VERÃO NÃO É UMA DELÍCIA PARA TODOS

Ondas de calor escancaram desigualdades no Rio

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Os meses de dezembro e janeiro costumam ser associados a férias e descanso. É o período em que famílias e amigos viajam, casais aproveitam o tempo livre, cantoras pop lançam as chamadas 'músicas do verão' e a contagem regressiva para o Carnaval se inicia. Canções populares como 'Ai, que delícia o verão', da cantora pop mineira Marina Sena, e 'Jetski', de Melody, retratam a estação mais quente do ano como sinônimo de prazer, liberdade e lazer.

No Rio de Janeiro, no entanto, o verão do final de 2025 e início de 2026 tem sido marcado por uma realidade bem diferente para grande parte da população. Com temperaturas frequentemente acima da média histórica, moradores de favelas e periferias relatam episódios de desmaios, fraqueza, quedas de pressão e desidratação. Hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) têm registrado aumento na procura por atendimentos relacionados às altas temperaturas, afetando principalmente idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.

De acordo com informações do Governo do Estado do Rio de Janeiro, entre os dias 1º e 11 de janeiro, as UPAS do território fluminense registraram 1.597 atendimentos de pessoas que passaram mal em decorrência do calor extremo.

Especialistas e organizações da sociedade civil alertam que os impactos das mudanças climáticas não se distribuem de forma igual. No Rio de Janeiro, a crise climática se manifesta de maneira mais severa em territórios vulnerabilizados, onde raça, renda e localização geográfica definem quem mais sofre com eventos extremos, como as ondas de calor. Esse fenômeno é conhecido como racismo ambiental.

A realidade vivida nos territórios periféricos escancara desigualdades estruturais. Em muitas residências, o sol incide diretamente sobre telhados e paredes sem qualquer isolamento térmico. A falta de áreas verdes, o acesso irregular à água (ou a falta dela) e a ausência de eletrodomésticos como ar-condicionado ou ventiladores transformam o calor em um risco diário.

Em entrevista, Maria, diarista e moradora de Belford Roxo - Baixada Fluminense, relatou: "Na última segunda-feira (12/01), eu tive que dormir sentada do lado de fora de casa, porque não tinha luz e nem vento. No dia seguinte, me estressei, passei mal e precisei procurar atendimento médico".

No dia citado pela diarista, o Rio registrou máxima de 40,8 °C, sendo o dia mais quente do verão até agora, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Enquanto para parte da cidade o verão é uma delícia, para milhares de pessoas ele se traduz em exaustão, adoecimento e filas nas Unidades Básicas de Saúde. O contraste reforça que o calor extremo não é apenas um fenômeno climático, mas também um grave problema de justiça social e de saúde pública.

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