O sonho de toda mãe é ver seu filho na escola, com uma profissão, progredindo na vida. Quero dedicar este texto à minha mãe, que empenhou todos os esforços para realizar em mim um sonho que era dela. Empregada doméstica por muito tempo, foi a pastora Kátia quem me motivou a estudar, e anos depois, já adulta, também entrou para universidade. Hoje se formou e é uma pedagoga que muito me orgulha.
Venho da escola pública em Duque de Caxias e de uma família em que a universidade não era um horizonte. Permanecer na escola e seguir adiante nunca foi apenas resultado de esforço individual, mas da combinação entre apoio familiar, políticas públicas e mobilização popular contra as desigualdades que atravessam quem vive na Baixada Fluminense e em outras periferias do Rio.
Historicamente, a universidade brasileira foi organizada para atender as classes médias e altas. A criação da política de cotas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em 2002, abriu caminho para a chegada do povo na universidade. Sem dúvidas, o Sistema de Cotas é a principal Política de Reparação Racial que o estado produziu para reparar o crime da escravidão no Brasil.
As cotas promoveram uma transformação profunda no perfil dos estudantes universitários: negros e indígenas, oriundos das escolas públicas, já representam mais de 53% dos ingressantes nas federais. Na Uerj, mais de 40% dos estudantes se autodeclararam pretos ou pardos entre 2013 e 2019. As cotas são uma grande vitória, mas existem setores que querem acabar com esta política. Por isso, todos que possuem compromisso com a igualdade e a luta antirracista no Brasil, devem ficar atentos aos ataques contra cotas. Em 2027, a Alerj vai votar a renovação da Lei de Cotas (Lei n° 8.121/2018). É fundamental que os deputados votem a continuidade e o aperfeiçoamento da lei, incluindo a inscrição automática dos estudantes da rede pública no vestibular da Uerj e a isenção dos inscritos no CadÚnico.
Neste contexto, o Coletivo PerifaRio iniciou a campanha 'O Povo na Universidade': Garantir que jovens da periferia entrem na universidade e permaneçam nela. Nos últimos dez anos, com o Instituto Nós em Movimento, aprovamos a entrada de mais de 300 estudantes para a universidade.
O 'Povo na Universidade' é uma convocação para criar e fortalecer pré-vestibulares populares em toda região metropolitana e interior do estado, aperfeiçoar a política de cotas na universidade e defender a educação básica com a seriedade que ela merece.

