'Pode até ser rainha no Brasil, mas não é Deus', diz Mara Maravilha sobre Xuxa

Apresentadora fala à coluna Andrei Lara sobre carreira, fé, maternidade e as polêmicas com a mãe da Sasha, Angélica e Luiza Brunet

Mara Maravilha em ensaio fotográfico atual, em uma fase de maturidade pessoal e profissional
Mara Maravilha em ensaio fotográfico atual, em uma fase de maturidade pessoal e profissional -
Em entrevista exclusiva à coluna, Mara Maravilha relembra quase 50 anos de carreira, fala sobre Silvio Santos, SBT, Record, fé, preconceito, maternidade, novos projetos e o espaço que ocupa na história da televisão brasileira. A apresentadora também comenta a relação com Angélica e Eliana, aborda a polêmica com Luiza Brunet e abre o jogo sobre o rompimento com Xuxa, de quem diz não guardar mágoa, mas indignação: “Pode até ser rainha no Brasil, mas não é Deus”.
Andrei Lara: Mara, quando você olha para aquela Mara de Itapetinga, que começou tão cedo na televisão, e olha para a mulher que você é hoje, o que daquela menina ainda existe em você?

Mara Maravilha: Tudo. Eu não me perdi nessa viagem. Eu ainda olho no espelho, literalmente, e me conheço. Inclusive, no meu espelho, escrevi recentemente com batom: “Eu sou maravilha. Independente”. É isso. Nesses quase 60 anos de idade e 50 anos de carreira, desde criança a arte sempre esteve comigo. Desde a Bahia, em Itapuã; São Paulo, SBT, exterior, música, programas de TV… Quantas músicas na minha voz? Por volta de umas 500. E a mesma vontade daquela menina do começo existe em mim, muito mais ainda.

Você começou na TV ainda muito jovem, antes de se tornar conhecida nacionalmente. Em qual momento percebeu que aquilo poderia virar, de fato, uma carreira?

Foi involuntário. Foi intuitivamente. Era o que eu gostava de fazer: cantar, falar, brincar, questionar. Eu era uma aluna que questionava muito os professores. Esse era o meu perfil. Tanto que eu não sei se posso te dar um spoiler de um documentário que está sendo produzido sobre mim. A minha primeira canção já foi muito do que eu sou. A primeira se chamava “Seja Mais Você”, a primeira música em que coloquei a voz. Depois veio outra, “Chega de Stop”. Tipo, eu sou boa de briga também.

Como Silvio Santos entrou na sua vida?
Deus. Coisa de Deus, né? Deus não se explica. No primeiro momento em que estive com ele pessoalmente, as primeiras palavras que ele falou para mim foram: “Eu sou seu fã”. Foi isso que ele falou para mim: “Mara, eu sou seu fã”. O Silvio já me conhecia dos trabalhos que eu fazia regionalmente na TV Itapuã, na Bahia. Quando tive a oportunidade de me lançar como cantora e fui ao programa dele, ele falou ao vivo: “Eu sou seu fã, já te conheço”. E, de lá até aqui, eu virei, entre aspas, a Mara Maravilha do Silvio Santos.

Quando o “Show Maravilha” estreou e virou aquele fenômeno todo, você tinha dimensão do tamanho que estava alcançando?

Não. É como eu te respondi, eu nunca tive essa dimensão. Mas acredito nas pessoas que acreditaram e nas pessoas que hoje se levantam e acreditam em mim. Eu, por exemplo, tive oportunidade na Record também, do Edir Macedo. Foi uma grande oportunidade. Hoje estou na Rede Gospel, da família Hernandes, da Bispa Sônia, da Bispa Fernanda, do Apóstolo Estevam. São pessoas importantes.

O que eu levo de lição é que a gente tem que ser importante para as pessoas e nunca querer ser mais importante do que elas. É isso. Quando o Silvio me deu o “Show Maravilha”, ele sempre falava: “Você é extraordinária. Você é minha filha do coração”, assim como quando estive na Record também.

Então, tem muitos bastidores. Estou te dando uma exclusiva, Andrei. Estou contando o que nunca contei para ninguém. Com o Silvio, por exemplo, eu poderia lançar várias obras literárias, documentários, até só contando as minhas histórias com ele.

