A abertura do Cedoc faz parte do encerramento do período de comemorações dos 50 anos da Funarte. Durante três meses, a entidade promoveu ações pelo país destacando a sua importância para a Cultura do Brasil.
“Nesse 31 de março, a Funarte completa esse circuito de três meses de celebração de uma história, mas também valorizando, sobretudo, o papel formulador de política pública para as artes e agora com um marco de instituição da nossa Política Nacional das artes”, disse à Agência Brasil, a presidenta da Funarte, Maria Marighella.
“O Cedoc sai de um espaço e de uma sede que não era sua, se transfere para um prédio que era o antigo Museu da Casa da Moeda, mas que hoje é um prédio do Cedoc, um prédio próprio, um patrimônio no centro do Rio de Janeiro vocacionado a preservar esse acervo”, completou.
Conforme informou, o Centro de Documentação e Pesquisa guarda mais de 2 milhões de itens que preservam a memória das artes brasileiras e da própria instituição, como acervos fundamentais para a história das artes do Brasil. Entre eles, o do dramaturgo Oduvaldo Vianna (1892-1972), o do produtor e autor de teatro de revista Walter Pinto (1913-1994) e o do ator, produtor, diretor e pesquisador Fernando Peixoto (1937-2012), estão registrados no Programa Memória do Mundo da Unesco.
“É um acervo muitíssimo vasto e amplo que nos dá a dimensão e a grandeza dessa riqueza”, destacou.
Maria Marighella disse ainda que essa abertura vai também convocar e mobilizar instituições culturais, que promovem a preservação, a memória e a proteção dos acervos, que sendo públicos ou privados são de interesse público.
“Ao convocarmos, chamarmos e unirmos as instituições estamos inaugurando um ambiente de rede, dizendo que o papel da memória é o que só pode se dar se ele for na relação federativa, no sistema nacional de cultura, com os entes federados, mas sobretudo com os agentes culturais e as suas instituições”, afirmou a presidenta.
Ela destacou que na busca desse ambiente de rede de proteção e memória das artes, a Funarte vai assinar protocolos de intenção com instituições que tenham esta vocação.
Grande Othelo
Desde 2008, o Cedoc guarda também o acervo pessoal de Sebastião Bernardes de Souza Prata, o ator Grande Othelo (1915-1993). A partir desta coleção foi montada a Ocupação Grande Othelo, uma parceria da Funarte com o Itaú Cultural, que a levou para a sua sede na cidade de São Paulo, e abriu a mostra ao público entre dezembro do ano passado e março deste ano.
Agora, instalada na nova sede do Cedoc, no Rio, os visitantes têm a possibilidade de fazerem, por meio de mais de 160 itens, uma imersão na vida e obra do primeiro artista negro a ocupar um lugar de destaque tanto no teatro, como no rádio, no cinema e na televisão no Brasil.
“Com talento, humor e sagacidade, Othelo abriu caminhos nas artes e pautou discussões importantes, reivindicando direitos e representatividade. Uma presença marcante para a cultura do Brasil, de alcance e reconhecimento internacional”, ressalta a Funarte em nota.
A concepção e a curadoria ficaram sob a responsabilidade do Itaú Cultural e contou ainda com consultoria da pesquisadora Deise de Brito. O projeto expográfico é de Kleber Montanheiro. Entre as peças da mostra, o público pode se encantar com rascunhos de poemas ou outros concluídos, como: Cadê você, Gonzagão? Uma homenagem que Otelo fez a Luiz Gonzaga.
O visitante verá ainda, segundo a entidade, “partituras originais dos anos 1940, roteiros, objetos, cartas, fotografias, indumentárias, suas agendas para recados e outros cadernos pessoais, documentos históricos como um contrato com a Rede Globo, de 1967, um diploma de cidadão paulistano, de 1978, e troféus como o Velho Guerreiro, que Chacrinha lhe ofereceu em seu programa dominical”.
A visitação gratuita à Ocupação Grande Othelo estará aberta até 30 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h. A partir de maio, por meio do Programa Educativo do Cedoc, as escolas poderão agendar visitas guiadas.
“O Cedoc abre suas portas com esta exposição de difusão desse acervo, e essa é uma alegria enorme. Nunca se falou tanto sobre a urgência e a necessidade de protegermos, formularmos e executarmos políticas públicas de proteção da memória das artes”, afirmou Maria Marighella.
