USP não descarta acionar Justiça para retomar prédio invadido, mas acredita em desmobilização

O reitor da Universidade de São Paulo (USP), Aluísio Segurado, não descarta acionar a Justiça para obter uma reintegração de posse e retomar o prédio da reitoria, invadido por estudantes na tarde da última quinta-feira, 7.

Em greve desde o dia 23, os universitários ocupam o hall do edifício há mais de 24 horas e afirmam que só deixarão o local quando a USP reabrir as negociações para debater as melhorias reivindicadas pelo movimento estudantil.

Em entrevista a jornalistas nesta sexta-feira, 8, Segurado lembrou que, em 2023, durante uma greve estudantil que também resultou na ocupação de um prédio da antiga reitoria, foi necessário recorrer a "soluções jurídicas" para recuperar o espaço.

"Naquele momento, foi seguido o mesmo protocolo: foram acionadas a Guarda Universitária e a Polícia Militar e, como a situação se prolongou, incluindo danos ao patrimônio físico, como instalações e câmeras de vigilância, buscaram-se soluções jurídicas de mediação para conseguir a liberação do prédio. Isso foi obtido depois de algumas intervenções", afirmou. "Então, veja, isso (buscar a Justiça) não está afastado."

Apesar disso, o reitor avalia que ainda não é o momento mais adequado para essa medida. Segundo ele, assembleias estudantis previstas para a próxima semana poderão levar cursos atualmente paralisados a votar pelo encerramento da greve, diante de possíveis avanços nas negociações com a reitoria.

"Nós temos a expectativa de que muitas unidades possam tomar a mesma decisão", declarou, ao mencionar que outros campi da USP já optaram por encerrar a paralisação.

"Temos que observar o andamento dos próximos movimentos, nas próximas horas e nos próximos dias. Pode haver uma mudança nessas correlações de força, nessa adesão ao movimento, a partir dos avanços reais que já foram obtidos", acrescentou Segurado, que voltou a descartas novas rodadas de negociação.

Os estudantes aprovaram a paralisação em 14 de abril e iniciaram a greve no dia 23. Liderado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), o movimento acompanhou a mobilização de servidores, que também cruzaram os braços no mês passado em protesto contra uma gratificação anunciada pela universidade exclusivamente para professores.

Após pressão e mobilização, os servidores conseguiram avanços salariais e encerraram a paralisação. Os estudantes, porém, decidiram manter a greve e passaram a concentrar esforços em suas próprias reivindicações.

A principal demanda é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), que atualmente oferece benefícios entre R$ 335 para estudantes residentes em moradia estudantil e R$ 885 para auxílio integral.

A USP propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE. Dessa forma, o auxílio integral passaria para R$ 912 mensais, enquanto o auxílio parcial para estudantes com moradia subiria para R$ 340.

A proposta, no entanto, é considerada insuficiente pelos estudantes, que defendem um reajuste para R$ 1.804, valor equivalente ao salário mínimo paulista. "Os valores são insuficientes", afirmou uma estudante em coletiva de imprensa realizada durante a ocupação da reitoria.

Além disso, os estudantes criticam questões estruturais da universidade, como a gestão do restaurante universitário, conhecido como "Bandejão", a moradia estudantil e a situação do Hospital Universitário (HU), que, segundo manifestantes, perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década.

A reitoria abriu três rodadas de negociação com os estudantes, mas, diante da rejeição da proposta apresentada, decidiu encerrar unilateralmente as conversas, gerando insatisfação entre os grevistas.

Na última quinta-feira, os manifestantes bloquearam a entrada da reitoria por meio de um cordão humano, pressionando Segurado a retomar as negociações. Posteriormente, convocaram um novo ato para às 14h, que culminou na invasão do prédio (veja o vídeo acima).

Na manhã desta sexta, a USP chegou a cortar o fornecimento de água e luz com o objetivo de desmobilizar o ato. Policiais militares também foram acionados para um maior controle da situação.

Em conversa com jornalistas, Segurado afirmou que vê com "tristeza" a invasão e criticou que parte dos estudantes estavam encapuzados ou com bandeiras e camisetas de partidos políticos.

Ele afirma que "não reconhece erros" por parte da reitoria nas tratativas com os estudantes e rejeitou também a imagem de ser uma pessoa inflexível.

Segundo ele, a universidade esteve aberta ao diálogo desde o início das mobilizações, com conversas iniciadas já em 14 de abril, mesma data em que o movimento estudantil promoveu sua primeira paralisação antes de decretar, de fato, a greve.

O reitor reconheceu a legitimidade de algumas pautas estudantis, como melhorias na mobilidade interna e no restaurante universitário - para essas situações, foi proposto a criação de grupos de trabalho para pensar em soluções, o que tem sido considerado insuficiente pelos alunos.

Entretanto, ao ser questionado sobre a possibilidade de ampliar o valor do PAPFE para atender às reivindicações estudantis, Segurado afirmou que a proposta de aproximadamente R$ 1,8 mil "é impraticável" e reiterou que os R$ 912 oferecidos pela universidade representam o limite máximo possível. "Este é o valor final", declarou.

Segurado também ressaltou que estudantes podem acessar outros tipos de auxílio, como bolsas de pesquisa e estágio, que complementam o PAPFE, e destacou o compromisso da USP de criar, a partir do próximo ano, uma bolsa específica para os ingressantes da universidade e que se encontram em situação de vulnerabilidade socioeconômica.