E também as minhas histórias na Record, que foi no mesmo momento em que aconteceu a minha conversão, quando me converti na Universal. Sou muito grata ao ministério da Igreja Universal. Hoje congrego na Renascer e vejo que o corpo de Cristo é um só, independentemente da placa.

Quando transitei pela Record, sempre fui muito autêntica. Não abro mão dessa minha autenticidade, não negocio a minha autenticidade. Eu sei que chegava ao meu ouvido: “Olha, o bispo falou para deixar você ser quem você é”. E hoje estou na Rede Gospel. Tenho os meus fiéis na Rede Gospel, tenho essa liberdade. Porque o livre-arbítrio é dado a todos, inclusive a mim. E eu não vou abrir mão. Querendo ou não, querendo outras pessoas ou não, eu sou a Mara Maravilha.

Você foi uma apresentadora morena, nordestina, em um momento em que a televisão infantil ficou marcada pela imagem de apresentadoras loiras. Você sentiu preconceito naquela época?

Eu sei o que significa preconceito. É o público que faz a leitura do preconceito. Eu nunca me senti melhor, menor ou pior do que ninguém, em nenhuma esfera.

Sabe quando a gente prejulga e depois fala: “Poxa, não é nada daquilo que eu julguei, que eu pensei”? Isso acontece muito comigo. As pessoas fazem um prejulgamento e depois falam: “Poxa, me enganei. Poxa, me enganei sobre você”. Eu vivo muito isso. E sei que as pessoas entendem o que estou falando, porque é inerente ao ser humano prejulgar.

Não tem problema, não. A questão é que eu estou viva, cheia de saúde, cheia de graça e amor para dar. Eu até vou corrigir uma fala minha. Eu falei que sou boa de briga. Eu não sou. Eu não gosto de briga. Mas, se me chamam para uma, aí eu vou até para a guerra.

Mara, você se considera uma pessoa muito julgada?
Eu não estou no papel de ser julgada, porque quem julga é juiz. As pessoas opinam, elas formam opinião. Eu não sou bandida. Eu não tenho meu nome sujo. Eu nunca fui condenada a nada. O Léo Dias, por exemplo, ele não é réu primário, o seu colega, né? Ele não é nem réu primário. Eu nunca fui condenada a nada. Então, para que eu vou me colocar nesse lugar? “O povo te julga.” Quem julga é juiz. O povo cria opinião sobre a minha pessoa e sobre a minha arte.

Mas o mais importante é que uma coisa é o artista. Isso eu acho muito importante você pegar nessa minha linha de raciocínio, Andrei. A arte sempre será maior do que o artista. E eu, como artista, a minha arte vai estar aí. A minha voz cantando música romântica, cantando música de adoração, cantando música com ritmo brasileiro. São mais de 500 músicas. E a minha arte vai ficar aí. É arte.

Quando se fala hoje na geração das grandes apresentadoras infantis, você acha que a história reconhece corretamente o tamanho da Mara Maravilha?

A história, não sei. Mas o tempo é o melhor narrador da história. E o tempo ainda… Eu ainda estou aqui, né? Graças a Deus.

Existe alguma coisa sobre o fim do “Show Maravilha” e a sua saída do SBT que nunca foi contada corretamente?

Existem muitas coisas que nunca foram contadas de forma correta. Por isso vai ter esse documentário. Mas, em relação ao SBT, eu serei eternamente grata ao Silvio Santos, ao SBT e à família Abravanel, independentemente do que aconteça hoje ou do que acontecerá amanhã. O que já aconteceu já me coloca em um lugar onde eu só tenho uma palavra: gratidão, respeito e amor. Ponto. “Ah, mas e hoje? E amanhã?” Sabe aquela pessoa que só presta quando está te fazendo algo? Não. Isso é inerente ao meu caráter. Eu sou grata. Então, não vou viver falando mal do SBT, da Record, porque as contas comigo não se encerram, não se fecham.

Depois de tantos anos de carreira, o que falta para Mara Maravilha?

Que a Eliemary Silva da Silveira tenha sempre mais saúde para possibilitar que a Mara Maravilha continue fazendo arte. Eu vou ter muitas ideias. Eu sou uma cabeça muito pensante, em todos os sentidos. Eu sou da época em que assistia ao “Sítio do Picapau Amarelo”, de Monteiro Lobato. Eu não imitei ninguém. Eu não tenho uma referência de apresentadora que eu imitei. Quando me trouxeram da Bahia para cá, eu já apresentava lá.

