A saída de Marlon Freitas para o Palmeiras, no começo de 2026, se consumou de forma didática. A reação inicial, porém, foi a de choque. Afinal, o volante tornou-se o símbolo dos títulos da Libertadores e do Brasileirão de 2024. Eternizou frases, elaborou discursos inflamados, virou protagonista de documentários, figurou em séries, tatuou as conquistas do Botafogo no braço, teceu juras de amor ao clube e, por conta destas atitudes, teve o rosto incluído em um bandeirão de ídolos da Estrela Solitária. Em um passe de mágica, contudo, o capitão trocou o Mais Tradicional pelo principal antagonista daquelas façanhas, como se fosse a mudança mais natural do mundo.
Freitas é Calabar na história do Botafogo, militar que lutou ao lado dos portugueses contra a invasão holandesa no Brasil, durante o século 17, mas mudou de lado e passou a guiar os inimigos com todo o seu conhecimento. A “traição” só piorou com algumas declarações recentes. Ele passou a tripudiar das façanhas para fazer uma média com a torcida do Palestra Itália. Para ser moderado, é sinônimo de decepção no universo preto e branco.
Luiz Henrique, ícone de 2024 e herói em campo, pode vestir, agora, a camisa do Flamengo, um ano e meio após entrar no mesmo bandeirão ao lado de nomes que já estão no Olimpo, como Garrincha, Nilton Santos, Didi, Jairzinho, Carlito Rocha, Amarildo, Gerson e Túlio Maravilha. A eventual chegada do Pantera ao clube da Lagoa Rodrigo de Freitas revela, por ora, muito mais sobre a torcida do Botafogo do que do próprio camisa 7. Houve, de fato, uma precipitação em relação àquele elenco simplesmente porque os jogadores continuam em atividade e com muita estrada pela frente.
Distanciamento necessário
O influenciador/colunista Ricardo Azambuja, do canal “Fala Fogão” e do site “FogãoNet”, sugeriu a implementação da “Lei Marlon Freitas”. Uma medida apropriada contra a banalização do conceito de ídolo. O projeto prevê um prazo de, no mínimo, três anos para que um jogador prove aos escolhidos que realmente pode ser considerado um emblema da instituição. O período, aliás, será estendido para jogadores mais jovens. O “pós-Botafogo” também será um fator importante nas análises. Este espaço, portanto, abraça a ideia.
Ídolo é algo individual. No entanto, a palavra perdeu um pouco no sentido no botafoguismo, algo, aliás, que tornou-se um gatilho para provocações de rivais e algumas distorções bizarras. Eles apontam uma “carência” dos alvinegros, como se o Mais Tradicional não reunisse uma verdadeira constelação de craques que ajudaram o Brasil a ganhar três de cinco títulos mundiais.
Na visão deste reles cronista, idolatria é o resultado da seguinte equação. A saber: títulos + desempenho + representatividade (longevidade ajuda). Por isso, no momento, apenas dois nomes podem trilhar este caminho com sucesso no Botafogo: o lateral-direito Vitinho e, sobretudo, o lateral-esquerdo Alex Telles.
*Esta coluna não reflete, necessariamente, a opinião do Jogada10.
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