O diretor Ulysses Cruz e a atriz e dramaturga Mara Carvalho conversavam em um bar, em 2023, a respeito de Barbie, o filme sobre a famosa boneca que tinham acabado de ver, quando ele brincou: "Poderíamos fazer uma versão musical dessa história para o teatro."
Mara lembrou que os direitos autorais seriam caros, mas sugeriu: "E se fizéssemos um musical sobre a Susi, a boneca brasileira que rivalizou com a Barbie?"
Animada, ela iniciou uma série de pesquisas e entrevistas com colecionadores para descobrir uma história que envolve paixão, frustração e disputa econômica.
O resultado é Susi, o Musical, que está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
"O texto trata da ditadura da beleza. As bonecas antigamente eram bebês para estimular a maternidade nas meninas. Susi chega e muda tudo porque já é uma mulher, uma fashion doll", diz Mara, que contou com músicas de Thiago Gimenes e direção e auxílio na concepção de Cruz.
"Como nosso interesse não era o escapismo ou um entretenimento raso, que seria confundido com um produto infantil, decidimos fazer um family show com conteúdo, que não fosse só uma brincadeira", afirma o encenador, que escalou a cantora e atriz Priscilla para viver o papel principal, a boneca Susi, que, ao surgir no mercado brasileiro, em 1966, modificou o comportamento juvenil, especialmente das meninas. "As garotas se apaixonaram porque Susi estava em desfiles de moda, aparecia em programas de TV como o da Hebe Camargo, fazia sucesso em eventos como a Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit), e ainda colaborava em campanhas educativas, como as de alerta para o câncer", conta Cruz.
Criada pela Estrela Brinquedos, Susi foi uma resposta nacional à americana Barbie, lançada pela Mattel em 1959. Como na época as leis de importação no Brasil eram muito restritivas, a boneca de pernas alongadas, pele branca e sorriso indestrutível não era comercializada aqui. E Susi logo se tornou um sucesso por apresentar um biotipo semelhante ao das meninas brasileiras, alimentando uma rivalidade com a americana.
"A frase que mais ouvi durante as pesquisas era: 'quem tem Susi não tem Barbie'", conta Mara, que, no musical, descreve a disputa econômica entre as bonecas. Ela lembra que a Barbie chegou ao Brasil em 1982, fabricada pela Estrela, que representava a Mattel no País. Durante três anos, Susi e Barbie conviveram no mercado brasileiro.
"Foi quando a Mattel propôs um acordo em que a Estrela retiraria a Susi das prateleiras - porque ela reinava sozinha - em troca de auxílio para entrar no mercado norte-americano", explica Thiago Gimenes. "A Estrela aceitou e Susi ficou 12 anos sem ser produzida. Pior: como em 1990 o então presidente, Fernando Collor, abriu o mercado nacional às importações, a Mattel rompeu o contrato com a Estrela e passou a importar a Barbie para vender diretamente a boneca no Brasil."
Quando voltou a ser fabricada, em 1996, a boneca brasileira já estava ofuscada pela americana. É nesse contexto que começa Susi, o Musical.
A trama acompanha Victor (papel que será interpretado por Arthur Habert e Nico Takaki), um menino cujo raro talento para design de moda é reprimido pelo bullying que recebe, principalmente do pai, em casa. Sem poder costurar, ele se fecha socialmente, afundado em jogos digitais. "Preocupada, mas ainda sem entender o filho, Olga, sua mãe, o proíbe de jogar, e Victor, irritado, busca refúgio no porão", explica Mara, intérprete de Olga.
Lá, o menino encontra uma caixa que guarda uma Susi que magicamente começa a falar com ele. "A boneca se transforma em uma amiga imaginária", conta Gimenes. "Surge um espelhamento entre os dois porque ela precisa descobrir a modernidade, afinal, ficou 12 anos afastada, e voltar para as prateleiras, e ele busca recuperar seu lugar como estilista."
