O Campeonato Carioca nunca mais será o mesmo

O Campeonato Carioca nunca mais será o mesmo
O Campeonato Carioca nunca mais será o mesmo -

O Campeonato Carioca insiste na imagem de torneio “mais charmoso do Brasil”, conceito que tornou-se obsoleto com o tempo. Preso aos tempos áureos de um futebol “raiz”, o Estadual do Rio de Janeiro é sinônimo de baixo nível técnico, jogos enfadonhos, desinteresse dos grandes nos primeiros jogos, estádios com gramados que parecem plantações de batata e risco de lesões para os atletas. O Botafogo é o clube que melhor entendeu este declínio, pois mudou a mentalidade para ser um forte postulante a outros títulos maiores. Tanto que, na festa de abertura, quem falou em nome do Glorioso foi o presidente do associativo. Decerto que, se o Mais Tradicional não fosse uma empresa e estivesse nas mãos das velhas raposas, o Carioquinha figuraria no calendário alvinegro com uma relevância maior.

Antes do cancelamento e das pedradas, é preciso olhar no retrovisor e reconhecer a importância histórica do Estadual. De fato, era um torneio que mexia com o cidadão fluminense, atiçava rivalidades e criava momentos memoráveis, como, por exemplo, a cavadinha de Loco Abreu para cima do goleiro Bruno, em 2010. Naquele dia, alvinegros e rubro-negros sentiram o clássico como uma final de Copa do Mundo, algo que nunca mais vai se repetir. A escorada de Maurício, em 1989, colocando fim a um jejum de 21 anos do Mais Tradicional, é outro momento grandioso daqueles tempos. Hoje, no entanto, um Botafogo e Flamengo, pelo Carioca, é esquecido horas depois do apito final.

O Carioca agonizou em praça pública até, enfim, chegar aos últimos suspiros, em abril de 2018. O gol do ciclópico Joel Carli, no minuto 93, contra o Vasco, no Maracanã, encerra, com chave de ouro, a passagem do “torneio charmoso” neste plano. O Estadual merece, desse modo, ver as memórias preservadas e o legado intacto. A criação de um museu seria uma iniciativa perfeita. A velha guarda reforçaria a boa nostalgia. E as novas gerações consumiriam este passado glorioso com muito mais interesse.

Carioca vira torneio amistoso de pré-temporada

A coluna, porém, não teme o politicamente correto, promete colocar os pingos nos “is” e celebra a postura de John Charles Textor em relação ao Estadual. Este é, aliás, um dos grandes acertos do big boss desde 2022. O Botafogo, em 2025, por exemplo, evitou quatro datas ao escapar do tricampeonato da Taça Rio. Ganhou, assim, um mês completo para treinar. Afinal, um amistoso contra o Novorizontino é mais útil para a preparação do que um jogo de semifinal de uma taça que não vale muito. Se o time não aproveitou o período ou o clube contratou errado, é uma outra história.

Atualmente, para não perder a generosidade, o Campeonato Carioca tem o mesmo valor de uma Florida Cup, um mero torneio de pré-temporada, com alguns clássicos e um pouco mais longo – para o desespero do bom apreciador do esporte bretão, ansioso por um entretenimento de melhor qualidade. Para piorar, em 2026, o Estadual aparecerá como um obstáculo para o Botafogo, time que será obrigado a dividir as atenções entre o Brasileirão e um duelo de uma logística complexa pela segunda fase da Copa Libertadores, na altitude de 4.090 metros acima do nível do mar de Potosí, na Bolívia.

Diante de um calendário nacional apertado e sufocante, a edição atual do Carioca apresentará pouquíssimo espaço para testes. Dois jogos para observar a garotada (Portuguesa da Ilha do Governador e Sampaio Corrêa) e a partida contra o Volta Redonda para o técnico Martín Anselmi começar a entender a condição do plantel principal. Mas o importante é que o Botafogo priorizará os torneios de acordo com sua grandeza, envergadura e ambição.

*Esta coluna não reflete, necessariamente, a opinião do Jogada10.

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