De responsa

Efeitos das Fortes Chuvas no Rio

Reflexo do Racismo Ambiental e distante da Justiça Climática

Por O Dia

Publicado em 27/02/2026 12:41:47 Atualizado em 27/02/2026 12:41:47
Racismo ambiental agrava efeitos das chuvas
Coluna Luiz André Ferreira
Estamos em pleno período das chuvas de verão. São inegáveis os impactos das mudanças climáticas. Os fenômenos vêm ocorrendo com maior frequência e intensidade. Não se trata de eventos isolados ou imprevisíveis. No entanto, as consequências não podem ser explicadas apenas por fatores naturais.
Há um componente estrutural que agrava seus efeitos: o racismo ambiental, alimentado pela omissão do poder público no planejamento urbano. Não é por acaso que as áreas mais atingidas no Rio de Janeiro são justamente aquelas historicamente negligenciadas pelo Estado.
A falta de políticas consistentes gera perdas materiais, traumas profundos e perpetua um ciclo de vulnerabilidade. Esse modelo de gestão abandona favelas, periferias e comunidades tradicionais, mantendo esses territórios sob risco permanente diante do avanço da crise climática.
Racismo Ambiental

Na Baixada Fluminense, destacam-se negativamente regiões como Tinguá, Valverde e Duque de Caxias. Já na Zona Norte carioca, bairros como Acari, Fazenda Botafogo, Higienópolis e Manguinhos enfrentam alagamentos recorrentes.

Os impactos naturais recaem de forma desproporcional sobre esses territórios, não coincidentemente majoritariamente negros, que convivem há décadas com a ausência de investimentos em drenagem, saneamento, contenção de encostas e infraestrutura básica. O que ocorre nessas áreas não pode ser tratado como problema pontual ou natural, tornando-se parte de uma rotina de violações de direitos.

Injustiça Climática
Levantamentos do Projeto Retrato das Enchentes evidenciam a gravidade do cenário. Em Acari, 91,2% dos entrevistados afirmaram que as ruas alagam com frequência. Na Vila Kennedy, o índice é de 84,9%.

A situação é agravada por falhas na comunicação: 40% dos moradores, na média geral da pesquisa, relatam não receber qualquer orientação de segurança. Alertas por sirene ou SMS frequentemente não chegam ou são incompreensíveis, deixando essas populações desassistidas em momentos críticos.

Em Acari, 84,1% das famílias perderam bens essenciais, como: sofás (64,9%), camas (62%) e geladeiras (50%) , e 71,7% das residências sofreram danos estruturais. Na Vila Kennedy, 58,5% das casas registraram comprometimento físico, enquanto 60,6% das famílias perderam eletrodomésticos.

Diante da omissão do poder público, moradores investem em soluções improvisadas, como pequenos muros de contenção e elevação de móveis, tentando reduzir prejuízos futuros.

Moradores Ilhados
O isolamento geográfico e a interrupção de serviços essenciais comprometem o funcionamento coletivo desses territórios. Na Vila Kennedy, 74,5% da população fica sem acesso a transporte e serviços básicos durante as cheias. Em Acari, a paralisação atinge 56,2% do transporte público e 50,4% dos serviços de saúde.

A situação é agravada pela perda de documentos importantes em quase metade dos lares pesquisados, aprofundando a exclusão civil e dificultando o acesso a atendimento e auxílios pós-enchente.
Os deslocamentos internos forçados por eventos extremos evidenciam o surgimento de “refugiados climáticos”. São pessoas obrigadas a abandonar temporária ou definitivamente suas casas devido à recorrência das enchentes.
Enfrentar a emergência climática exige combater diretamente o racismo ambiental. A justiça climática no estado só será possível com o reconhecimento das dívidas históricas que estruturam não apenas as favelas, mas todos os territórios sistematicamente privados de investimento público.

A resposta à crise demanda que o Estado abandone intervenções genéricas e implemente políticas de mitigação e adaptação que respeitem as especificidades dessas comunidades, com investimentos proporcionais à vulnerabilidade a que foram submetidas ao longo de décadas.
* Luiz André Ferreira é professor universitário, jornalista, apresentador e podcaster. Mestre em Projetos Socioambientais, em Bens Culturais e Designer Educacional