Parte da estrutura da Polícia Civil de São Paulo amanheceu cercada por agentes da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco), Polícia Federal e promotores do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Foram revistadas por ordem judicial a 1ª Delegacia de Lavagem e a Divisão de Crimes Contra a Fazenda, que pertencem ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC); a 3ª Delegacia da Divisão de Investigações Gerais (DIG) e a 4ª Delegacia de Crimes Cibernéticos, ambas do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), e o 35º Distrito Policial, que fica na Vila Guarani/Jabaquara, na zona Sul.
As unidades policiais foram alvo de buscas da Operação Bazaar, que investiga um esquema milionário de achaques feitos com base em Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) que envolviam delegados, investigadores, doleiros e advogados. A operação ainda teve seis policiais como alvos: o delegado João Eduardo da Silva e o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz, ambos do 35.º DP, e os investigadores Rogério Cione, que trabalha na assistência da divisão do DPPC, Jayme Emílio Tavares Júnior, do DEIC, Rogério Coichev Teixeira, do Serviço Aerotático (SAT) e Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, da 1ª delegacia de Combate à Corrupção, além de dois advogados, ex-policiais e doleiros.
A investigação que resultou na Operação Bazaar identificou uma "epidemia" de Relatórios de Inteligência Financeira na Polícia Civil de São Paulo. Para a Corregedoria da corporação, que atuou na operação ao lado da Polícia Federal e do Gaeco nesta quinta, 5, as diligências "batem no coração do uso criminoso dos RIFs".
Dez alvos tiveram sua prisão preventiva decretada pelo juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 2.ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores: o delegado João Eduardo da Silva, o escrivão Ferraz, e os investigadores Roldnei e Coichev.
O juiz ainda determinou medidas cautelares contra Cione e Tavares Júnior, que estão impedidos de se ausentar da comarca, proibidos de frequentar delegacias e devem pagar R$ 50 mil de fiança em um prazo de cinco dias, caso contrário vão fazer companhia aos colegas no Presídio Especial da Polícia Civil.
O magistrado, a pedido dos promotores, decretou ainda o sequestro de bens de 18 acusados. A investigação que levou à devassa nas delegacias foi decidida depois que o Gaeco recebeu da Polícia Federal um relatório que analisava o material apreendido em poder de um dos integrantes da organização criminosa investigada no âmbito da Operação 'Recidere'.
Essa operação havia sido deflagrada pela PF em 22 de novembro de 2023, em Campinas, interior de São Paulo. O inquérito tramita na Justiça Federal e identificou, segundo os promotores, "diversos atos de corrupção policial praticados de forma reiterada".
"De partida, relevante apontar-se que a Operação 'Recidere' teve por objetivo desarticular um núcleo de doleiros especializado em remessas ilegais ao exterior, valendo-se da simulação de importações e da criação de inúmeras empresas de fachada", revelaram os promotores.
O grupo seria comandado por Leonardo Meirelles, Cleber Azevedo dos Santos e Paulo Rogério Silva, o Paulo Barão. "Ele era composto pelos maiores doleiros do país, controlava pessoas jurídicas abertas em nome de 'laranjas', obtinha habilitação no RADAR e fechava contratos de câmbio com base em faturas comerciais falsificadas, tudo de modo a ocultar remessas de terceiros interessados em manter anonimato e driblar controles estatais," disseram os promotores.
Ainda segundo o Gaeco, a Operação Recidere demonstrou que a organização criminosa possuía ampla capacidade de recomposição, mesmo após ações ostensivas ela continuou operando mediante reorganização das empresas, substituição de "laranjas" e criação de novas contas bancárias.
O caso, de acordo com os investigadores, expôs um sistema profissionalizado de evasão de divisas que funcionava há anos, com alto volume financeiro e elevado grau de especialização técnica.
