O rap como literatura, o MC como poeta e a roda como espaço de troca, escuta e pensamento crítico. É dessa lógica que nasce o 'Rodas e Rimas', clube de leitura que tem transformado a relação de jovens com o hip-hop no Espaço Cultural Mangue, na Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro. A iniciativa reúne artistas, moradores e participantes de diferentes pontos da cidade para debater temas presentes nas letras das músicas.
O 'Rodas e Rimas' foi criado em setembro de 2025 pelo jornalista Lucas Freire, de 24 anos, e pelo fotógrafo João Victor de Lima, de 25. A ideia, no entanto, não surgiu como um 'projeto' formal, mas a partir das rodas de conversa que os dois mantinham durante a faculdade.
"A gente abria esse espaço porque era maneiro ver algo que começava entre nós dois, ou entre nossos amigos, tomando uma proporção maior e envolvendo cada vez mais gente. Talvez a gente só tenha pensado que, se mais pessoas participassem, seria mais divertido e, aí, criamos o Rodas e Rimas", explicou Freire.
O clube se inspira em experiências do movimento negro e da cultura hip- hop brasileira. Entre as principais referências está o 'Projeto Rappers', do Geledés — Instituto da Mulher Negra, liderado por Sueli Carneiro nos anos 1990. A iniciativa também dialoga com projetos contemporâneos como o 'Projeto Livrar', de MC Marechal, o 'Noname Book Club' e o 'Clube de Leitura do Rap', do Centro Cultural São Paulo.
De acordo com João Victor, os encontros acontecem mensalmente e começam com a apresentação do artista convidado e da obra que será debatida no dia. Os mediadores têm a função de conduzir a conversa, mas há uma atenção especial para que cada participante se sinta confortável para contribuir.
"A gente entende que o Rio é um berço de cultura em todas as suas regiões, mas, ainda assim, grande parte dos eventos culturais se concentra nas regiões Central e Sul da cidade. Decidimos iniciar na Penha para criar esse clima de aproximação, troca e 'quintal de casa' que a Zona Norte oferece e sempre ofereceu", explicou o fotógrafo.
O objetivo dos idealizadores é reconhecer os MCs como aquilo que eles são: poetas, produtores de conhecimento, artistas e intelectuais. Por meio do clube de leitura, eles buscam dar visibilidade a essas vozes que, em sua maioria, são de jovens negros e periféricos.

