Ontem foi comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino- Americana e Caribenha. Reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), a data remonta ao ano de 1992, quando foi realizado um encontro em Santo Domingo, na República Dominicana, voltado para questões de raça e gênero. No Brasil, a Lei nº 12.987/2014 se valeu desse marco histórico para instituir o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.
Iniciativas como essa visam não só homenagear personalidades, mas também evidenciar a resistência e a luta de quem combate as desigualdades sociais. O fato de vivermos em um país que é, segundo o IBGE, formado em sua maioria por negros e mulheres, não isenta a existência de práticas racistas e machistas. Cientes disso, quem se cala diante da violência escolhe o lado do opressor.
A educação e a cultura desempenham uma tarefa fundamental em nossa sociedade: estimular o pensamento crítico. Elas informam, transformam e denunciam. Não é novidade afirmar que arte é política, uma vez que expressa ideias e ideais. Na última década, por exemplo, mulheres negras têm conquistado maior visibilidade nas linguagens artísticas, destacando-se por trazer diferentes histórias, memórias e imaginários. Para isso ocorrer, foi necessário romper com as estruturas e ocupar os espaços de poder. Desse modo, é importante ressaltar que o caminho é árduo, que os seus passos vêm de longe e que a força para seguir está no coletivo.
Em 2016, unindo o nome da técnica, xilogravura, a uma palavra que faz referência ao seu universo de criação, isto é, a cultura preta, Val Pires deu início ao projeto Xilopretura. Desde então, um de seus objetivos é criar representações de mulheres negras, com ênfase na beleza, força, sabedoria e identidade, conferindo-lhes o devido protagonismo e desconstruindo os estereótipos da História da Arte. A sua motivação partiu da busca por imagens que não as reduzissem à dor e ao sofrimento, resultando em outras narrativas, pautadas no amor e no cuidado. Ao falar sobre ancestralidade, compartilha o que aprendeu com as mais velhas: conexão com o sagrado, proteção espiritual e função das ervas.
Filha de artesã e de marceneiro, Val Pires nasceu em 1986, no Rio de Janeiro, e se mudou ainda na infância para Magé, na Baixada Fluminense. Entre idas e vindas, atualmente mora em Guapimirim, município vizinho. O incentivo que recebeu da família permitiu-lhe estudar e se descobrir artista. No entanto, foi a vivência enquanto mulher negra que fez do seu trabalho um olhar sensível para a realidade. Por fim, que Xilopretura possa nos inspirar a ser antirracista, antissexista e decolonial, bem como semear esses princípios em nossos territórios.
Conheça mais sobre o trabalho da artista no site www.xilopretura.com.br