Então, eu acho muito coerente da nossa parte colocar na pauta os novos que estão vindo. Essa nova onda que traz os influenciadores digitais, onde eu vejo muita gente boa e para quem a gente vai ter que dar palco, dar holofote.

Quando a gente não sabe viver cada etapa, a gente não entrega o nosso melhor. Eu tenho o melhor para entregar, mas tem muita gente nova vindo e que tem que ocupar um espaço que um dia foi nosso, das apresentadoras dos anos 80, 90 e 2000. É sobre isso também que eu faço a reflexão.

Você se considera uma mulher em paz?

Em paz? Eu me considero muito como Davi. Se você ler as falas de Davi, ele era segundo o coração de Deus, mas vivia em conflito. Mas uma coisa eu não tenho dúvida: Deus está comigo. Não é sobre nós estarmos com Deus. É sobre Deus estar com a gente. E Deus está comigo. Porque Davi era aquele que até o próprio pai esqueceu. Eu tive o meu genitor, que já não está mais presente aqui neste plano chamado vida. E até por isso eu também vou, aqui nessa entrevista, não no meu documentário, me limitar.

Mas eu fui esquecida pelo meu genitor, assim como o próprio Davi foi esquecido pelo pai. Davi era o improvável para derrubar um gigante. Eu sou o improvável. Mas, assim como Davi foi com a fé que ele tinha, que eu vejo como genuína, igual à minha, eu vou de cabeça, não importa qual seja o gigante. Eu vou com essa fé que eu tenho, crendo que Deus está comigo.

E o mais interessante é que as lutas aumentam conforme a nossa jornada e a nossa fé. Assim como Davi, eu era regionalmente e fui crescendo. Depois fui nacionalmente e fui crescendo. Depois fui internacionalmente e fui crescendo.

Davi primeiro teve que derrotar um urso para defender as ovelhas. Depois era um gigante. Depois era contra o próprio Saul, que era o rei que estava governando aquela nação. E Davi foi quem derrubou o gigante e deu vitória para aquela nação. Só que depois Davi virou alvo do próprio Saul.

Mas ele não se perdeu, ele não nutriu ódio contra Saul. Só que depois, ao crescer e ser colocado como uma liderança, não era mais um exército contra Davi. Eram muitos exércitos.

Então, quando eu me vejo em polêmicas como as que estou vivendo, onde exércitos se levantam, antecipando até a sua pauta das polêmicas, quando vejo militantes usando agora os recursos da IA, da internet, exércitos se levantando contra Mara Maravilha, o Davizinho, eu falo: eu não vou recuar.

Porque o Deus que eu sirvo me dá uma ordem: “Filha, você é fraca, mas diga para eles que você é forte”. Então eu digo: eu sou forte.

Não tem problema. Pode levantar fulana, mulher-fruta, pode vir a feira toda. Pode levantar amiguinha, pode levantar fã-clube.

O meu telefone foi vazado, os meus dados pessoais foram vazados. Eu cheguei a um ponto de proteção comigo, com o meu filho e com a minha família em que tive que fazer um B.O.

Mas eu sei que estou protegida pelos anjos, arcanjos, querubins e serafins. Independentemente de todas as precauções que a minha equipe manda que eu passe a ter, quem me protege é Deus.

Pode um Maracanã vir contra mim. Maior é quem está em mim. Porque eu, com Deus, e eu estou dando essa entrevista e quero falar isso, eu com Deus sou maioria. Pronto, acabou.

Não é sobre Mara, não é sobre Xuxa, não é sobre fulana, beltrana, ciclana. É sobre a verdade de cada um. Eu tenho a minha história, ela tem a dela. Respeita a dela, respeita a minha. Me respeita, Maria. Eu também sou Maria.

Você sente, Mara, alguma necessidade de provar alguma coisa para alguém?

Sim, sinto. A mim mesma.

Você já falou sobre apagamento. O que dói mais: não ser convidada para determinados momentos ou sentir que estão reescrevendo uma história da qual você faz parte?

