No início da peça, dois objetos se destacam, uma cadeira elétrica e um carrinho de bebê. A primeira será usada para punir a assassina de uma poeta e o outro acomoda uma criança que vai mudar tragicamente o destino da humanidade. O elo que os une é a poesia da polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), ganhadora do Nobel de Literatura de 1996. "É a união da poesia do mundo com o teatro, estabelecendo um jogo de criação e destruição", afirma Cesar Ribeiro, diretor do espetáculo Projeto Wislawa, que estreia na sexta-feira, 6, no Teatro Paulo Eiró, em São Paulo.
A dramaturgia, criada por Ribeiro a partir de textos de Szymborska, dá continuidade à investigação dos sistemas de violência, agora sob um viés ao mesmo tempo lúdico e tragicômico a partir do olhar da escritora polonesa, cujos poemas trazem profundidade com sensação de leveza, mesmo quando falam de temas pesados.
Desde a invasão da Polônia, em 1939, que marcou o início da Segunda Guerra Mundial, passando pela influência soviética no pós-guerra, até chegar à queda das Torres Gêmeas, em 2001, a poesia de Szymborska trava um diálogo direto com momentos históricos. "Ela revela a capacidade de coisas vivas matarem outras coisas vivas", comenta Ribeiro, que selecionou poemas como Fotografia de 11 de Setembro, sobre os corpos caindo após o atentado ao World Trade Center, e Primeira Foto de Hitler, sobre a criança que está naquele carrinho de bebê.
Com estética inspirada em HQs e desenhos animados, Projeto Wislawa apresenta a história fictícia de uma mulher condenada à morte por assassinar Wislawa Szymborska. "Ela simplesmente odeia poesia e tampouco gosta de teatro", conta sua intérprete, a atriz Clara Carvalho, que divide o palco com Vera Zimmermann, responsável pela declamação dos versos que, construídos quase como prosa, soam como falas do cotidiano.
Basta conferir o início de Primeira Foto de Hitler, na tradução de Regina Przybycien: "E quem é essa gracinha de tiptop? / É o Adolfinho, filho do casal Hitler! / Será que vai se tornar um doutor em direito? / Ou um tenor da ópera de Viena?".
A fala é dita ao mesmo tempo em que é projetada a imagem real do futuro ditador com meses de idade. O espetáculo é pontuado pela projeção de filmes e fotos que complementam o diálogo entre as atrizes, além de uma eclética trilha sonora, que vai da música clássica à eletrônica.
"O espetáculo reflete sobre a capacidade humana de produzir violência, abordando o totalitarismo, a intolerância e os processos de desumanização sob uma perspectiva feminina e contemporânea", afirma Vera Zimmermann, que enuncia oito poemas ao longo da peça. "Wislawa consegue trazer o singelo mesmo quando o assunto é excessivamente dramático."
Fábula dentro de outra fábula
Já a dramaturgia original criada por Ribeiro busca apresentar uma fábula dentro de outra fábula, na qual se destacam momentos líricos, como a história do pai atropelado por um sonho ou a troca de um bom-dia com um peixe. "Foi a opção que encontrei para não emendar os poemas. O texto acompanha a assassina condenada à morte na cadeira elétrica, uma mulher que mata a sensibilidade do mundo da mesma forma que os regimes fascistas", diz o encenador.
A narrativa conduzida por Clara Carvalho se assemelha à sequência de um livro. "Ela enumera os capítulos da história, mas, à medida que a sentença fatal se aproxima, a mulher vai se desestruturando e a ordem perde a cronologia", diz a atriz, lembrando que Wislawa Szymborska era uma mulher irônica, mas conseguia traduzir a violência com fidelidade em sua obra. "Ela mostra como o mal se infiltra na vida comum, nas escolhas banais e na linguagem aparentemente inocente."
Com Projeto Wislawa, Cesar Ribeiro dá continuidade à pesquisa sobre formas estéticas contemporâneas que mesclam profundidade do debate com influências da cultura pop, o que marcou trabalhos anteriores como Projeto Clarice, Trilogia Kafka, Dias Felizes, O Arquiteto e o Imperador da Assíria e Esperando Godot. "É uma forma de construir um teatro que articula pensamento crítico, rigor estético e acessibilidade de linguagem."
Serviço - Projeto Wislawa
Data: 6/2 a 1º/3. Quintas a sábados, 20h; domingos, 19h. Sessão extra no dia 25/2 (quarta-feira), às 20h.
Onde: Teatro Paulo Eiró. Av. Adolfo Pinheiro, 765, Santo Amaro -SP.
Duração: 60 minutos
Gênero: Tragicomédia
Classificação: 12 anos
Ingresso: R$ 20. Ingressos presenciais 1h antes do início do espetáculo na bilheteria e online pelo Sympla.

