Bia Haddad Maia ainda não sabe quando voltará ao circuito profissional de tênis. Aos 30 anos, a brasileira vive um período de pausa para cuidar da saúde física e mental, fará uma cirurgia no ombro esquerdo, com previsão de quatro meses de recuperação, e aproveitará parte do afastamento para cursar Sports Management em Harvard entre setembro e dezembro. Mais do que se recuperar de uma lesão, porém, Bia usa o momento para repensar a própria relação com o esporte e o futuro da carreira.
"Entendi que não era eu a mudar. Talvez carregar muita coisa no tênis durante muito tempo. Foi uma soma de fatores", afirmou.
Bia contou que ainda tenta compreender o peso das experiências acumuladas ao longo da trajetória profissional. Segundo ela, muitas das dificuldades enfrentadas não foram percebidas por quem acompanhava sua carreira de fora.
"Eu pensei e ainda penso que eu aguentei coisas que as pessoas não têm ideia. É difícil ter a dimensão do que eu realmente passei. Eu ainda estou no momento em que paro e fico conflitando muito isso na minha cabeça."
A dúvida ganha ainda mais força porque Bia sabe que já conseguiu competir e vencer algumas das melhores jogadoras do mundo. Ela derrotou Elena Rybakina duas vezes e também já superou Iga Swiatek e Madison Keys.
"É muito duro. Eu vejo a Rybakina, número 1 do mundo, e já venci ela duas vezes. A Keys eu já venci, a Iga É muito duro você saber que pode e, naquele momento, não está sendo possível."
UM SONHO DIFERENTE
Apesar das incertezas, Bia não fala em abandonar o tênis. Pelo contrário. A relação afetiva com o esporte permanece, mas ela admite que talvez precise encontrar uma maneira diferente de continuar perseguindo seus objetivos.
"A minha relação com o tênis não é como ir atrás do circuito. Na minha cabeça, é como se eu estivesse buscando meu sonho de uma forma diferente. Eu estava entrando num buraco que eu não sei como ia sair."
A brasileira diz que não conseguiria simplesmente deixar de acompanhar o esporte que escolheu ainda na infância.
"Eu só não aceitaria nunca mais ver um jogo de tênis. Isso, para mim, é inadmissível. Porque o tênis é o esporte que eu escolhi, porque eu amo."
Ao longo da carreira, Bia passou por diferentes obstáculos. Lembrou da cirurgia na coluna aos 16 anos, da suspensão que sofreu e de um episódio em que um vidro explodiu.
"Eu podia ter parado na primeira pedra no caminho, com cirurgia na coluna, aos 16. Podia ter parado quando fui suspensa por doping mil vezes."
Agora, porém, ela identifica a saúde mental como um desafio diferente. A comparação feita pela tenista é com uma lesão física: existe, interfere no desempenho, mas não pode ser vista.
"Agora, para mim, é muito duro, porque a parte mental é como se fosse uma lesão, mas é invisível. De fato, eu estou aprendendo muito nesse momento e, para mim, agora, esse pensamento é: Quando voltar?"
CIRURGIA NO OMBRO
A questão física também terá papel importante nos próximos meses. Bia passará por uma cirurgia no ombro esquerdo, problema que, segundo ela, já vinha causando dores há mais de dois anos.
"Faz mais de dois anos que, toda vez que eu estou voleando, que eu vou smashar, tenho uma dor no ombro. Nunca quis que isso fosse uma desculpa para o jogo. Teve jogos em que eu via estrelas."
A previsão é de aproximadamente quatro meses de recuperação. O procedimento, portanto, deve prolongar o período em que a brasileira ficará distante das competições.
A pausa, no entanto, também terá um componente acadêmico. Bia fará um curso de Sports Management em Harvard, em uma experiência que se encaixa no momento de reflexão sobre sua vida profissional e sobre os caminhos que poderá seguir no futuro.
'O CIRCUITO É INSANO'
Bia também fez críticas à estrutura do tênis profissional e à pressão permanente em torno dos resultados. "O circuito é insano, o ranking é insalubre."
Para a brasileira, a rotina do circuito e a necessidade constante de defender posições no ranking podem contribuir para um ambiente difícil de sustentar durante tantos anos.
O afastamento também mudou sua percepção sobre as relações construídas ao longo da carreira. Longe da rotina de competições, ela passou a identificar com mais clareza quem realmente permanece ao seu lado.
"Ainda foi pouco tempo, mas o que mais estou aprendendo agora é que o que realmente importa e é mais valioso são as pessoas que a gente ama e o cuidado que você tem com elas."
"Você começa a ver que as pessoas que mandavam mensagem antes do jogo desaparecem, gente que chega em você por interesse. Você realmente vê os parceiros que estão do seu lado."
SAÚDE MENTAL
Bia afirmou que faz terapia com psicoterapeuta e mantém acompanhamento mental há anos. Para ela, o cuidado com a saúde psicológica deveria ser encarado com a mesma naturalidade em qualquer profissão.
"Eu faço terapia, com psicoterapeuta. Acompanhamento mental eu faço há muitos anos. Indico para todas as pessoas, em todas as profissões."
A tenista também diz estar aproveitando o período para desacelerar e recuperar uma conexão consigo mesma que havia perdido em meio à rotina profissional.
"Saber cuidar do tempo e administrar o tempo é muito importante. Eu já fui mais ansiosa. Essas atividades me fazem refletir, olhar para dentro. Fui perdendo um pouco essa conexão comigo. Vejo o quanto isso é importante também."
Bia ressalta que há outros episódios pessoais que prefere manter em privado. "Eu sempre me reservei muito. Tem outras coisas da vida que eu passei e prefiro não abrir. Cada um tem suas pedras no caminho."
Entre a cirurgia, a recuperação, os estudos em Harvard e o processo de cuidar da saúde mental, Bia Haddad entra em uma fase inédita da carreira. O retorno às quadras continua sem data certa. Antes de decidir quando voltar, a brasileira parece mais preocupada em descobrir de que maneira quer continuar vivendo o tênis.