Eu fui excluída do inventário do meu pai. Ser excluída de uma festa, isso não é nada. Nesse quesito, já estão me oferecendo tratamento, psicólogos… Eu estou aceitando todos. Porque a palavra de Deus diz assim: “Na multidão de conselhos encontrará sabedoria”. Então, Mulher Abacaxi, Mulher Pera, quem quiser, pode atacar, pode oferecer ajuda, que eu vou continuar sendo Mara Maravilha.

Quando Xuxa, Angélica e Eliana aparecem juntas como representantes de uma geração de apresentadoras infantis, qual sentimento isso provoca em você?

Hoje a Angélica não faz mais parte da TV Globo, não é mais funcionária da emissora. Mas isso não desvalida a história dela. E a Eliana, em especial a Eliana… Rapaz, a Eliana é minha vizinha aqui! Quando você vê uma pessoa vivendo algo que, no seu pessoal, você viveu, aí Deus fala: “Epa”. Eu vi a Eliana empurrando a cadeira de rodas do pai dela, coisa que eu fiz muito com a minha saudosa mãe.

A Eliana teve uma ética de falar para mim: “Mara, eu já provei que te amo”. Ela não precisa fazer nada de favores. E ela sempre me respeitou.

Agora, as Marias aí com as outras, é outra coisa. E exatamente sobre não estar dentro desse contexto de loiras, eu acho que não é algo inerente só a atingir a artista Mara Maravilha. Acho que é algo que atinge uma nação cuja etnia, na sua maioria, é morena. É sobre o contexto geral. A minha ausência faz muito sucesso. Ponto.

Você chegou, certa vez, a relacionar essa exclusão ao fato de ser nordestina, morena e ter uma origem diferente das demais. Você continua acreditando nisso?

Quando é preconceito, é contra negro, é contra gay, é contra nordestino, é contra humilde. Porque pobre, para mim, é satanás. Não existe pobre, existe gente humilde. Existe preconceito, o pré-conceito. Então, eu não sou a primeira nem a última que vive preconceitos. Mas, do mesmo jeito que cometeram um crime comigo, vazaram os meus dados pessoais, e a polícia está rastreando, está chegando à fonte. Quem pensa que tem acobertamento está enganado.

Eu vivi realmente toda essa situação. Mas eu quero que, nessa exclusiva que estou dando para você, Andrei, você procure a arte, a minha arte. Procure a minha gravação de “Jesus Cristo”, que foi uma obra de arte, que é do Roberto Carlos. Não é fácil gravar. Aí a dona Maria usa a amiguinha dela, a dona Luiza [se referindo a Luiza Brunet], que não tem nada a ver. E aí ela usa o levante de fã-clube e se cria uma guerra. É sobre essa guerra que eu quero te falar, quando falei de Davi. É uma proporção de guerra no mundo da arte.

Como assim?

Amiga é aquela que fala a verdade, não o que a gente quer ouvir. Eu não estou aqui para graça com a Maria das Graças (Xuxa). Ela tinha uma amizade comigo. Ela era minha amiga. Eu não me considero inimiga dela. Mas ela pode fazer uma leitura que ganhou uma inimiga. Ela faz uma leitura que ganhou uma inimiga.

E aquele vídeo em que você falou sobre o gogó da Xuxa?
Quando eu falo que tenho gogó, de eu gostar, de eu amar, de um dom que Deus me deu com a música, existem declarações de muitos profissionais, como Sullivan, como Saccomani, como jornalistas que têm colunas específicas de música, que sempre falaram: “É a única que canta, é a única que realmente tem”. E eu sempre vivi a cantora-apresentadora.

Pegar eu falando das minhas qualidades é um tanto quanto… Eu não sei a palavra. Mas, quando você pega a opinião de formadores, profissionais da música, é outra coisa. Até a própria Xuxa, quando a gente viveu uma relação de amizade, falava: “Olha, ‘Não Faz Mal, Eu Tô Carente, Mas Eu Tô Legal’. Eu escuto essa música no meu fone”. Então, eu acho que tem que respeitar. Respeitar.

Mara, você e Angélica viveram uma concorrência muito forte naquela época. Aquela rivalidade era apenas profissional ou já existia alguma questão pessoal?

