A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) de São Paulo divulgou nesta segunda-feira, 4, o resultado final do concurso de arquitetura que vai definir o projeto do Parque Municipal do Bixiga, que será implantado no cruzamento das ruas Jaceguai e Abolição, na Bela Vista.
Em parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil, foi selecionado o trabalho liderado pelo arquiteto Antonio Roberto Zanolla, do escritório Democratic Architects, de São Paulo.
O vencedor receberá o prêmio de R$ 130 mil e será contratado pela Prefeitura para o desenvolvimento das etapas seguintes dos projetos de arquitetura, urbanismo e paisagismo do parque.
O concurso teve como premissa a renaturalização (processo de restaurar ecossistemas degradados) do Córrego Bixiga, hoje canalizado e soterrado, no trecho em que atravessa a área do futuro parque.
Segundo a comissão julgadora, o projeto vencedor se destacou por ser um "sistema aberto", em que o tratamento e desenho do córrego renaturalizado "assumem o protagonismo do lugar e proporcionam, por meio de passeios e passarelas, maneiras distintas e múltiplas de aproximação da água".
Outro ponto positivo destacado pela comissão foi a "simplicidade de execução e operação, dispensando intervenções custosas ou manutenções complexas".
Também serão premiados o segundo e terceiro lugar, respectivamente com R$ 60 mil e R$ 40 mil, para os quais foram escolhidos os projetos liderados pelos arquitetos Marcello Cusano Lindgren, de Vila Velha (ES), e Duarte Vaz Guedes e Silva (Rio de Janeiro - RJ).
A comissão reconheceu ainda em quarto lugar a proposta liderada por Manoel Belisário Bezerra Viana (Umari-CE), e em quinto lugar a de Mario Arturo Figueroa Rosales (SP). Receberam menções honrosas as propostas lideradas por Vinicius da Costa Lopes (SP) e Lua Nitsche (SP).
O concurso
Lançado em 25 de janeiro, o concurso teve um total de 82 inscritos e 64 propostas entregues. Segundo o cronograma, o prazo para apresentação de recurso vai de 4 a 7 de maio e o resultado definitivo e homologação do concurso ocorre em 17 de maio.
Representantes de movimentos sociais e do Teatro Oficina, historicamente envolvidos na demanda de criação do parque, participaram da divulgação.
Apesar do clima de comemoração, moradores demonstraram preocupação com o risco de expulsão da população local em função da valorização imobiliária promovida pelo parque.
"Sabemos que esse anúncio é suficiente para impulsionar a gentrificação e a expulsão da população negra, quilombola, nordestina, imigrante e artística do Bixiga", disse Solange Sant'Ana, membro do conselho gestor do Parque do Bixiga. Em paralelo à criação do parque, os moradores reivindicam a regulamentação do bairro como Território de Interesse da Cultura e da Paisagem, conforme definido pela revisão do Plano Diretor em 2023.
Praças abertas, horta e integração com teatro
A proposta eleita pelo concurso organiza o terreno do parque em duas partes: um setor alto, com programas sociais e esportivos e grande parte das edificações, e um setor baixo, com um bosque agroecológico e a renaturalização do córrego, acompanhado de caminhos e passarelas.
Conforme o parecer da comissão julgadora, o projeto da Democratic Architects demonstra capacidade de acomodar múltiplos usos e apropriações, tem uma boa articulação de espaços diversificados e relação com o entorno.
Essa última fica patente pela criação de praças de acesso abertas 24h, com oferta de banheiros públicos e da horta junto à Rua Jaceguai, que "reforça o desejo de acolhimento e de integração com a comunidade local", valorizando a iniciativa de plantio que já existe no local. Também há integração com o Teatro Oficina, simultaneamente preservando seu espaço.
Parque do Bixiga foi grande sonho de Zé Celso
A área de 11,1 mil m² do parque foi adquirida pela Prefeitura de São Paulo em agosto de 2024 por R$ 65 milhões. O poder municipal e o Sisan Empreendimentos, do Grupo Silvio Santos, dono do local desde a década de 1980, entraram em um acordo após quatro décadas de mobilização popular pela construção do parque.
O principal idealizador do parque foi o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, morto em julho de 2023. Em manifestos, performances e mobilizações públicas, Zé Celso juntou apoiadores diversos contra a construção de edifícios no entorno do Teatro Oficina, que se localiza na Rua Jaceguai, desde os anos 1960.
Entre as vitórias de Zé Celso após a venda dos imóveis vizinhos à Sisan Empreendimentos está o tombamento da sede da companhia nas esferas municipal, estadual e federal (com diferentes perfis e propostas de proteção). O imóvel tem projeto da reconhecida arquiteta Lina Bo Bardi (conhecida especialmente pelo Masp e o Sesc Pompeia), em conjunto com Edson Elito.
A mobilização contra construções no entorno do parque cresceu especialmente após o ano de 2000, quando foi aprovado um projeto para construir um shopping no local. Outra proposta que incorporava o teatro ao centro comercial foi apresentada quatro anos depois, também criticada pelo Oficina e posteriormente abandonada pela iniciativa privada.
Depois do shopping, foi a vez das torres. Em 2008, a Sisan propôs erguer um condomínio de três prédios. A obra teve entraves para a aprovação, chegou a obter decisões favoráveis nos órgãos municipal e estadual de patrimônio ao longo daquela década e da seguinte, mas não saiu do papel.

