'A melhor forma de estragar a cabeça de um filho é querer que ele salve o mundo', diz Pondé

O que significa dizer que precisamos ser mais humanos diante das tecnologias? O filósofo e professor da FAAP Luiz Felipe Pondé começou seu painel no São Paulo Innovation Week com essa provocação, ao discutir qual será a nossa abordagem em relação às tecnologias que surgem e se desenvolvem na nossa era.

Na mesa As Contradições da Inovação como Paradigma Contemporâneo, Pondé abordou a forma como as mudanças da tecnologia impactam o comportamento humano. De acordo com o filósofo, o humano não é "nem absolutamente perverso nem absolutamente santo", e que cabe ao tempo junto a essas inovações para saber como vai ser a nossa relação com elas.

"A história da humanidade é de massacres, avanços, regressos, ganhos e perdas. Não há nenhuma prova que a humanidade, enquanto moral e política, esteja de fato avançando. Então, o que quer dizer (quando dizemos que) a gente vai ter que ser mais humano? Não significa nada", apontou Pondé durante o painel.

Para ele, um dos motivos da complexidade da relação do humano com a tecnologia é a projeção das pessoas sobre os avanços tecnológicos, uma expectativa criada a partir de elementos muito simplórios da inovação - como a ideia de que um aparelho celular é melhor porque é mais novo, por exemplo.

Com isso, as pessoas tendem a imaginar que também as novas gerações terão uma relação melhor com a IA ou com outras tecnologias, e que serão elas as responsáveis por eliminar os aspectos negativos desse desenvolvimento.

"As melhores formas de você estragar a cabeça de um filho ou de uma filha é querer fazer com que ele salve o mundo, que seja uma pessoa perfeita, ótima, cheia de bons valores. Mas então, de onde que vem essa ideia? Ela vem da projeção sobre as pessoas dos avanços tecnológicos. A gente projeta isso sobre as pessoas, já que no sistema em que a gente vive tudo vai virando um produto", explicou Ponde.

O filósofo também afirma que nós não temos reserva ética para impedir avanços que tornem a vida mais confortável, apontando que esse é um conceito que vem de séculos atrás, com nomes como Francis Bacon, por exemplo, que defendia que os conhecimentos científicos tinham que ser um instrumento de controle da natureza.

"Quando se pergunta 'se você tiver a chance de, com o auxílio da inteligência artificial, fazer uma seleção de genes ou embriões para que seu filho ou sua filha seja o mais saudável, mais inteligente, mais bonito possível, você faria uso desse recurso?' Quase ninguém levanta a mão. Mas, evidentemente, se isso tiver à disposição, vai todo mundo usar", diz o filósofo.

Ainda, Pondé comparou o atual comportamento humano a um conceito apresentado ainda em 1903 pelo filósofo alemão Georg Simmel, que escreveu um ensaio descrevendo o impacto de uma mudança profunda na sociedade - na época, a migração de uma vida rural para um cotidiano centrado em metrópoles.

No ensaio, o alemão afirmou que os elementos que determinavam o ritmo nas cidades grandes, como a economia, as informações e a velocidade de uma vida urbana causaram um aumento na "intensidade nervosa" do indivíduo. A ideia é que, nesse contexto, o ser humano passou a ser sempre muito consciente de suas ações, enquanto na vida rural existiam elementos que podiam ser inconscientes ao longo dos anos.

"A própria necessidade de dar conta de muitas variáveis no espaço cada vez mais espremido de tempo produz maior intensidade nervosa na vida. Você tem que ser consciente o tempo inteiro. Agora, você tem que ser consciente com o fato que a inteligência artificial talvez seja mais inteligente do que você. A IA provavelmente vai ser mais um elemento para aumentar a intensidade nervosa do espírito humano", apontou Ponde.

Sobre o São Paulo Innovation Week

Maior festival global de tecnologia e inovação, o São Paulo Innovation Week é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.