Celebrações por resultados comerciais da Fifa, questionamentos por atuações nos bastidores e luxo fizeram Gianni Infantino se despedir da Copa do Mundo 2026 como um dos protagonistas das principais polêmicas desta edição. Presidente da entidade máxima do futebol, o suíço teve a imagem associada a episódios envolvendo viagens em jato particular, relação com Donald Trump e à suspensão mais polêmica do torneio de 104 partidas, em três países-sede.
A competição representou, para Infantino, um dos projetos mais ousados de toda sua gestão à frente da Fifa. O dirigente apostou em um formato ampliado, com estádios cheios apesar dos preços elevados dos ingressos e uma previsão de receitas superiores a 10 bilhões de dólares (R$ 51 bilhões, arredondado) .
Infantino tinha como expectativa elevar sua influência no comando do futebol mundial, mas as controvérsias ganharam espaço ao longo das seis semanas de disputa.
Relação com Trump e suspensão polêmica
A aproximação com o governo dos Estados Unidos se tornou o principal ponto de desgaste, sobretudo após a decisão envolvendo Balogun. Isso porque Trump procurou Infantino para reclamar do cartão vermelho recebido pelo jogador na partida contra a Bósnia e Herzegovina, que inicialmente deixaria o atacante fora das oitavas de final contra a Bélgica.
Depois da conversa, o Comitê Disciplinar da Fifa retirou a suspensão aplicada ao atleta. A Fifa, porém, afirmou que o órgão responsável pela análise atuava de forma independente, mas a mudança permitiu que Balogun participasse do jogo considerado o mais importante da seleção em décadas.
Esse episódio provocou críticas de diversas entidades sobre uma possível influência política nas decisões da Fifa. Além disso, se tornou um dos assuntos mais comentados relacionados ao Mundial.
No sábado anterior à final, o presidente norte-americano agradeceu Infantino pelo anulamento e chamou a medida de “mais uma ótima decisão”. O mandatário da Fifa esteve presente no evento na Trump Tower, em Nova York, pediu aplausos a Donald Trump e disse que a Copa “superou todas as expectativas”.
Em outro episódio envolvendo política, no sorteio da fase de grupos, em dezembro, Infantino entregou a Trump o recém-criado troféu do Prêmio da Paz da Fifa. Depois disso, o presidente americano autorizou intervenções militares das forças dos Estados Unidos, incluindo ações na Venezuela, no Irã e no Mar do Caribe.
As viagens de Infantino
O presidente, no entanto, já lidava com críticas bem antes do caso Balogun. Ele acompanhou acompanhou partidas utilizando um jato particular cedido pela Qatar Airways, patrocinadora da Fifa, com gastos que geraram questionamentos. Segundo um site criado para acompanhar as emissões do torneio, o mandatário percorreu mais de 100 mil quilômetros (62 mil milhas) para assistir a até dois jogos por dia.
Fontes da entidade ouvidas sob anonimato disseram que ele acompanhava partidas durante deslocamentos, no banco traseiro do carro com motorista ou dentro do próprio avião.
A rotina de viagens também incluiu uma ida a Doha, no Catar, antes das semifinais, para o funeral do Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani, ex-emir do país. O presidente da Fifa ainda recebia escolta policial especial em seus deslocamentos, como parte do acordo entre a entidade e as cidades-sede.
Valorização da imagem
Outro ponto que tem gerado repercussão na mídia internacional se refere à presença constante do mandatário nas transmissões oficiais. A Host Broadcast Service (HBS), produtora responsável pelo evento e 49% controlada pela Fifa, exibiu imagens de Infantino durante o primeiro tempo de todas partidas em que esteve presente, mas geralmente antes da pausa para hidratação.
A prática seguia um acordo entre a entidade e a HBS, que previa a exibição de uma “imagem de dignitário” em cada etapa do jogo. O momento, durante as pausas para hidratação, que também receberam inúmeras críticas, chamou atenção. Isso porque esse período serviu sobretudo para exploração comercial do recurso e aumento de lucros com publicidade.
Infantino teve que “lidar com muita pressão”
A aproximação com o governo norte-americano já o deixou em evidência antes mesmo de a bola rolar. Na coletiva de abertura, Gianni foi questionado sobre uma possível perda de controle da competição após o caso envolvendo o árbitro somali Omar Artan, que teve a entrada nos Estados Unidos negada. Ele assumiu que não iria intervir nas decisões de Trump.
Durante o Mundial, o presidente da Fifa também recebeu críticas do capitão do Irã, Mehdi Taremi, e da federação por problemas enfrentados pela seleção. Já a UEFA passou a se manifestar após o caso Balogun, afirmando que a entidade havia ultrapassado “uma linha vermelha” e perdido o controle.
Uma fonte ligada à Fifa afirmou que o presidente “teve que lidar com muita pressão” de pessoas do futebol com interesses pessoais. O mesmo relato declarou que o presidente da entidade “sempre se concentra no bem maior”, embora haja muita gente buscando apenas benefício próprio nos bastidores.
Lucros alimentam controvérsias
Pouco antes da final, Gianni divulgou em seu Instagram um site que oferecia o chamado “primeiro anel de campeão da história da Copa do Mundo”. A peça foi divulgada pelo valor de 12 mil dólares (R$ 61 mil), alimentando críticas quanto às medidas da Fifa apenas visando lucros.
Embora não haja confirmação, a mídia europeia tem citado que as críticas fizeram o presidente mudar o roteiro na reta final. Isso porque diferentemente das Copas de 2018 e e 2022, ele não participou da entrevista coletiva de encerramento antes da decisão.
Apesar dos episódios controversos, a Fifa destacou o nível técnico apresentado durante o Mundial e passou a priorizar os resultados financeiros da competição em sua avaliação final. Infantino já havia discutido a possibilidade de ampliar novamente a Copa do Mundo para 64 seleções em 2030, considerando o funcionamento do formato com 48 equipes como argumento favorável para uma nova expansão.
O dirigente também anunciou a intenção de disputar novamente a presidência da entidade, em um mandato que seria o último permitido pelos estatutos. Seu apoio conta com mais de 200 associações filiadas. A arrecadação financeira da Fifa segue em crescimento e aparece como um dos fatores associados ao suporte recebido pelas federações membros, mesmo após as críticas registradas durante o torneio.
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