Segundo a análise dos telefones apreendidos com os alvos da operação 'Recidere', a evasão de divisas apurada pela Justiça Federal era apenas um dos ramos de atuação criminosa dos investigados. "Em verdade, parte considerável da atuação dos investigados consistia em operacionalizar a lavagem de capitais mediante a criação de empresas de fachada, bem como valendo-se de compra e venda de créditos de tickets de alimentação", afirmam os promotores.
Foi durante a investigação desses crimes, que se descobriu o gigantesco esquema de corrupção que garantiria a impunidade dos doleiros. "Integrantes daquela organização criminosa eram alvos constantes de outras investigações e operações policiais, em sua maioria realizadas pela Polícia Civil do Estado de São Paulo, destacando-se, dentre elas, a Operação Fractal, deflagrada em diversas fases e contando inclusive com apoio da Receita Federal", relatam os promotores.
A Operação Fractal descortinou um esquema de lavagem de dinheiro estruturado, com a utilização de empresas de fachada, pertencentes aos mais diversos ramos empresariais - desde serviços odontológicos até lavanderias e serviços de filmagem de festas - que "simulavam operações comerciais para mascarar a origem ilícita dos valores, além de se utilizar empresas de intermediação de compra e venda de criptomoedas e outros ativos digitais, tudo a dificultar o rastreio e permitir a dissimulação da movimentação e propriedade dos valores ilícitos".
A Fractal identificou ainda, como modalidade de lavagem de capitais, a utilização de tickets de alimentação. Os valores oriundos do tráfico de drogas, recebidos em espécie, eram empregados na aquisição de cartões, posteriormente usados em "padarias" e "mercadinhos" de fachada, que, de acordo com a acusação, "transferiam os recursos a empresas fictícias, de modo que dinheiro em espécie era convertido em créditos com aparência lícita e reinserido no sistema financeiro".
Segundo os promotores, entre os inquéritos instaurados no âmbito de tais operações que receberam o nome de "Fractal", um ainda está em curso, "ironicamente, pela 1ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração, Combate à Corrupção e Lavagem de Capitais, em trâmite há quase 5 (cinco) anos e ainda sem solução, em cujo bojo foram apuradas tratativas ilícitas e atos de fraude processual".
Além do inquérito interminável, a organização criminosa também teria sumido com provas apreendidas pelos policiais. Foi nesse contexto que Cleber Santos, Leonardo Meirelles e Paulo Barão, com auxílio de Robson de Souza, Antônio Carlos Ubaldo Junior, com a ajuda dos advogados Marlon Antonio Fontana e Guilherme Sacomano Nasser, de forma sistemática passaram a corromper policiais civis de delegacias especializadas e distritos policiais da capital que se valiam dos Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) para investigar empresas e doleiros.
"O controle dos pagamentos e do fluxo financeiro era realizado de forma meticulosa por membros da organização criminosa como Odair Alves da Silveira Filho e Bruno Ramos Fernandes, a quem se incumbia a supervisão do fluxo financeiro utilizado para o pagamento das vantagens indevidas", afirmam os promotores.
De acordo com eles, tais condutas "revelam elevado grau de comprometimento e prática de corrupção sistêmica, notadamente de policiais vinculados ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) e ao 16º Distrito Policial (Vila Clementino)".
Anda segundo os promotores, no curso das investigações foi constatada a atuação de diversos policiais civis, alguns ainda não identificados totalmente, além dos seis que foram alvos da operação nesta manhã: Roldney na época dos fatos estava no DPPC e o delegado e o escrivão trabalhavam no 16º DP, assim como o investigador Cione.
Entre as provas obtidas pelos promotores estão diálogos e documentação que mostrariam a prática de corrupção ativa, passiva, embaraço à investigação de organização criminosa, fraude processual, bem como indícios de lavagem de capitais. Foi após a abertura da investigação do Gaeco, em 2025, que os integrantes da organização criminosa passaram de forma coordenada a tentar "interferir em investigações em curso e na corrupção sistêmica de policiais civis, bem como em outras ações ilícitas".

