A Baixada Fluminense é conhecida por ser referência em arte urbana. Nomes importantes para a cena artística nasceram, cresceram e deixaram a sua marca por aqui. O 'Enraizados', no Morro Agudo, em Nova Iguaçu, existe desde o final do século passado e tem como missão fortalecer a cultura hip-hop. Em 2026, o 'Meeting of Favela' (MOF), um dos maiores eventos de grafite da América Latina, que acontece na Vila Operária, em Duque de Caxias, completa 20 anos de existência. O Museu do Grafitti, fundado em 2011, na Pavuna, Zona Norte do Rio de Janeiro, também se faz presente no município vizinho: São João de Meriti. Outro exemplo notável é o projeto 'Revitalizarte', criado em 2017, com o objetivo de revitalizar os muros da linha férrea de Mesquita.
A recepção da arte urbana, produzida em vários lugares, como ruas, praças e escolas, ainda divide opiniões. De um lado, está quem a vê como expressão livre da periferia; do outro, quem se refere a ela como vandalismo. Goste ou não, existem leis que valorizam e asseguram a sua prática. Em Duque de Caxias, a Lei nº 3.248, de 20 de junho de 2022, reconhece o grafite e o muralismo como manifestações artístico-culturais. No entanto, o que temos assistido nos últimos meses é um apagamento sistemático efetuado pela Secretaria de Obras e Agricultura: Nossos Passos Vêm de Longe, no Viaduto do Centenário; Passos da História, no circuito do Museu Vivo do São Bento; Personalidades, em frente ao Goméia Galpão Criativo. As pinturas, que traziam a identidade da Baixada Fluminense, foram substituídas por composições abstratas e paredes monocromáticas.
As ações em Duque de Caxias seguem na contramão de outros municípios do Rio de Janeiro, aproximando-se da operação Cidade Linda, de 2017, responsável por deixar São Paulo ainda mais cinza. Nesse cenário, vemos duas possíveis explicações: a ignorância sobre o território ou o exercício lúcido da censura. Com tantos problemas, especialmente de infraestrutura, por que apagar os grafites se tornou uma prioridade? A resposta é simples: imagem é poder. Os trabalhos possuíam em comum a representação de temas sociais e de grupos minoritários — pobres, negros e mulheres —, sendo um verdadeiro retrato do povo duquecaxiense. Indignados com essa situação, artistas e produtores resolveram denunciar o ocorrido.
Na última terça-feira, a Secretaria de Cultura fez uma reunião na qual garantiu não só a reconstrução do que foi apagado, mas também a criação de novos painéis e editais de grafite. Reconhecer o erro é o primeiro passo, o segundo é não repeti-lo. Que o município de Duque de Caxias nunca perca as suas cores!

