Transferban assombra clubes e exige profissionalização do futebol brasileiro

Transferban assombra clubes e exige profissionalização do futebol brasileiro
Transferban assombra clubes e exige profissionalização do futebol brasileiro -

Nos últimos anos, o transferban virou um fantasma recorrente no futebol brasileiro. Afinal, nos últimos meses clubes como Corinthians e Botafogo passaram a conviver com a proibição de registrar jogadores, situação que escancara um problema estrutural que vai muito além das quatro linhas. Esses episódios seguidos em um curto espaço de tempo expõem um problema mais amplo no futebol brasileiro: dificuldades na gestão de dívidas internacionais e no cumprimento de obrigações contratuais.

O transferban é uma sanção imposta, geralmente pela Fifa, que impede um clube de registrar novos atletas por um determinado período. O clube até pode negociar ou contratar jogadores, no entanto, fica impossibilitado de inscrevê-los oficialmente para disputar competições. A sanção, portanto, é consequência direta de falta de planejamento e desorganização financeira — problemas crônicos no futebol brasileiro.

Nos últimos meses, Corinthians e Botafogo foram os clubes brasileiros mais afetados com a sanção. Contudo, o problema não está apenas no tamanho das dívidas, mas na gestão. O Timão, por exemplo, sofreu o transferban por causa de uma dívida de aproximadamente R$ 40 milhões com o Santos Laguna, do México, pela contratação do zagueiro Félix Torres. Já o Glorioso, mesmo após a transformação em SAF, não cumpriu com pagamentos de reforços, como a contratação de Thiago Almada junto ao Atlanta United, dos Estados Unidos.

“Os modelos de administração de cada clube são diferentes, mas o buraco é parecido. Com a diferença de que o Botafogo já virou SAF justamente por ter dívidas impagáveis. O investidor do Botafogo, em quem o clube confiou toda a sua historia, está se mostrando no mínimo incapaz ou, na pior das hipóteses, malandro. Montou um time que não tinha condição financeira, deixou de pagar muitos credores e agora está liquidando o que pode para tentar se salvar”, disse o jornalista Eduardo Tironi, do UOL, ao Jogada10.

Quais são os impactos esportivos?

A punição afeta diretamente o rendimento em campo. Afinal, sem poder registrar reforços, o clube perde competitividade, sobrecarrega o elenco existente e vê seu planejamento de temporada ruir. Além disso, o desgaste fora das quatro linhas aumenta, a imagem do clube se deteriora e a relação com investidores fica mais frágil. Dessa forma, os problemas refletem dentro de campo e afetam o desempenho.

A solução é simples na teoria, mas difícil na prática. Afinal, é necessário pagar as dívidas ou chegar a acordos formais reconhecidos pela Fifa ou outra entidade responsável pela sanção. Na maioria dos casos, basta o clube quitar o valor pendente ou comprovar um parcelamento aceito pelo credor para que o transferban seja suspenso. É o que o Corinthians fez, por exemplo, no caso Raniele com Cuiabá.

Além de Corinthians e Botafogo, o São Paulo também sofreu com transferban em 2025. Em agosto, foi punido pela Fifa porque não pagou a segunda parcela da compra do volante Damián Bobadilla, negociado com o Cerro Porteño, do Paraguai. Depois, em dezembro, por causa de uma pendência com ex-representantes do atacante Jonathan Calleri. Ambas foram derrubadas após o pagamento.

No fim das contas, o transferban é mais do que apenas uma punição esportiva. É um alerta para o futebol brasileiro se profissionalizar e ter mais responsabilidade fiscal e contratos mais transparentes. Afinal, sem uma gestão profissional, a tendência é o ciclo se repetir: contrata-se mal, gasta-se mais do que se arrecada e a conta chega.

Fair play financeiro chega ao Brasil em 2026

O futebol brasileiro passará por uma série de novidades a partir de 2026. Além da mudança do calendário, com o Brasileirão tendo início em janeiro e término em dezembro, os clubes também terão que lidar com o fair play financeiro. Portanto, o transferban pode assombrar mais equipes. Contudo, a implementação do sistema busca garantir mais equilíbrio nas contas e evitar gastos acima do limite.

O objetivo do fair play financeiro, no entanto, é promover maior equilíbrio financeiro às equipes. E não puni-las. Dessa forma, o sistema vai se basear em quatro pilares com indicadores monitorados por um órgão, com estrutura semelhante à CNRD (Câmara Nacional de Resolução de Disputas). Assim, a implementação será feita de forma gradual, com a regra implementada integralmente em 2028.

A implementação do modelo de sustentabilidade financeira acontece de forma gradual. Portanto, a fiscalização começou a partir do início de 2026, com a regra implementada integralmente em 2028. Assim, pelas novas normas, os clubes terão que limitar gastos com salários e amortização de jogadores a no máximo 70% da receita. Além disso, o endividamento de curto prazo não poderá ultrapassar 45% da receita.

O impacto do fair play financeiro

Na mesma medida que o fair play financeiro chega para ajudar o futebol brasileiro a ter uma gestão profissional, pode gerar desigualdade no curto prazo. Afinal, times como Flamengo e Palmeiras, por exemplo, já operam próximos de um modelo de fair play: gastam muito, mas gastam dentro do que arrecadam. Portanto, para eles, a regra não muda a realidade.

“O fair play financeiro vai obrigar os clubes a equilibrarem suas finanças. Porém, o efeito colateral disso será a inviabilidade competitiva de vários grandes clubes do Brasil, para não dizer praticamente todos. Como venho falando há tempos, com o fair play financeiro em vigor, apenas dois clubes dominarão o cenário: Flamengo e Palmeiras, os mais sólidos hoje e que arrecadam muito dinheiro”, afirmou Tironi.

Por outro lado, os clubes endividados, como Corinthians, Santos e Vasco, correm risco. Afinal, eles vão ficar com menos margem para investir e não podem “apostar” em elencos caros. Entretanto, no médio e longo prazo, o fair play financeiro tende a beneficiar não apenas os clubes mais ricos, mas principalmente os mais organizados.

“O fair play provavelmente asfixiará praticamente todos os outros clubes, que se tornarão coadjuvantes, já que serão menos competitivos porque não poderão ter times forte e, consequentemente, ganharão menos premiações, como em um círculo vicioso. SAFs não resolverão esta questão pq os clubes empresa precisarão comprovar a capacidade de arrecadação da empresa e não do dono dela”, completou.

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