Gianni Infantino parece ter selado a paz com Uefa, Concacaf e AFC, que vinham marcando posição contrária à reeleição do presidente da Fifa. O dirigente prometeu acatar uma sugestão das três confederações e distribuir parte das reservas da entidade mundial.
Em carta endereçada aos presidentes das seis entidades continentais, à qual o Estadão teve acesso, Infantino foi direto ao recuperar uma frase dita por ele mesmo em 2016, quando tomou posse: "Dinheiro da Fifa é seu dinheiro. Dinheiro das associações-membro". "Os números e mecanismos agora propostos são novos. O princípio não é", completou.
O texto não indica quanto da reserva será utilizado. A Fifa prevê terminar o ciclo de 2023-26 com US$ 6 bilhões (R$ 30,9 bilhões). Um e-mail assinado por Aleksander Ceferin (Uefa) e Victor Montagliani (Concacaf) e posteriormente endossado por Salman bin Ibrahim Al Khalifa (AFC) sugeria US$ 10 milhões (R$ 51,5 milhões) para cada associação filiada à entidade.
A proposta foi enviada à Infantino há pouco mais de uma semana, como contraponto ao plano de venda de 20% das ações da subsidiária por quase R$ 20 bilhões. O argumento é de que isso não seria preciso, já que a reserva de US$ 6 bilhões seria "consideravelmente superior ao necessário para manter a Fifa durante os anos de déficit que se seguem a uma Copa do Mundo", segundo os três presidentes continentais, que escreveram nas condições de vices da Fifa.
Na réplica, Infantino coloca essa distribuição como uma ideia complementar à exploração comercial e ao investimento privado. A Fifa ainda pretende apresentar uma revisão do plano na reunião do Conselho, em 15 de outubro.
"A proposta comercial recente, que agora foi retirada, pretendia permitir que a Fifa investisse mais no futebol - não substituir o apoio que poderia ser fornecido de forma responsável a partir dos recursos existentes. Portanto, na verdade, teria sido uma adição", argumenta o presidente.
O secretário-geral da Fifa, Mattias Grafstrom, irá agora consolidar todas as propostas em uma avaliação integrada para consideração pelo Conselho no dia 15. Foi pedido que modelos financeiros, suposições e informações de apoio sejam encaminhados a Grafstrom. Infantino já havia demonstrado abertura a novas ideias em comunicado enviado às associações na última semana.
A partir desta análise unificada, o Conselho deve estabelecer o método para a distribuição desses repasses de reservas da Fifa. Serão considerados: o valor, o momento e o objetivo desses repasses; o nível de reserva que a entidade deve manter para garantir "força financeira e independência"; os critérios de elegibilidade, implementação, reporte e auditoria necessários para garantir benefícios sustentáveis e duradouros para o futebol.
"Eu não vou prejulgar o valor. Apoiarei o maior nível de financiamento adicional que possa ser entregue de forma responsável por meio do processo de governança adequado da Fifa, aplicado de maneira justa e apoiado por arranjos transparentes e auditáveis", garantiu Infantino.
No texto assinado por Ceferin e Montagliani, havia uma insinuação de que o recebimento de verba pelo programa Fifa Forward estaria relacionado a apoio político. "Liberar parte dessas reservas demonstraria que as associações não deveriam ter de escolher entre desenvolvimento e boa governança; entre investimento e integridade; ou entre apoio financeiro e a capacidade de considerar propostas pelos seus méritos", diziam.
Na resposta, Infantino apaziguou. "Confiança não é a ausência de desentendimento. Ela é demonstrada quando nos envolvemos diretamente, testamos propostas contra os fatos e respeitamos decisões devidamente alcançadas por meio dos processos democráticos e institucionais da Fifa - mesmo quando o resultado difere daquele que preferíamos", escreveu.
O Conselho da Fifa, que se reúne daqui a duas semanas, é composto por 37 integrantes, incluindo Infantino, oito vice-presidentes e 28 membros eleitos pelas associações.
Apesar de todo desgaste causado a partir da apresentação do plano para investimento privado, Infantino tem recuperado apoio e projeções já consideram que ele tem força para se reeleger. As candidaturas serão inscritas até 28 de novembro. O pleito será em 28 de março, em Rabat, no Marrocos.

