identificada pela PF em mensagens extraídas do celular apreendido de Vorcaro. 

Flávio promete contestar eleição e liderar oposição

Além de questionar o horário de votação, Flávio acusa a campanha de Lula de abuso de poder político e econômico e de utilizar a estrutura pública para favorecer a reeleição. Ele afirma que pretende pedir ao TSE a cassação da chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin.

O senador também critica o que chama de disseminação de notícias falsas pela campanha adversária e sustenta que houve desequilíbrio na disputa. Na carta, porém, não apresenta uma decisão judicial que reconheça as irregularidades que atribui ao presidente reeleito.

Flávio afirma que pretende se reunir com deputados, senadores e governadores aliados para definir uma estratégia de oposição. Ele cita o senador Rogério Marinho (PL-RN), a quem identifica como seu candidato à Presidência do Senado. O parlamentar também diz que pretende usar sua atuação no exterior para expressar críticas que, segundo ele, os aliados não teriam liberdade para fazer no Brasil. Ele encerra o documento dizendo que a disputa política não terminou com a votação de 25 de outubro e promete divulgar novas manifestações nos próximos dias.

A divulgação do documento ocorre após Flávio deixar o Brasil, ao ter os passaportes requisitados por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), poucas horas depois do resultado. Na segunda-feira (26), Flávio foi intimado pela Polícia Federal (PF) a entregar os documentos em até 24 horas, prazo que terminou ao meio-dia da terça-feira (27). No entanto, a entrega não ocorreu dentro do período determinado. Ainda na terça-feira (27), o senador deixou o Brasil com destino aos Estados Unidos.

A carta amplia as críticas do parlamentar ao Judiciário e afirma que a ordem faz parte de uma tentativa de silenciá-lo. Flávio também menciona investigações em andamento e acusa autoridades de utilizar os procedimentos judiciais para constrangê-lo. Ele nega irregularidades nos casos em que é citado.

Ao se declarar presidente eleito, Flávio apresenta uma posição política contrária ao resultado proclamado pela Justiça Eleitoral. O TSE, entretanto, reconheceu Lula como vencedor do segundo turno, com maioria dos votos válidos, e anunciou oficialmente sua reeleição, com 64.256.232 votos (51,79% dos válidos), contra 59.826.041 votos (48,21%) do senador

Confira carta completa:

Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil.

Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.

Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível. E as nulidades não são o único problema. Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.

A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime. Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento.

Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.

Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do 1impeachment. Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.

Não vou submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança. Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.

Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.

Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.

Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação.

Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim. Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam.

À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado como normal.
Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.

E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela 2liberdade no Brasil. Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista.

Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar.

Que Deus abençoe o Brasil.

Flávio Bolsonaro