Rio - O Cordão do Bola Preta promove neste sábado, 18, no Centro do Rio, seu 103º desfile. Considerado o mais tradicional da cidade, o bloco, que ficou dois anos sem ir às ruas por conta da pandemia, aposta na força das marchinhas e sambas-antológicos para embalar os foliões. A expectativa é reunir mais de 1 milhão de pessoas na Rua Primeiro de Março e Avenida Antônio Carlos.
Nas ruas de acessos ao local do desfile, policiais militares montaram pontos de bloqueiro para controle e revista dos foliões.
O desfile começou com uma homenagem às vítimas de covid-19 e um discurso do presidente do Bola, Pedro Ernesto Marinho. No carro de som, a Corte Real do Bola Preta, formada por celebridades e personalidades do Carnaval, levou o público ao delírio. Entre os destaques estão a atriz Emanuelle Araújo, Musa; a portelense Tia Surica; Embaixatriz, a cantora Maria Rita; Madrinha, e o cantor Neguinho da Beija Flor; Padrinho.
A lista de famosos contou ainda com a porta-bandeira Selminha Sorriso, Musa das Musas; a atriz Paola Oliveira, Rainha; a atriz Leandra Leal, Porta-Estandarte; e Mirian Duarte, Musa do Centenário. Completam a Corte as Musas do Bola 2023 Adeline Gervágio, Taissa Marins, Cassia Silvia e Elaine BR.
O maestro da banda do Bola Preta, Altamiro Benedito Gonçalves, de 85 anos, participa dos desfiles desde 1990 tocando trompete.
"Quando me trouxeram pra cá, me falavam: 'Olha, você tem que lá em cima pra ver como é isso'. Quando eu vi aquelas 2,4 milhões de pessoas (em 2013) lá de cima, aí já viu…", emocionou-se.
Ele afirmou que por conta da longa vivência no bloco, já não sente mais aquele friozinho na barriga. "Já não sinto mais isso. Sou responsável pela banda, então tenho que estar dando atenção a todos que me solicitam", explicou o maestro.
"Já fizemos o carnaval lá na Rio Branco e foi o melhor espetáculo que já fizemos. Enquanto tiver bem, eu vou participar. Depende da minha condição de saúde", completou, reforçando que não pretende se "aposentador da folia".
Presidente do bloco desde 2007, Pedro Ernesto Araújo Marinho, 70, tem mais de 50 anos de participação no Cordão da Bola Preta. Ele comemora a volta do clube às ruas e pondera a importância para a economia.
"A alegria é muito grande, muita emoção, porque o Bola Preta é um clube de carnaval, nasceu para o carnaval, e ficar dois anos sem foi muito triste para nós. Tanto do lado emoção quanto do lado econômico. Mas graças a Deus a gente está firme e forte ai", celebra.
Marinho ainda ressalta a participação na tradicional festa do carnaval do Rio, e aponta que o bloco foi feito para levar alegria para à vida dos foliões.
"Nós vamos para mais um carnaval, 103º da história do Bola Preta, e temos certeza que será maravilhoso, com todos os ingredientes para agradar ao nosso folião. A razão da essência do Bola Preta é o povo, são os foliões. Estamos aí exatamente pra isso. Agradá-los com muita alegria e música de qualidade com a nossa tradicional banda", explica emocionado.
Com fantasias inspiradas nos prêmios do Grammy Latino da cantora Maria Rita, a enfermeira Regiane Finamore, 26 anos; as profissionais de marketing Patrícia Oliver, 21, e Ariane Machado, 24; além da bióloga Tainá Amorim, 23, todas amigas, se divertiram no meio da multidão.
"Somos fãs dela há muitos anos, e todo ano a gente vêm no Bola Preta com uma fantasia que remete a ela. Em 2020 a Ariane veio da própria Maria Rita, já viemos de 'Amor e Música', e esse ano a gente veio de Grammy", explicou Regiane.
Com exceção de Patrícia, que veio de São Paulo para curtir o carnaval, todas são do Rio. As amigas contaram, ainda, que já estão acostumadas a interagir com Maria Rita no desfile. "Ela dá tchauzinho e brinca do jeitinho dela, até o final".
Já a técnica de enfermagem Neide de Moura, de 67 anos, aproveita a festa em família. Ela foi ao bloco com a filha Marcela, de 38 anos, e os netos Ariane Mariana, de 14 anos, e Artur Mariano, de 8 anos.
"Sempre venho no Bola Preta. Nos sentimos muito seguros, está tudo organizado, sempre esteve. É maravilhoso festejar o Carnaval depois da pandemia", declarou Neide, moradora de Coelho Neto, Zona Norte.
Outra família que aproveita a folia é a de Laura Cesário, de 35 anos, mãe de Bruna Saiori, de 16 anos. Este ano é a primeira vez que as duas vão juntas ao Bola Preta. "Somos uma dupla, eu e ela o tempo todo. A gente sempre se fantasia de formas diferentes, mas saindo iguais", disse Bruna. "A energia é boa demais, recarrega a gente pro ano inteiro", adicionou Laura.
A musa da banda Emanuelle Araújo também se jogou na folia junto com os foliões. A cantora conta que é difícil conter a emoção: "Estou segurando aqui. Já chorei, já borrei a maquiagem toda. Eu sou musa da banda e pra mim é um orgulho! Esse é um bloco centenário. Tem senhores aqui que estão no Bola Preta há décadas e décadas".
"Eu passei por todo o período que vivemos na pandemia estimulando o Bola a continuar. Foi muito difícil para quem é carnavalesco, tudo o que a gente passou. Então chegar até aqui, ver que sobrevivemos, que está tendo carnaval, lindamente é muito emocionante", acrescenta, relembrando o período em que o carnaval foi suspenso por causa da pandemia de covid-19.
Ela ainda comemora por receber a faixa de musa da banda e e relembra os anos que esteve embalando o carnaval à frente do Cordão do Bola Preta. "Eu, finalmente, apesar de ter cantado dois anos do carnaval com eles (2019 e 2020), esse ano eu estou recebendo a faixa oficialmente e estou muito feliz", comemora.
Quem também marcou presença no bloco neste ano foi a atriz Paolla Oliveira. Vestida com uma fantasia em estampa de onça preta e branca — as cores do Bola —, a atriz destacou que o bloco consegue reunir uma multidão todos os anos. "A minha energia se renova quando eu estou aqui. Porque é um bloco tradicional, com essa quantidade de gente, é muito especial".
A rainha Leandra Leal relembrou que tem raízes no Cordão do Bola Preta, e também emocionou em poder voltar a carregar a bandeira do bloco, após a pausa da pandemia.
"Eu venho no bola desde criança, e esse ano estou muito emocionada de estar voltando, de ter carnaval. A gente voltou a ter carnaval, voltamos a sonhar. É o retorno de muita coisa".
O Cordão da Bola Preta foi fundado em dezembro de 1918, e alcançou a marca de bloco mais antigo em atividade no carnaval carioca no desfile de fevereiro de 2018, chegando ao centésimo ano de folia.
Durante esses anos resistiu a duas pandemias mundiais, duas guerras mundiais, mudanças de regime e períodos de censura, mas apesar da pandemia de Covid-19 ter impedido que se desfilasse nas ruas por dois anos, nada impediu que o bloco mantivesse viva a tradição do carnaval levando alegria aos foliões.

