O Brasil, como o resto dos países do mundo, tem um enorme desafio, que é reduzir as emissões de gases de efeito estufa, um dos principais responsáveis pelo aquecimento global. O setor dos transportes é responsável por cerca de 25% das emissões. Uma das medidas em curso no País é trocar o uso de combustível fóssil, como o diesel, por opções mais sustentáveis. Uma delas é a eletrificação, tecnologia na qual os ônibus são movidos por meio de baterias elétricas.
Esse foi o tema do painel Descarbonizar a Cidade Começa pelo Transporte, do São Paulo Innovation Week (SPIW), e teve a participação de Anderson Farias, prefeito de São José dos Campos (SP); Milena Braga, CEO da Eletra; Gustavo Tanure, CEO da EzVolt; e Ana Beatriz Monteiro, especialista e líder de transporte do BID (Banco Interameriano Desenvolvimento).
O debate ocorreu nesta quinta-feira, 14, no SPIW, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para o evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.
Logo no início do debate, a moderadora Ana Beatriz, do BID, questionou o prefeito de São José dos Campos sobre o que levou a cidade a apostar na eletrificação da frota.
"A cidade tem há algum tempo o DNA da inovação", diz Anderson Farias. "Por isso, desde 2018 e 2019 já enxergávamos que era preciso haver mudanças no sistema de transporte público da cidade. Segundo ele, "a operação é muito cara, o diesel é caro e deixa a desejar do ponto de vista da qualidade para o usuário".
Além disso, na maior parte das cidades do País, o sistema de transporte público demonstra perda de passageiros desde 2020.
"A cidade optou por tentar mudar esse retrato para trazer mais passageiros ao sistema", explica Farias. "E uma das formas de fazer isso é justamente oferecer um veículo melhor, mais confortável e silencioso."
Mudança de cultura
No começo, relata o prefeito, foi difícil. Segundo ele, havia muita resistência por parte do operadores acostumados com um modelo de negócio que vinha de décadas com o uso de diesel.
Uma das questões era com relação ao custo do veículo, em geral cerca de três vezes mais caro que um movido a diesel.
Hoje a cidade tem uma frota com 20 ônibus elétricos com planos de expansão para mais 350 até o final de 2027. Todos fabricados pela Eletra, empresa brasileira com sede em São Bernardo do Campo (SP).
Segundo o prefeito Anderson Farias, com o tempo, a resistência foi superada. "Hoje, eles já compreenderam que a mudança valeu a pena. Entre outras vantagens, a manutenção de um ônibus elétrico é mais barata que a de um veículo que roda a diesel", explica.
Para acelerar a eletrificação da frota na cidade, no entanto, Farias diz que faltam políticas públicas, linhas de financiamento mais acessíveis, além de maior segurança jurídica dos contratos. "Isso é muito importante para operador privado operar com segurança", complementa Ana Beatriz, do BID.
'Caminho sem volta'
Para Milena Braga, CEO da Eletra, o Brasil avançou muito na eletrificação do transporte público. Ela cita por exemplo, a lei da cidade de São Paulo que, desde outubro de 2022, proíbe a compra e inclusão de novos ônibus a diesel na frota municipal. "Até alguns anos atrás havia 215 trólebus elétricos no País", lembra. "Atualmente, o Brasil já tem cerca de 1.300 ônibus elétricos."
Segundo a CEO, a empresa tem 978 veículos elétricos circulando em 17 cidades de 10 Estados. "Nossos veículos têm 96% de nacionalização. Além disso, todos os engenheiros são brasileiros."
Questionada pela mediadora sobre como ter escala na linha de produção e, como isso, pode reduzir o custo final do veículo, Milena respondeu que um passo importante é ter previsibilidade. "Precisamos ter uma regulamentação melhor e políticas públicas bem definidas para que os municípios possam colocar a eletrificação das frotas na agenda", diz.
Essa demanda garantida, segundo a executiva, será fundamental para que indústria possa se organizar e oferecer um preço final menor. "Nós temos engenharia, inovação e capacidade produtiva para responder a essa demanda. A eletrificação é um caminho sem volta."
'Infraestrutura vem atrás da demanda'
Conforme Gustavo Tanure, CEO da EzVolt, os empresários do setor já identificaram que operar uma frota elétrica é melhor do que a diesel. "Mas, hoje, o desafio é ter uma boa infraestrutura para carregamento dos veículos na garagem."
Segundo Tanure, essa tem sido uma das barreiras mundiais para o avanço da eletrificação. Mas, segundo ele, esse desafio está sendo vencido, embora ainda seja preciso superar alguns gargalos. "Estou muito otimista com essa questão. A infraestrutura sempre corre atrás da demanda. O próprio mercado acaba se regulando."
Tanure concorda que para destravar a eletrificação do transporte público no próximos anos é preciso novas políticas públicas e financiamento mais acessíveis, além de mais Parcerias Público Privadas (PPPs).