Em casa
Susi é interpretada por Priscilla, que, com 20 anos de carreira dedicada à música e a trabalhos audiovisuais, busca agora concretizar o plano de participar de um musical. A breve participação (sete sessões) em Wicked, em novembro, permitiu que ela sanasse seus temores. "Quando pisei no palco do teatro pela primeira vez, eu me perguntei por que demorei tanto. Estava em casa. Fiz pouquíssimos ensaios de Wicked, mas parecia que aquele lugar tinha sido feito para mim. Percebi que a porta estava aberta", conta.
Como a trilha sonora criada por Thiago Gimenes é baseada no pop, Priscilla se sentiu ainda mais confortável. "Estudo canto há muitos anos para enfrentar situações fora da minha zona de conforto. Aqui, a grande diferença não está na sonoridade, mas no tipo de performance - preciso sempre lembrar que, no teatro, a palavra é mais importante que o som."
Como Priscilla não poderá fazer todas as sessões, Clara Verdier será sua substituta direta. Com tradição na ópera e em musicais clássicos, ela enfrenta um desafio por nunca ter participado de um espetáculo com trilha pop. "Venho do canto lírico, fiz conservatório de óperas, mas tive de engavetar minhas Carmens para começar a ouvir Rihanna, Ariana Grande, Billie Eilish", conta ela, descobrindo uma nova vertente na carreira. "Susi é uma diva pop, daí as referências modernas, porque o tipo de música que representa essa boneca é o pop e assim o musical é como um show pop da Beyoncé."
Variações
O espetáculo traz ainda variações da boneca brasileira, lembrando os diversos modelos que buscavam atender tipos específicos. Assim, também estarão em cena a Susi Safári (Ariane Souza), a Susi Fotógrafa (Luana Tanaka) e a Susi Copa do Mundo (Daniela Dejesus). "Juntas, lembram conjuntos femininos como Rouge ou Spice Girls", diz Gimenes.
Priscilla e Clara trocaram dicas para interpretar uma boneca sem parecer robotizadas. "Para lembrar o público de que não se trata de uma pessoa, busquei alguns momentos estáticos da boneca, como virar a cabeça de uma forma engraçada", conta Priscilla. "Nada pode ser mecânico, apesar dos limites da cabeça e dos braços. Também os movimentos são mais em retas do que em curvas", diz Clara, trabalhando ainda um piscar mais lento e um sorriso mais contido.
Por falar em Barbie, a boneca americana aparece em cena como Bárbara - prudente, a produção evitou possíveis problemas com o uso do nome oficial. Sua aparição é retumbante. "Quando as Susis estão cantando Eu Sou a Estrela da Estrela, ouve-se o som de uma bomba e em seguida os primeiros acordes do hino dos Estados Unidos, que marca a entrada da Bárbara", conta Gimenes, lembrando que, apesar da ambição de impor sua importância sobre a brasileira, Bárbara é uma figura muito engraçada. "A boneca é um vetor para falarmos sobre o quanto as pessoas se deixam levar por um padrão estético imposto pela internet."
Intérprete de Bárbara, Bruna Guerin conta que, em acordo com as outras atrizes, tomou cuidado para não apresentar um confronto entre duas mulheres. "São visões distintas da vida", afirma ela. "Bárbara é mais cafona e vê a necessidade de postar nas redes sociais tudo o que está vivendo. Não é necessariamente a vilã, mas, comparada com Susi, Bárbara está distante do que consideramos ideal, especialmente na afetividade."
Meninos
O musical traz ainda bonecos como Beto (Leandro Melo), namorado da Susi inspirado em Roberto Carlos, e Ken, aqui Kevin (Paulo Ocanha), companheiro de Bárbara/Barbie. "Há uma inversão de valores na qual o homem se transforma em um acessório da mulher", conta Mara, que também escalou Falcon (Rodrigo Moraes), o primeiro boneco de ação criado para meninos no Brasil, em 1977. "Ele vai dar uma lição de coragem ao Victor."
Gimenes criou uma identidade musical para cada personagem, transitando por estilos diversos. Bárbara, por exemplo, é apresentada por acordes de jazz, enquanto Beto puxa para a música popular brasileira. "Entre rock, pop, MPB, rap, trap e sonoridades dos anos 1970, a ideia é fundir o eletrônico e o acústico, o antigo e o novo, criando uma narrativa sonora múltipla e integrada."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

