Faltando 100 dias para Copa do Mundo de 2026, tensão política e crises globais cercam o torneio

Faltando 100 dias para Copa do Mundo de 2026, tensão política e crises globais cercam o torneio
Faltando 100 dias para Copa do Mundo de 2026, tensão política e crises globais cercam o torneio -

Faltam 100 dias para a bola rolar na Copa do Mundo de 2026. A edição que marca o centenário do torneio será a maior da história, com 48 seleções e três países como sede: Estados Unidos, México e Canadá.

Ao mesmo tempo em que a Fifa celebra o novo formato e a ampliação do número de participantes, o cenário fora das quatro linhas impõe desafios. Tensões diplomáticas, políticas migratórias mais rígidas, conflitos armados e críticas à condução política da entidade máxima do futebol criaram um ambiente de instabilidade incomum às vésperas de um Mundial.

Uma Copa do Mundo ampliada e com estreantes

A Copa de 2026 entra para a história como a primeira com 48 seleções. A Fifa trata a expansão como um passo decisivo para democratizar o acesso ao maior palco do futebol. Na prática, o torneio abre espaço para estreantes como Curaçao, Jordânia, Uzbequistão e Cabo Verde, que disputarão o Mundial pela primeira vez.

Além dos três anfitriões, Canadá, Estados Unidos e México já carimbaram vaga seleções tradicionais e emergentes de todos os continentes.

América do Sul: Argentina, Brasil, Equador, Uruguai, Colômbia e Paraguai.
Europa: Inglaterra, França, Croácia, Portugal, Noruega, Holanda, Alemanha, Suíça, Áustria, Bélgica, Espanha e Escócia.
África: Marrocos, Tunísia, Egito, Argélia, Gana, Cabo Verde, África do Sul, Costa do Marfim e Senegal.
Ásia: Japão, Irã, Uzbequistão, Coreia do Sul, Jordânia, Austrália, Catar e Arábia Saudita.
Oceania: Nova Zelândia.
Concacaf (além dos anfitriões): Curaçao, Haiti e Panamá.

Ainda restam seis vagas em aberto. Na Europa, Itália, Irlanda do Norte, País de Gales, Bósnia, Ucrânia, Suécia, Polônia, Albânia, Turquia, Romênia, Eslováquia, Kosovo, Dinamarca, Macedônia do Norte, República Tcheca e Irlanda brigam por quatro destas vagas. Já na repescagem mundial, Nova Caledônia, Jamaica e República Democrática do Congo brigam por um lugar, enquanto Bolívia, Suriname e Iraque lutam pela classificação ao Mundial.

Vistos, restrições e orçamento bilionário

Como o torneio será disputado majoritariamente nos Estados Unidos, que receberão 11 das 16 cidades-sede, as regras migratórias americanas entram no centro do debate. Cidadãos de diversos países, incluindo o Brasil, precisam de visto para entrar no país. O processo pode levar meses.

O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que torcedores teriam prioridade na concessão dos documentos. Ainda assim, restrições seguem atingindo cidadãos de países como Costa do Marfim, Senegal, Haiti e Irã. A Casa Branca justifica as limitações com base em segurança nacional e política externa.

Há exceções para delegações oficiais. Porém, o debate sobre acessibilidade já ganhou força.

O endurecimento migratório também se reflete no orçamento do Immigration and Customs Enforcement (ICE). Segundo o American Immigration Council, os recursos podem alcançar US$ 29,9 bilhões anuais. Relatórios do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) indicam que o valor supera o orçamento militar de diversos países.

Com mais agentes e operações de fiscalização ampliadas, protestos surgiram em diferentes cidades americanas. Organizações de direitos civis relatam abordagens consideradas excessivas.

Conflito internacional e sombra sobre o torneio

A situação se agravou após ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. A escalada militar elevou a temperatura diplomática e lançou incertezas sobre o Mundial.

A seleção iraniana está classificada. No entanto, o presidente da federação local, Mehdi Taj, admitiu preocupação.

“É improvável que possamos olhar para a Copa do Mundo com esperança, mas são os dirigentes do esporte que devem decidir sobre isso”, disse o dirigente.

Nos últimos dias, ataques culminaram na morte do líder supremo Ali Khamenei, segundo a imprensa iraniana, e deixaram mais de 500 mortos. Donald Trump declarou que as operações militares não devem ultrapassar quatro semanas. Diante do cenário, a Fifa convocou reuniões internas e informou que acompanha os desdobramentos junto aos países-sede.