Acho que na cabeça da Angélica. Eu acho, tá? Na época, ela era muito apaixonada pelo Maurício Mattar. Coincidentemente, nós dois fizemos um trabalho para uma fotonovela, e era o auge do amor deles. Eu fui e fiz com uma imposição só: eu não vou beijar, não vai ter beijo. Só que a capa foi algo muito próximo. E ali eu acho que veio algo muito do coração. Quem já foi apaixonado sabe como entram esses sentimentos. Eu nunca tive nada com o Mattar. Nunca. Nem no próprio trabalho eu aceitei beijar. E ele também, muito respeitoso, fez todo o trabalho comigo. E eu não sei se talvez tenha sido por isso que depois veio a calúnia de que eu tinha feito uma macumba.

Aí eu processei, não a ela, processei alguns órgãos e ganhei. Ganhei todas as ações.

Ganhou o quê? Dinheiro?

Muito dinheiro. Muito dinheiro. Foi uma época até em que a imprensa também não aceitava, porque, queira ou não, jornalista também é corporativista, igual advogado. Os grupos são unidos, e eu acho que tem que ser assim. E aí veio um distanciamento da imprensa comigo. Tudo bem. Mas eu ganhei. Sobre a macumba, todos os órgãos que eu processei, eu ganhei. Pode levantar. Teve órgãos grandes.

Mas, tête-à-tête com ela, tirando essas coisas, fui ao programa dela, ela ia ao meu programa. Eu tenho foto segurando a capa do LP dela. Eu tenho história.

Mas hoje você acha que conseguiria sentar com a Angélica tranquilamente e conversar sobre tudo aquilo?

Com certeza. Com ela, com quem quer que seja. É igual o Cabrini. Cabrini senta de frente com gente que matou muita gente. Eu vou conversar, é lógico. Eu fui ao programa da Angélica, o “Milk Shake”, e o cenário daquele dia era o inferno. O tema daquele dia era todo voltado para o inferno. Se ela esqueceu, eu não esqueci.

O último encontro que tive com a Angélica foi no aeroporto, por acaso. Ela falou: “Oi, Mara, tudo bem? E sua mãe?”. Eu falei: “Está tudo bem”. Minha mãe era viva. Como se nada tivesse acontecido.

Se eu estivesse sentada com ela, eu ia olhar para frente, ver o que ela é hoje e o que eu sou também. Eu não era mole, não. Eu era aquela que gravava clipe com índio, pelada. Não tinha coerência gravar clipe com índio de smoking e gravata, né? Eu era aquela que namorava os Menudos e os Dominós. Eu era a doidinha do rolê. Essas eram as leituras.

Mas hoje eu vejo que ela constituiu uma família muito bonita, que ela tem muito talento, que eu acho que ela tem o espaço dela, que não é só o marido dela. Eu vejo que ela é muito bonita, que ela tem talento. Eu não digo para cantar, mas para apresentar e para ser atriz. Essa é a minha opinião.

Angélica, aliás, depois de alguns ocorridos, não fugiu de embate comigo. Em uma situação que aconteceu, ela entrou numa live do Instagram e respondeu. Diferente da dona Maria, que é uma covarde, que fica usando os outros para fazer discurso.

Agora eu quero falar da Xuxa. Vocês já tiveram proximidade, carinho uma pela outra. Em que momento essa relação se perdeu, Mara?

Depois que ela saiu da Record. Até a Record, estava tudo bem. Teve o programa de estreia. Quando eu saí de “A Fazenda”, fiquei muito feliz quando ela foi para a Record e por ela ficar próxima de pessoas que eu conheço muito bem, ali da igreja, dos bispos, dos pastores. Tenho muitos amigos também do grupo da Record, da Universal.

Mara, existe alguma mágoa concreta com a Xuxa que o público não conhece?

Não. Mágoa, não. A palavra seria indignação. Eu fico indignada, não magoada. Porque, antes de sermos artistas, somos seres humanos que estamos em um plano finito chamado vida. Porém, eu creio que o plano é infinito. Então, a nave dela, não sei se ela sabe para onde vai, mas eu sei para onde estou indo. É sobre isso.

Mas o que aconteceu para gerar essa indignação?

Porque, quando ela fala: “Ela só quer se aparecer”. Eu só quero aparecer? Eu sou Mara Maravilha. Me respeita. Eu não fui à ginecologista em função de o figurinista dela ter errado no figurino. A equipe errou, claro, no tal do figurino. Depois eu já tinha marcado a minha ginecologista, porque a minha vida não gira em torno de ninguém, muito menos de uma nave.

