Mulheres de fé

Perifa
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Todo domingo tem um roteiro conhecido na vida de muitas mulheres evangélicas das favelas e periferias do Rio: é dia de igreja. Elas levantam cedo, tem escola bíblica, culto, conversa com as irmãs.

No próximo domingo, dia 25, a rotina terá uma parada diferente: é dia de eleições. E o voto dessas mulheres está em disputa.

A população evangélica brasileira cresceu muito nas últimas décadas. São 26,9% segundo o Censo 2022 do IBGE. Em toda eleição, candidatos, pesquisadores e jornalistas tentam entender para onde vai esse voto. O Instituto de Estudos da Religião (ISER), acompanhou mais de 180 mulheres evangélicas de todas as regiões do Brasil entre 2022 e 2025. Quando perguntadas sobre o país que desejam, elas falaram de comida na mesa, escola boa, emprego digno, segurança e futuro para os filhos. Também disseram observar propostas, honestidade e confiança na hora de escolher em quem votar.

As preocupações dessas mulheres são reais e não parecem com o estereótipo construído sobre a imagem da mulher evangélica no Brasil. Então, o que será que parte do setor progressista não está conseguindo enxergar quando ousa colocá-las numa única caixa mesmo com inquietações tão diversas? Ou, ainda, qual o tamanho da ousadia dos setores extremistas ao tratá-las como meras marionetes de seus projetos políticos, como se não tivessem qualquer agência sobre suas decisões?

Diante das ausências, dificuldades e incertezas do cotidiano, a fé ganha protagonismo. Essas mulheres não oram para se afastarem da realidade, pelo contrário, é através da oração que encontram formas de continuar enfrentando-a, mesmo que seja dura.

A oração é um instrumento poderoso de sobrevivência. Afinal, viver no Rio de Janeiro exige fé. Fé na vida, fé na coletividade, fé nas soluções locais produzidas a partir dos territórios vulnerabilizados pelo poder público, seja pelos excessos de sua presença através das inúmeras operações policiais ou seja pelos excessos de sua ausência. É preciso ter fé.

Na Baixada Fluminense, na Zona Oeste, no Leste Metropolitano e nas tantas periferias espalhadas pelo Rio, mulheres evangélicas fazem suas comunidades se movimentarem todos os dias. Oram pelo bairro, cuidam de gente, organizam redes de solidariedade, aconselham, acolhem e sonham com uma vida melhor.

Na segunda-feira, a eleição terá passado, mas a vida dessas mulheres continua sendo vivida ali, nos mesmos territórios, com os mesmos desafios de antes. Por isso, enxergá-las apenas como eleitoras é pouco. É preciso ouvi-las e reconhecê-las em sua diversidade. Elas precisam ser vistas para além da fé que professam: pelo cuidado, pelas redes que constroem e por tudo o que fazem (e continuarão fazendo) todos os dias para manter suas famílias, comunidades e territórios de pé.

No próximo domingo, elas vão exercer a fé e a democracia. Depois dele, continuarão fazendo o que sempre fizeram: seguindo. Diante de tantos aproveitadores da fé e da distorção do papel das religiões no nosso país, a pergunta que fica é: quem ainda seguirá por elas?

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