Guerra tarifária e neutralidade contestada

Enquanto isso, os Estados Unidos ampliaram tensões comerciais. O governo Trump lançou uma ofensiva tarifária contra diversos parceiros, incluindo Canadá e México.

O presidente americano chegou a afirmar que o Canadá deveria se tornar o 51º estado norte-americano e ameaçou intervenção militar caso o México não endurecesse o combate ao narcotráfico. Oficialmente, a Fifa sustenta uma política de neutralidade. O estatuto da entidade prega a separação entre futebol e conflitos geopolíticos. Na prática, porém, a postura é alvo de questionamentos.

O presidente da entidade, Gianni Infantino, decidiu criar o Prêmio da Paz e entregá-lo a Donald Trump durante o sorteio da Copa, em Washington. O gesto dividiu opiniões e reacendeu críticas sobre o alinhamento político da organização.

Ingressos disputados e preços nas alturas para a Copa do Mundo

Se fora de campo há turbulência, dentro dele a procura não diminui. A Fifa informou ter recebido mais de 500 milhões de pedidos de ingressos. Ao todo, entre seis e sete milhões de entradas estarão disponíveis.

“Teremos sete milhões de pessoas nos estádios. Tivemos demanda por mais de 500 milhões de ingressos, sendo que temos apenas seis a sete milhões disponíveis para venda”, disse Gianni Infantino em vídeo alusivo aos 100 dias para o início do torneio.

A alta demanda, no entanto, vem acompanhada de preços elevados. Algumas entradas chegam a US$ 8.680. A organização Football Supporters Europe (FSE) afirma que os valores são quase cinco vezes superiores aos praticados na Copa do Catar, em 2022.

Em resposta às críticas, a Fifa lançou uma categoria popular de US$ 60. Ainda assim, o mercado de revenda, legal nos Estados Unidos e no Canadá, pressiona os valores para cima.

Além disso, a geografia amplia os custos. O torneio será disputado em 16 cidades espalhadas por três países. Para o torcedor que deseja acompanhar sua seleção, deslocamentos longos e hospedagens elevam a conta final.

México enfrenta onda de violência

O México também convive com tensão interna. No fim de fevereiro, uma operação conjunta resultou na morte do narcotraficante conhecido como “El Mencho”. A reação do crime organizado foi imediata. Carros incendiados, bloqueios de rodovias e tiroteios foram registrados, inclusive no aeroporto de Guadalajara.

O país receberá jogos na Cidade do México, Guadalajara e Monterrey. A abertura do Mundial está marcada para 11 de junho, na capital mexicana.

Alvo do centro da tensão, Guadalajará sediará quatro partidas: Coreia do Sul x adversário a definir; México x Coreia do Sul; Colômbia x adversário a definir; e Espanha x Uruguai.

A Fifa afirma que a segurança é responsabilidade dos governos locais. O governo mexicano declarou que trabalha para garantir normalidade durante o torneio. Ainda assim, a apreensão permanece, inclusive para os playoffs que definirão as últimas vagas.

E o Brasil?

Se o cenário global preocupa, dentro de campo a Seleção Brasileira também vive indefinições. Aliás, a principal delas envolve Neymar. Afinal, o atacante ainda não tem presença assegurada na lista final. Camisa 10 e maior artilheiro da história da Canarinho, o atacante ainda busca retomar a forma física ideal, mas sem a convicção que vai disputar o próximo Mundial.

Em contrapartida, o técnico Carlo Ancelotti afirma que está próximo de fechar o grupo, mas mantém disputas abertas em todos os setores. Há nomes consolidados, como Alisson, Marquinhos, Bruno Guimarães, Casemiro, Raphinha e Vini Jr. Eles só ficariam fora em caso de lesão ou imprevisto.

No próximo dia 16, Ancelotti convocará 26 jogadores para amistosos contra França e Croácia, nos dias 26 e 31, nos Estados Unidos. Os testes devem indicar o rumo definitivo da lista para o Mundial.

Uma Copa do Mundo sob pressão

A Copa de 2026 promete ser histórica dentro de campo. Fora dele, entretanto, enfrenta um contexto desafiador. A ampliação do torneio simboliza inclusão. Por outro lado, conflitos armados, políticas migratórias rígidas e instabilidade regional expõem as contradições de um evento global em tempos de tensão.

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