Eu já tinha marcado a minha ginecologista e estava no hype, todo mundo falando da xa*a, da xere*a, da xoxo*a, dos nomes que o povo fala na internet. É tudo com X. Então eu que sou a doida?

Não fui eu que comecei a falar que o figurino estava errado, que o capuz dela era grande, que parecia o Fusca Preto. Um monte de gente falou, a internet toda falou. Depois coincidiu de eu já ter a minha ginecologista marcada e eu fiz aquilo com a minha ginecologista.

Aí a conta veio só para mim, como se eu tivesse marcado a minha ginecologista pautada no erro do figurino dela. Ah, me poupe!

Mara, você se sente diminuída quando colocam Xuxa numa posição histórica acima das outras apresentadoras daquela geração?

Não. Sabe quando o Silvio falava que a Globo era um muro imbatível, mas que ele ia continuar sempre? Como a história de uma apagar a outra? Eu sou Mara Maravilha. Onde é a minha dimensão? Não me sinto diminuída, não.

Eu gosto do meu cotidiano, da minha rotina. Eu moro na artéria do coração de Alphaville. A minha cobertura é minha, eu não devo para ninguém. Tem quase 400 metros quadrados construídos. Daqui eu vejo toda essa Hollywood chamada Alphaville. E você acha que a minha vida vai girar em torno de quê? De pagar minhas contas, meu amor. Eu pago minhas contas. Não fico olhando para o jardim do outro.

Mas eu sou Mara Maravilha. Aqui na minha rua acontece uma feira todo sábado. Vem todo mundo, artistas, o povo de Alphaville, dono de banco. Eu vou sem maquiagem, assim como estou de óculos falando com você. Aí o povo fala: “Você é Mara Maravilha? Não acredito”. Às vezes eu falo: “Não sou, não. Imagina”. Estou toda desarrumada, toda desmontada. Mas, mesmo se eu falar que não sou Mara Maravilha, eu sou Mara Maravilha. Eternamente. Igual ela vai ser a Xuxa. Sempre.

Ela afirmou recentemente que você precisa diminuí-la para aparecer.

Em nenhum momento. Eu não. Ela falou que eu só quero me aparecer. Eu não quero me aparecer. Eu me revoltei, eu tive uma revolta, uma indignação. Você perguntou se eu tenho mágoa. Eu falei: “Não, eu tenho indignação”. Fico indignada. Como pode uma pessoa que me mandava um monte de presentes, mandava roupa, que quebrava o protocolo de levar uma artista de outra emissora ao programa dela? Como pode? Ela mandava as Paquitas e os Paquitos ao meu programa. Eu frequentava a casa dela. Ela fazia eu passar mamão no rosto com mel, as duas na sauna.

E agora esquecer que, além de ser Mara Maravilha, eu sou um ser humano? Ela pode pensar que é Deus, mas ela não é. Tem gente que pensa, tem gente que tem certeza. Ela não é Deus. É sobre isso.

Se a Xuxa ligasse para você e dissesse: 'Mara, vamos resolver isso', você aceitaria conversar?
Ela não ligou para a irmã dela, que morreu de mal com ela. Vai ligar para mim?

Mas, hipoteticamente, se ligasse e falasse: “Mara, vamos conversar, vamos resolver isso”?

Eu falaria: só pessoalmente, sem câmeras. De mulher para mulher, nós duas.

Mas você gostaria de fazer as pazes com ela?
Eu gostaria de fazer as pazes com todo mundo. Mas, se é para ser guerra, é guerra. E não tem problema.

Eu lembro muito do seu sucesso nos anos 80. Você, Xuxa, Angélica… Como você enxerga hoje o tamanho daquela trajetória?

Eu tenho no meu currículo muitas vezes em que consegui o impossível, que era ganhar da Globo. Isso é fato. Teve uma época em que o SBT fez uma campanha assim: “Ela sim é o Colosso”. Lembra do “TV Colosso”? Então, eu tenho isso no meu currículo como apresentadora.

Hoje estou na Rede Gospel de Comunicação, que é uma emissora com um sinal muito potente. Tem TV aberta, está na Oi, na NET, na Claro, na Sky. São 50 mil telespectadores diários, um público de sofá fidelizado. Porque hoje a internet é a televisão do celular, mas aquele público fiel do sofá está nas programações segmentadas, nas TVs religiosas, nas TVs do agro. O público fiel de TV está na programação segmentada.

