Não adiantou secar! Agora tem que aturar! A Argentina chegou à final desta edição da Copa do Mundo ao derrotar a Inglaterra, de virada, por 2 a 1, nesta quarta-feira (15), em Atlanta (EUA), com requintes de crueldade para os britânicos. A Albiceleste enfrenta a Espanha no próximo domingo (19), no MetLife, em Nova Jersey, na busca pelo tetracampeonato, com a chance de encostar no Brasil, única seleção que ainda ostenta cinco estrelas no peito.
A classificação dos nossos vizinhos não caiu do céu ou foi obra do acaso. O Jogada10 enumera, então, cinco razões que explicam por que Messi e companhia alcançaram, nesta semana, a sexta final de Copa do Mundo dos argentinos.
Fortaleza mental
A seleção argentina não se abateu em momentos desfavoráveis e deixou o desespero passar longe nesta Copa do Mundo. E foram muitos momentos de apuros, com direito a duas prorrogações, situações que fizeram a crônica esportiva recorrer ao clichê do tango. Na primeira fase eliminatória, a equipe cedeu duas vezes o empate a Cabo Verde. Mas, no fim, foi lá buscar a vitória por 3 a 2. Contra o Egito, o time saiu perdendo por 2 a 0 e conseguiu arrancar um 3 a 2 de forma épica. Veio a encardida Suíça e novamente um triunfo difícil, somente no tempo extra, por 3 a 1. A Inglaterra foi a última vítima. Vencia, no segundo tempo, por 1 a 0 e levou o 2 a 1 nos minutos finais.
O psicológico está em dia e sobrepuja a falta de técnica em algumas ocasiões. Pacto? Huevos? Alma? Resiliência? Entrega como jamais houve? O espírito da seleção argentina eleva as análises esportivas ao aspecto metafísico. De antemão, contudo, é possível notar que o tricampeonato de 2022 tirou a pressão das costas da geração. É uma seleção que consegue recuperar-se justamente por estar mais leve, algo que não acontecia durante o período de vacas magras.
“Somos únicos. Não é soberba. É coração. Esta seleção joga ainda mais ao ficar em dificuldade”, resumiu o técnico da Argentina, Lionel Scaloni.
Tudo de novo
Em alta, a Argentina não precisou de uma “renovação”, palavra, aliás, que torna-se imperativa para seleções que fracassam na Copa do Mundo. A seleção desembarcou nos Estados Unidos com 17 remanescentes de 2022 (Dibu, Rulli, Molina, Montiel, Romero, Otamendi, Martínez, Tagliafico, Paredes, Lo Celso, Palacios, De Paul, Mac Allister, Enzo, Messi, Lautaro e Álvarez). Uma equipe mais velha, sim. Porém, extremamente vencedora e que se conhece de olhos fechados.
A nova versão da “Scaloneta” – nome que mistura o sobrenome do treinador com o sufixo “neta”, de camioneta -, aposta no entrosamento como o norte. E os resultados são melhores do que encomenda. A Argentina chega à decisão com 100% de aproveitamento, superando a campanha de 2022, quando os hermanos perderam para a Arábia Saudita por 2 a 1, na estreia.
“Somos os melhores do mundo nos quatro últimos anos. Doa a quem doer”, pontuou Messi.
A decisão estratégica do extraclasse
Aos 39 anos, Messi parece um garoto no auge da carreira, mesmo longe do futebol europeu há três temporadas. O camisa 10, aliás, não precisou do Velho Continente para seguir em alto nível e liderando a Argentina. Os gênios sabem se reinventar até mesmo longe dos holofotes. Astro do Inter Miami (EUA), o atacante encontrou na Major League Soccer (MLS), a liga profissional dos Estados Unidos, um campeonato com uma intensidade menor e com o ritmo adequado para a idade. Decisão, portanto, estratégica e movimento que garantiu a sua continuidade na seleção.
Messi manteve o mesmo apetite de 2022, quando, no Qatar, levou a Argentina ao primeiro título mundial em 36 anos, de forma espetacular. Em 2026, o craque deixou todo mundo boquiaberto ao empilhar recordes e assumir a artilharia de todas as Copas, deixando o alemão Klose para trás e superando o francês Mbappé, rival também batido na final do último Mundial.
Mesmo quando não marca gols pela Argentina, Messi, presente em todas as partidas, não deixa de assumir o protagonismo e buscar o jogo. Contra a Inglaterra, na semifinal, o atacante rosarino teve outra exibição primorosa, digna de um dos melhores jogadores da história. O planeta o reverencia, assim, de forma justa. E já não se espantaria se ele regressar em 2030, adiando a “última dança”.
Simbiose com a torcida
A Argentina tem jogado “em casa” durante a Copa do Mundo. Afinal, os torcedores daquele país desconhecem os limites geográficos quando a seleção está em campo e chegam em grande número. Não existem rivalidades locais ou clubismo. Ninguém está preocupado com quantos jogadores representam River Plate, Boca Juniors, San Lorenzo, Lanús, Banfield, Racing, Independiente ou Barracas Central. Estão todos juntos pela mesma causa. Não importa o preço do dólar ou quem está do outro lado. Os fãs viajam para jogar ao lado da equipe.
Os europeus, por exemplo, não cultivam o mesmo hábito quando os torneios são longe do continente. Franceses, espanhóis, ingleses, alemães, portugueses e holandeses estão sempre em menor número nas cidades norte-americanas, enquanto os latinos configuram a maioria.
O sacrifício dos “hinchas” se reflete em campo. Os jogadores conhecem de cabo a rabo as canções das arquibancadas e não hesitam em demonstrar que são verdadeiros torcedores dentro das quatro linhas.
Ciclo discreto e bem-sucedido
O ciclo prévio à Copa do Mundo de 2026 gerou desconfiança por conta do calendário. A maior crítica residia no fato de a Albiceleste não ter marcado amistosos contra grandes oponentes, como França, Inglaterra ou Espanha, três seleções que, por exemplo, cruzaram o caminho do Brasil antes do Mundial dos Estados Unidos, México e Canadá. Os atuais campeões enfrentaram Islândia, Honduras, Zâmbia, Mauritânia, Angola, Porto Rico e Venezuela nas últimas Datas Fifa.
No entanto, com a taça de 2022 no museu da AFA (Associação de Futebol Argentino) e estabilidade política, os hermanos edificaram uma caminhada sem grandes intempéries. Engana-se também quem considera que a Argentina foi pouco exigida. Pelo contrário. Pelas Eliminatórias, em 2025, o time respondeu goleando o Brasil por 4 a 1, no Monumental de Núñez. Dois anos antes, já tinha vencido o arquirrival sul-americano por 1 a 0, em pleno Maracanã.
A Argentina terminou as Eliminatórias disparada na primeira colocação. Nove pontos à frente do segundo colocado (Equador). Mas a demonstração de força e de trabalho nos eixos não parou por aí. Em 2024, a seleção também faturou a Copa América, terceiro título em três anos. Nada mal, portanto, para quem havia amargado um jejum de 28 anos com as mãos vazias.
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