De acordo com a presidenta, assim como tem as políticas nacionais de Patrimônio, da Cultura Viva, a Setorial do Audiovisual e a de Museus, vai ter pela primeira vez na sua história, uma política para as artes tendo o circo, a dança o teatro, a literatura, a música e o cinema como parte desse conteúdo cultural brasileiro.
“A democracia do Brasil se renova com as artes, a soberania do Brasil se projeta por meio das suas artes. O Brasil que quer se contar por si mesmo, um Brasil soberano terá a sua política de valor e reconhecimento das artes como bem coletivo”, comentou.
“Convidamos todos e todas a conhecerem o Cedoc, o centro de documentação, assim como os outros equipamentos da Funarte, neste marco de celebração dos seus 50 anos e de 40 anos do Ministério da Cultura, celebrando o Brasil soberano, o Brasil das artes”, completou.
Exposição
Ainda nesta terça-feira, outra ocupação importante vai marcar as celebrações e o local é especial. O Palácio Gustavo Capanema, sede histórica da Funarte, vai receber, às 16h, no mezanino, a exposição Visualidades Brasileiras - Funarte 50 Anos. Na abertura, o público apreciará uma roda de partilha e a performance Nimbo Oxalá, do artista Ronald Duarte.
Cinco décadas de arte contemporânea, políticas públicas e diversidade estética, estarão ali reunidas sob curadoria da pesquisadora e crítica de arte Luíza Interlenghi, abrangendo o período de 1976 a 2026.
“São revisitadas iniciativas históricas como os Salões Nacionais de Artes Plásticas, o Projeto Macunaíma, o Instituto Nacional de Fotografia (Infoto) e prêmios como Projéteis de Arte Contemporânea, Funarte de Arte Contemporânea, Conexão e Circulação, Mulheres nas Artes Visuais, entre outros”, adiantou a Funarte.
Show
A programação tem também, na área dos Pilotis, a partir das 18h, apresentação das cantoras nordestinas Cátia de França, da Paraíba; a baiana Josyara e Juliana Linhares, do Rio Grande do Norte.
O show passa pelos mais de 50 anos de carreira de Cátia, incluindo músicas que fazem parte de No Rastro de Catarina, seu mais recente trabalho; além de canções do repertório autoral de Josyara e Juliana, nomes de destaque na atual música brasileira independente.
“Elas compartilham um espetáculo construído a partir de escutas, atravessamentos e camadas distintas da música nordestina. A apresentação articula repertórios, gestos e sonoridades que tensionam tradição e contemporaneidade”, destaca a Funarte, acrescentando que “o trio revela afinidades e contrastes, criando um espaço de troca onde criação, memória e liberdade aparecem como forças centrais da cena”.
O show das três artistas ocorre em um lugar que foi palco de manifestações históricas que marcaram a luta pela resistência e defesa da cultura brasileira, como o Ocupa MinC, em 2016, e os protestos de 2021 contra a inclusão do Palácio Capanema em leilões de imóveis, conforme pretendia, na época, o governo federal.
Todas as atividades da programação são gratuitas e abertas ao público.
Palácio Gustavo Capanema
Considerado um marco da arquitetura modernista e do patrimônio cultural brasileiro, o Palácio Gustavo Capanema foi construído entre 1937 e 1945, para sediar o Ministério da Educação e Saúde Pública, no centro da cidade do Rio de Janeiro. O prédio é visto como um ícone mundial.
Liderado por Lúcio Costa, o projeto teve a participação de Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos e consultoria de Le Corbusier. Em seus ambientes se espalham obras de Cândido Portinari, Burle Marx, Bruno Giorgi, entre outros artistas consagrados.
Após nove anos fechado, ao completar 80 anos, o Capanema foi reaberto e devolvido ao Brasil, em 2025, após um intenso trabalho de restauro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC).
Junto com a reinauguração em 20 de maio do ano passado, houve a entrega da Ordem do Mérito Cultural (OMC), a mais alta honraria pública da cultura do Brasil. No mesmo dia, a sede histórica da Funarte foi reinstalada no local.
“É neste terreno emblemático que a Funarte conclui sua festa de aniversário: a primeira vez, desde o fechamento do edifício, que um evento público convoca a presença maciça da população ao local”, completou a Funarte na nota.