E hoje eu estou muito abençoada de estar na Rede Gospel de Comunicação, me comunicando, levando conteúdo, falando com médicos, falando com advogados, abordando pautas para as quais eu tive que me reinventar, tive que procurar aprender, porque não era aquilo que eu sabia fazer. Eu sei lidar com câmeras, mas abordo temas que nunca imaginei estar abordando, falando com pessoas do mundo inteiro por meio da internet.

Todo o meu programa eu levo para o meu canal no YouTube, Mara Maravilha Oficial. Então, eu não estou parada. Água parada dá dengue.

Estou com a minha obra fonográfica toda nas melhores plataformas digitais. Estou na comunicação, no Facebook, TikTok, Kwai, Instagram…

E além disso? Ao que você tem se dedicado?

Eu sou corretora e sou detentora do único reality show patenteado para o mercado imobiliário e para o mercado da construção civil. Trabalho nisso há mais de oito anos, esse registro já é meu. Então, eu tenho a minha arte com a música, a minha arte com a comunicação e tenho agora a minha arte de entretenimento inserida no mercado imobiliário e da construção civil.

E, quando digo que sou detentora, vou te dar um exemplo. O meu jurídico está conversando com a Band, porque anunciaram um reality com um formato que é meu. É como o Silvio Santos. Quando ele lançou a “Casa dos Artistas”, não pôde dar continuidade porque existia a questão do formato do “Big Brother Brasil”. Hoje, o formato de reality show para o mercado imobiliário e da construção civil é meu. Então, o meu jurídico está conversando amigavelmente com a Band.

A minha vida não gira em torno de tudo isso. Eu tenho um filho de sete anos. Eu fui adotada e adotei o meu filho que Deus me deu. Então, estou te dando um spoiler de que tudo isso já está sendo preparado no documentário.
Já tem data? Quem está produzindo?

Não tenho data ainda e não posso falar quem está produzindo. Só posso dizer que tem muita coisa que aconteceu e que a vida não está acontecendo só nisso. Tenho uma série de anunciantes, desde a área de saúde até produtos voltados para os cuidados das mulheres de 60 anos, menopausa, TPM. Tenho produtos dos quais sou garota-propaganda. Recentemente fui convidada para conhecer um empreendimento ligado ao Senna, ao Ayrton Senna do Brasil.

Existe ainda algum carinho no seu coração pela Xuxa ou não?

Existe carinho, existe amor. Mas Deus é amor e também é justiça.

E sobre a Luiza Brunet?

Eu sinto muito pelo que ela sofreu. Ela foi a primeira que entrou nessa guerra falando sobre a minha pessoa. Ela teve uma ação, e o que veio depois da minha parte foi reação.

Você pediu desculpas a ela?

Não. Eu me retratei. Eu sempre tive uma admiração por ela, uma mulher belíssima, que representa a beleza brasileira, assim como eu, morena. Mas ela começou. Ela me desrespeitou. Eu tinha uma admiração por ela e, de repente, ela veio me responder. Então, quem foi primeiro nessa história? Foi ela. Eu tinha falado alguma coisa dela? Não. Eu fiz uma brincadeira com a minha ginecologista. Primeiro, todo mundo estava falando. Depois veio uma, depois veio outra, depois veio a dona Luiza. E a dona Luiza, por quem eu tinha uma admiração, veio responder.

Eu não sabia, naquele momento, de fato, tudo o que ela tinha sofrido. Quando a minha assessoria veio e me explicou, eu fui ver. E realmente aconteceu. Eu vi as fotos e me coloquei, como mulher, no lugar dela.

Nunca apoiei nenhum tipo de agressão contra mulher. Não é porque ela é famosa. Muitas mulheres que não são famosas também têm o respaldo da lei. Eu sinto como mulher. Sinto mesmo. Espero, de verdade, que a Justiça seja feita em relação ao que ela reivindica.

Mara, você tem pretensões políticas?
Não. Eu não sou filiada a nenhum partido. Não sou Lula nem Bolsonaro. Já fui convidada para me candidatar ao Senado. Ouvi as autoridades e falei: não. Tenho a minha voz livre.

