Maior derrota de Infantino na Fifa abre dúvidas sobre o futuro: 'Apoio pode ter ido pelos ares'

A retirada do plano de abrir a Copa do Mundo e outros ativos ao capital privado representou mais do que uma derrota administrativa para o presidente da Fifa, Gianni Infantino. A desistência motivou críticas até de aliados e transformou uma reeleição que parecia encaminhada no ano que vem em um cenário incertezas. A crise corroeu sua imagem e capital político e mexe com seus planos para o futuro.

Essa foi a primeira grande derrota de Infantino desde que assumiu o comando da entidade, em 2016. A resistência ao projeto extrapolou a oposição tradicional da Uefa. Dirigentes próximos ao presidente, integrantes da própria estrutura da Fifa e confederações questionaram a proposta.

As críticas influenciaram os planos de Infantino para o futuro:

COMISSÃO OU CEO NA NOVA EMPRESA

Existiam especulações nos bastidores de que a criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa que concentraria os direitos comerciais da entidade, poderia ser uma transição para que Infantino se tornasse comissário ou CEO da nova estrutura.

Isso faria com que mantivesse a influência sobre a exploração comercial das competições mesmo depois de deixar a presidência. Com a retirada definitiva da proposta, essa possibilidade perdeu força antes mesmo de sair do papel.

SECRETÁRIO-GERAL DA ONU

Nos últimos meses, surgiram rumores de que Infantino poderia buscar uma posição em organismos internacionais, como secretário-geral da ONU, possibilidade sugerida pelo presidente dos EUA, Donald Trump. A proximidade com chefes de Estado e a atuação política durante as últimas Copas alimentaram essas especulações, embora nunca tenha havido qualquer confirmação oficial de uma candidatura.

"Não me surpreendeu a notícia a respeito de um eventual interesse dele na secretaria geral das Nações Unidas. As articulações políticas que manteve nos Estados Unidos nos últimos anos indicavam que algum outro interesse fora do mundo do futebol poderia estar sendo considerado", afirma advogado Eduardo Carlezzo, especialista em Direito Desportivo Internacional.

REELEIÇÃO COMO PRESIDENTE DA FIFA

Até a última semana, o terceiro cenário, o mais provável, era o de uma nova eleição sem sobressaltos. Depois de ampliar a Copa do Mundo para 48 seleções, aumentar as receitas da Fifa e consolidar uma ampla base de apoio entre as federações nacionais, o suíço caminhava para disputar um quarto e último mandato, válido até 2031, praticamente sem oposição.

As críticas ao projeto FFE é um divisor de águas na avaliação do advogado especialista em Direito Desportivo Andrei Kampff. "A contestação deixou de vir apenas de adversários externos e passou a alcançar federações, confederações e aliados próximos. Isso afeta não apenas o projeto, mas a própria forma como sua liderança é percebida."

O diagnóstico é semelhante ao de Carlezzo. "Tal apoio pode ter ido pelos ares e a Uefa levará adiante um plano para substituição do Infantino, seja agora, seja criando um oponente forte na eleição do ano que vem."

CRÍTICAS IMEDIATAS

A reação da Uefa foi mesmo imediata. Poucas horas depois de o presidente anunciar o abandono definitivo do projeto, a entidade que administra o futebol europeu colocou em dúvida a condução política da organização.

"Não podemos continuar assim com planos secretos em prazos acelerados, elaborados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o jogo. Devemos identificar os responsáveis e responsabilizá-los", afirmou a entidade.

Kampff também entende que, mesmo que Infantino sobreviva politicamente, dificilmente conseguirá sair ileso. "Infantino retirou o projeto, mas o desgaste permanece, porque a crise revelou problemas na forma de decidir, consultar e exercer o poder dentro da Fifa".

AUMENTA A PRESSÃO POR MUDANÇA

O endurecimento do discurso da entidade europeia coincidiu com informações do jornal britânico The Telegraph no sábado. Segundo a reportagem, dirigentes europeus discutem um movimento para forçar a saída de Infantino da presidência, caso ele decida permanecer no cargo.

De acordo com o periódico, as 55 federações filiadas à Uefa estariam dispostas a apoiar um processo de destituição. Para que a votação seja convocada, seriam necessários os votos favoráveis de 43 associações nacionais.

Ainda não existe qualquer procedimento formal aberto, mas a discussão da hipótese já representa uma mudança de cenário. O Estadão apurou que não existe uma espécie de moção de censura no estatuto da Fifa.

Até hoje, a oposição europeia costumava esbarrar na ampla base política construída por Infantino entre federações da Ásia, África, Concacaf e Oceania.

ISOLAMENTO POLÍTICO E ECOS DE 2021

A crise começou com a proposta da Fifa de criar a Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa que administraria os direitos comerciais das principais competições da entidade, incluindo a Copa do Mundo.

O plano previa a entrada de investidores privados em troca de uma injeção bilionária de recursos para financiar projetos da própria FIFA e ampliar os repasses às federações.

A iniciativa encontrou forte resistência. A Uefa acusou a Fifa de tentar "vender a alma do futebol" e aprovou a possibilidade de boicotar competições caso a proposta avançasse. Depois vieram a Concacaf e a Confederação Asiática de Futebol (AFC), que também manifestaram oposição ao plano.

Sem o apoio dessas três confederações, Infantino deixou de reunir a maioria política necessária entre as 211 associações filiadas à Fifa para levar adiante a iniciativa.

Para Eduardo Carlezzo, a rapidez com que o projeto desmoronou lembra outro episódio recente do futebol internacional: o anúncio da criação da Superliga pelos maiores clubes da Europa em 2021.

Segundo ele, a dinâmica política foi semelhante. "No caso da Superliga, a UEFA, ligas nacionais e dezenas de clubes europeus condenaram fortemente o projeto, o qual acabou sendo derrubado em apenas 48 horas. Foi um fiasco retumbante".