O que você ainda gostaria que o Brasil entendesse sobre Mara Maravilha antes de decidir quem Mara Maravilha é?

Estou viva. Literalmente. Ponto. O tempo dirá. O tempo é o melhor contador de histórias.

Mara, você está sendo processada por questões dessas últimas polêmicas?

Não. Eu não. Eu estou tomando as medidas jurídicas que eu preciso tomar. Eu estou processando. A minha assessoria jurídica está distribuindo as ações. Meu nome é limpo, meu CNPJ é limpo, não devo impostos. Eu não recebi processo, notificação ou comunicado extrajudicial. O que eu recebi foram haters, meu telefone vazado e ameaças. Falaram até do meu filho. Coisas muito baixas e absurdas.

Se eu não tivesse o Deus que eu tenho, se Deus não estivesse comigo, uma pessoa mais fraca poderia até pensar em tirar a própria vida, como infelizmente acontece na internet. Eu sou do tipo que não acredita que uma mentira contada várias vezes vire verdade. A verdade é a verdade.

Você se arrepende de alguma coisa?

Eu tenho algo na minha história de que não gosto, que é a “Playboy”. Mas é a minha história. Eu fiz uma “Playboy”. A Maria, a Xuxa, fez seis. E eu não aceito que venham diminuir a minha história dizendo que eu só quero aparecer. Eu tenho música gravada, tenho arte, tenho uma carreira potente. Fazer sucesso com uma banda já é difícil, imagina construir tudo isso ao longo de tantos anos.

Então, me respeita, dona Maria, porque eu também sou Maria brasileira. Eu sou mulher, eu sou mãe. Me respeita.

Vamos falar dos seus projetos?
Vamos. Eu sou superativa. Está em preparação um documentário. Não posso informar a data, não posso informar a empresa. O que eu posso dizer é que não vai contar só o glamour. Vai contar o todo. Hoje sou muito atuante nas redes sociais. Tenho empresas muito sérias que anunciam nas minhas redes, usando tanto a minha imagem quanto o público orgânico que eu atinjo.

Tenho o “Programa da Maravilha”, que está no ar há mais de dois anos, de segunda a sexta-feira, às 16h, na Rede Gospel. O conteúdo também vai para o meu canal oficial no YouTube. É uma revista. Eu me inspiro muito na Ana Maria Braga, não na culinária, mas na comunicação direta como uma mulher adulta. E também aprendo muito com a própria Eliana, que sempre soube colocar beleza, histórias de famílias que precisam de ajuda e profissionais de várias áreas dentro de um mesmo programa.

Nesses dois anos, eu tive que me reinventar. Eu não parei. Tenho também o meu podcast.

E o seu lado mãe?

O meu Miguel Benjamin é o meu presente mais perfeito que Deus me concedeu. Eu sei o que é ser adotada e sei o que é adotar. Já estive nesses dois papéis e hoje sou mãe do coração. A minha maternidade tem me trazido muitos milagres. Eu vivo milagres todos os dias.

Eu não tenho uma turma que só me odeia. Eu tenho uma legião que me ama. Uma legião que me ama muito. Sou muito grata às pessoas que eu nem conheço, que estão distantes e mandam mensagens dizendo: “Não se abale, você é muito amada, você é de luz”.

Recebo mensagens bíblicas, filosóficas, mensagens de colegas artistas que falam: “Mara, estou contigo, você sabe que eu te amo, você sabe que eu te respeito”. Eu não costumo usar ninguém de escudo. O melhor da vida não são coisas, são pessoas. E a essas pessoas eu quero deixar a minha gratidão. E quero dizer para a torcida do contra: ser odiado por idiotas é o preço que se paga por não ser um deles.

Mara, muito obrigado por essa entrevista. Foi um prazer conversar com você.

O prazer foi todo meu, Andrei. Estou muito agradecida. E, antes de terminar, gostaria de dizer uma coisa: eu nunca recebi nenhum centavo da Lei Rouanet. Porque tenho um pensamento: a Lei Rouanet foi feita para beneficiar artistas das periferias, dos lugares menos favorecidos financeiramente.

Eu, como artista, nunca usufruí dessa lei, nunca usufruí desse recurso. E digo que ela deve beneficiar os milhões de artistas que o Brasil tem nas periferias e nos lugares menos favorecidos economicamente. São esses artistas que precisam desse recurso.